rr.sapo.ptrr.sapo.pt - 26 jan. 07:00

Inflação para lá da guerra. Como as alterações climáticas podem fazer aumentar os preços dos alimentos

Inflação para lá da guerra. Como as alterações climáticas podem fazer aumentar os preços dos alimentos

Secas prolongadas, chuvas intensas, cadeias de abastecimento interrompidas e agricultores envelhecidos põem em causa a segurança alimentar. Podem as alterações climáticas fazer a inflação prolongar-se no tempo?

Desde 1961, as alterações climáticas reduziram a produtividade agrícola global em 21%, revela um estudo de 2021, publicado na revista Nature Climate Change. E o problema poderá agravar-se nos próximos anos - o que se reflitirá nos preços para o consumidor.

O preço dos produtos alimentares disparou em 2022. O relatório extraordinário do IPES (Painel Internacional de Especialistas em Sistemas Alimentares) refere que esta é terceira crise alimentar dos últimos 15 anos. Vários fatores explicam o fenómeno: as cadeias de distribuição foram profudamente afetadas pela pandemia de COVID-19, a guerra da Ucrânia afetou o fornecimento de cereais e de gás natural, e a escalada no preço dos combustíveis fez disparar o custo de bens essenciais como os hortícolas ou o peixe.

Mas as alterações climáticas podem ter um efeito mais duradouro no preço dos alimentos, pricipalmente dos que vêm da terra. A agricultura é totalmente dependente do clima e está cada vez mais vulnerável a ele. Mais cedo ou mais tarde, “as alterações climáticas vão ter um impacto significativo no preço dos alimentos”, diz à Isabel Dinis, especialista em Economia Alimentar. Os eventos climáticos extremos vão implicar condições mais difíceis de produção, destruição de colheitas e maiores custos de manutenção para os agricultores. Tudo isto subirá os preços para o consumidor.

Agricultores veem plantações destruídas. O tempo "está todo trocado"

Qualquer agricultor sabe que um clima variado é essencial à agricultura. António José Stretch, engenheiro agrónomo e especialista em agricultura biológica, explica porquê: “o frio, por exemplo, faz bem para quebrar a dormência dos frutos. Mas o calor em demasia seca, as tempestades estragam tudo, e a chuva alaga os solos”. Imprevistos climáticos e situações extremas sempre fizeram parte da profissão de agricultor, mas agora o tempo “está todo trocado”, observa o especialista.

Verões antecipados, secas prolongadas e chuvas intensas têm destruído plantações e culturas. Nélio Paiva, agricultor na Nazaré, teme que a produção dos próximos meses esteja em risco: “Plantei couves há dois meses e elas estão tal e qual como as plantei. Não cresceram nada. Enquanto numa estação normal, elas estariam aqui em aberto, em meia cabeça”.

Apesar de ter conseguido atenuar os custos no último ano, por não recorrer a pesticidas, amónios e outros produtos químicos que aumentaram de 20% a 50% em 2022, Nélio receia que a “chuva a mais” o obrigue a subir os preços.

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O agricultor garante o abastecimento de uma banca de mercado e de um serviço de entrega de cabazes de produtos hortícolas ao domicíclio (O Canteiro) a partir de produção própria e de uma rede de parcerias na zona da Nazaré.

Mas as chuvas recentes trazem incerteza: “estes próximos meses vão ser muito difíceis, porque não conseguimos entrar na terra para plantar, nem temos produto mais antigo para colher”. E se todos os produtores da zona tiverem o mesmo problema que Nélio, a pouca oferta de alimentos fará disparar os preços.

Segurança alimentar também implica repensar o que se semeia

Apesar de as chuvas intensas do final do ano terem colmatado as carências deixadas pelas secas intensas do verão, elas prejudicaram as sementeiras de cereais, principalmente do trigo mole e do trigo duro, cuja produção se prevê decrescer em 10% e 5%, prevê o INE. Além disso, as condições metereológicas adversas implicaram uma quebra na produção de azeitonas para azeite de 35%.

Mas a produtividade das culturas agrícolas em Portugal não tem mostrado sinais de abrandamento, ao contrário do verificado noutras partes do mundo.

A zona do Mediterrâneo será das mais afetadas pelas alterações climáticas, principalmente por secas severas que vão alterar a paisagem e o tipo de alimentos que podem crescer nestes países. Por isso, Isabel Dinis, professora de Economia Alimentar, acredita que “é necessário começar a pensar em culturas e variedades que se adaptem a estas novas condições”.

Segundo António Stretch, “as variedades regionais portuguesas são mais resilientes do que as mais recentes às alterações climáticas”. As variedades portuguesas são as que são naturais do nosso território e que, por isso, se adaptam perfeitamente às suas condições, enquanto as variedades recentes foram adotadas com o tempo, normalmente tradizas do estrangeiro. No caso das maçãs, uma variedade tradicional é a Bravo Esmole e a recente, a Maçã Gala. O engenheiro defende que “uma das grandes armas que o agricultor tem [contra as alterações climáticas] é cultivar biodiversidade, quer nas variedades quer nas culturas”. Iniciativas de investigação e desenvolvimento no Alto Douro Vinhateiro já têm vindo a estudar tipos diferentes de castas antigas que possam ser mais resistentes a períodos prolongados de seca, a verões antecipados e a chuvas intensas.

Portugal registou mais de 960 variedades agrícolas e hortícolas em 2022, mas há produtos alimentares que o nosso território não é capaz de gerar, porque não há terrenos suficientes e porque as condições climatéricas não são ideais para a produção de certos alimentos.

Portugal produz fruta, hortícolas, azeite e vinho suficientes para consumo nacional, mas existem outros produtos em que é deficitário, como é o caso dos cereais, cuja produção ronda os 30% do consumo.

Este défice é particularmente acentuado nos cereais de inverno, como o trigo ou o centeio. Isabel Dinis acredita que é essencial garantir a “produção de mínimos dos produtos mais essenciais [ao] nosso abastecimento interno”.

Alguns países começaram a adotar estratégias que privilegiam o fornecimento da população antes das exportações. Entre setembro e dezembro, por exemplo, a Índia cortou as importações de certos tipos de arroz e taxou severamente outros, privando o resto do mundo de 40% do seu fornecimento de arroz.

Este tipo de medidas faz aumentar a insegurança alimentar, principalmente em situações de conflito armado ou de eventos climáticos extremos que podem causar constrangimentos na produção ou nas cadeias de distribuição. Por isso, a professora acredita que “é necessário repensar o modo como utilizamos os territórios para a produção de alimentos considerados primários, para evitar situações em que estamos demasiado dependentes de outros países e pomos em causa a nossa segurança alimentar”.

António Stretch faz um apelo semelhante:

“Quem tiver terra que a cultive, para garantir a sua soberania alimentar. Porque cada vez mais a disponibilidade alimentar vai ser reduzida e incerta. E o país esqueceu-se disso”.

O relatório para a segurança alimentar do IPES (Painel Internacional de Especialistas em Sistemas Alimentares) reforça que, além de garantir a soberania alimentar dos países e o peso das importações dos bens alimentares, é importante reduzir a dependência em fertilizantes químicos que são altamente dependentes de gás natural. Mas, segundo dados do INE, Portugal é o país da União Europeia que menos recorre a fertilizantes minerais, consumindo menos de metade da média europeia.

Além de não haver condições para trabalhar a terra, pode não haver quem a trabalhe

A professora da Escola Superior Agrária de Coimbra mostrou-se preocupada com o decrescente interesse na profissão de agricultor que, aliado às alterações climáticas e à diminuição das importações, pode ser um fator de insegurança alimentar no futuro: menos agricultores resultam em produção alimentar, manutenção da paisagem e em defesa contra os incêndios mais deficientes. Nélio Paiva concorda:

“Daqui a 20 anos, não vamos ter agricultores em Portugal. O Estado continua a esquecer-se de que é do campo que vem tudo para sobrevivermos”.

Ambos afirmam que a profissão de agricultor está envelhecida e de que é cada vez menos aliciante para as camadas mais jovens. Segundo dados do INE, os agricultores são, na grande maioria homens, e têm, em média, 64 anos de idade e nível básico de escolaridade. Mas o mesmo documento concluiu que o abandono significativo da profissão que se tinha registado entre 1989 e 2009 abrandou na última década.

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