observador.ptObservador - 24 jan. 00:12

A Educação em estado de emergência

A Educação em estado de emergência

O país acordou com grande inquietação para o momento que se vive na Educação, em Portugal. Os professores estão a dizer ao país que a Educação não está bem.

Os professores colocaram na Ordem do Dia que, sendo o conhecimento o principal fator de desenvolvimento do país, não estão satisfeitos com o estado da Educação.

E todos nós sabemos como é crucial a qualidade da Educação para o nosso desenvolvimento coletivo, assim como sabemos da importância que têm os professores para que essa qualidade seja uma realidade.

Sabemos, mas não prestámos atenção. Como se a simples proclamação de que o conhecimento é o principal fator de desenvolvimento sustentável do país, por si só bastasse para que o fosse. Mas não basta e foi isso que os professores nos vieram dizer.

Os professores alertaram para a importância que a qualidade das aprendizagens, alicerçadas no rigor, têm de ter na aquisição de conhecimentos, pelos alunos.

Alertaram para não nos deixarmos embalar pelo facilitismo, pois da melhoria dos indicadores de transição de ano escolar não podemos intuir a existência de melhoria do conhecimento.

E é de melhoria do conhecimento que o país precisa para que tenhamos cada vez mais cidadãos detentores de espírito crítico, com percursos académicos mais longos sustentados no saber, preparando-se para serem profissionalmente mais produtivos.

E todos sabemos como, para mantermos o Estado Social, teremos de apostar, também, como compensação, no aumento da produtividade das novas gerações, num país que vive um inverno demográfico e em que diferentes estudos apontam a continuidade dessa tendência. O aumento da produtividade não está desligado do aumento do conhecimento.

Os professores sabem-no bem e por isso nos alertam para a degradação da profissão docente, estrutura primeira do garante da qualidade da Educação.

E como se essa degradação da estrutura da carreira docente não bastasse, ainda têm de responder a um aumento crescente da burocracia nas escolas, retirando-lhes tempo para pensar a docência e consequentemente melhorarem as aprendizagens dos seus alunos.

Pensar é inerente à sua profissão. Refletir sobre o trabalho que vão executar com os seus alunos, visando a melhoria do seu conhecimento, é absolutamente necessário. E esse pensamento reflexivo, bem como a formação que vão adquirindo é essencial para o aumento da qualidade do seu desempenho e consequentemente dos seus alunos, e requer tempo.

O que os professores nos estão a dizer é que como trabalhadores intelectuais a sua carreira tem de lhes proporcionar dignidade para o exercício das suas atividades, dentro ou fora da sala de aula, dentro ou fora da escola. Têm de ser respeitados na sua função.

E os decisores políticos têm de saber ler esses sinais. Não os podem ler à luz da interpretação clássica, porque a mesma análise conduz sempre ao mesmo tipo de procedimentos.

Dificilmente o poder político pode responder a todo o caderno reivindicativo dos sindicatos. Mas pode fasear o atender de algumas das questões relevantes e levantadas, como são os casos, entre outros, dos baixos salários, principalmente na primeira parte da carreira, ou da contagem integral do tempo de serviço prestado pelos professores.

Neste último caso concreto nenhum de nós pode considerar justo que esse tempo de serviço prestado seja ignorado para a progressão na sua carreira. E criaram-se dois sistemas num só país, pois nas Regiões Autónomas, com Governos próprios, o tempo foi integralmente contado, de forma faseada, conforme foi negociado.

Governar é tomar decisões, escolher entre várias opções. Quando se quer defender a Educação e neste caso concreto a “escola pública”, não se pode deixar de considerar nas nossas opções a carreira dos professores.

Os professores, nomeadamente quando o país esteve debaixo de um resgate financeiro, embora nunca abandonassem os protestos de rua, tiveram a compreensão de que as respostas às suas pretensões seriam sempre as possíveis naquele contexto, mas criaram a expetativa de que findo esse período, em nome da “escola pública”, poderiam ver a sua carreira valorizada.

O tempo passou, outros Governos surgiram, os representantes dos professores perderam acutilância e saíram da rua, e os problemas da Educação não foram resolvidos. Avolumaram-se.

O grande número de alunos com falta de professores, resulta como uma das grandes evidências desse período.

E quando os nossos representantes nos ignoram surgem outros protagonistas, organizados ou não, que agregam o descontentamento.

Foi assim na nova composição da Assembleia da República. Está a ser assim com novos protagonistas no mundo sindical.

O país acordou para a grande inquietação que se vive na Educação.

O país político tem de acordar também.

A cegueira ideológica nunca foi boa conselheira, mas numa democracia, no século XXI, deveria estar completamente arredada das decisões, pelos seus efeitos perniciosos, impeditivos de se tomarem opções consentâneas com o desenvolvimento do país, fragilizando a democracia e os seus decisores políticos.

Para o ilustrar bastaria fixarmo-nos no custo para o país da reversão de privatizações. E esses exemplos, frequentemente utilizados no presente momento que vivemos, agregam, dando força às reivindicações dos professores que pugnam pela revalorização da sua carreira, em defesa da “escola pública”.

Os professores sabem bem que governar é optar, em cada momento, pelo que se considera prioritário para o país.

E sabem que o momento da opção pela Educação tardou excessivamente. E fizeram-no acontecer. O momento chegou com os professores a saírem à rua.

Tem agora de haver uma postura de grande abertura e seriedade, entre os principais interlocutores, focados na resolução das questões apresentadas. Têm de aproveitar o momento para dignificarem a carreira e mostrarem ao país que em nome de um bem maior revelaram capacidade para estabelecerem os consensos necessários para o país, através da Educação, garantir a todos os seus cidadãos um maior desenvolvimento económico, social e cultural. Essa postura negocial não enfraquece ninguém, pelo contrário, engrandece.

A Escola, saída de uma pandemia, período em que os professores tiveram exclusivamente a seu cargo a manutenção do contacto com os alunos e de atenuar os danos ao desenvolvimento do seu conhecimento, precisa de voltar a ter paz para que todos se concentrem na recuperação dessas aprendizagens.

Mas se num primeiro momento é preciso que os principais protagonistas, se sentem à mesa negocial com serenidade, capacidade de escuta e criatividade, para resolver a presente situação a curto prazo, num segundo momento é absolutamente necessário que se pense estrategicamente o país e o papel da Educação, sentando à mesma mesa diferentes sensibilidades políticas.

A Educação tem um papel demasiado importante para termos preconceitos ideológicos que impeçam que nos entendamos sobre as questões estruturais, incontornáveis ao desenvolvimento do nosso país. Perdemos demasiado tempo e recursos, em avanços e recuos de natureza ideológica, que em nada servem o país.

Quando em Educação não temos capacidade para estabelecermos Pactos de Regime sobre as matérias estratégicas de desenvolvimento do país, sobre o que é estruturante e consequentemente se devem estabelecer consensos, no médio e no longo prazo perde o país, perdemos todos.

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