www.publico.ptpublico@publico.pt - 23 jan. 16:23

Jacinda, Shakira e a beleza das mulheres com vontade própria

Jacinda, Shakira e a beleza das mulheres com vontade própria

De uma esperava-se o silêncio; de outra, que continuasse na ribalta. Com a certeza da crítica, fizeram a melhor escolha: o que as apetece.

Quando Shakira decidiu lançar ao mundo uma canção-desabafo sobre o ex-marido, optou também por ignorar as convenções sociais para uma mulher em sua situação. Escancarou ter sido traída, criticou a supervalorização da juventude feminina e minimizou o impacto de suas ações na vida dos filhos. Optou pela visibilidade radical no momento em que o que se esperava era o silêncio.

As mulheres, dizem os preceitos sociais, devem manter a discrição. Tudo muito privado. Já perceberam como até uma gargalhada feminina pode gerar olhares de reprovação? Elas devem, ainda, sacrificar tudo pela família e manter um certo orgulho próprio. Duas atitudes que, de brinde, ajudam a preservar a imagem de quem as magoou.

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Ao subverter a expectativa, Shakira sabia que seria criticada. Talvez só não imaginasse que a celeuma sobre sua escolha ofuscaria o fato de que seu ex-marido havia levado a amante para a própria casa, partilhar de sua geleia. Menos ainda que seu despeito renderia a ele dois novos patrocinadores.

Shakira ousou trazer a público sua vida privada — e foi criticada — na mesma semana em que Jacinda Ardern decidiu deixar o cargo público para ter mais espaço para sua vida privada — e foi criticada.

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Depois de seis anos como primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda decidiu renunciar. Disse que gostaria de deixar aos neozelandeses “a crença de que é possível ser gentil, mas forte; empático, mas decisivo; otimista, mas focado. E que é possível ser seu próprio tipo de líder — alguém que sabe quando é hora de ir embora".

Ela disse que já não tinha a energia necessária para levar adiante um cargo de tamanha responsabilidade e decidiu não fazer o que a maioria dos políticos (homens) faz: manter-se no poder a qualquer custo pelo maior tempo possível.

Ardern, assim como Shakira, sabia que seria criticada. Já o havia sido durante todo o mandato. Quando decidiu ter um filho, e também quando voltou a trabalhar depois de seis semanas. Quando mudou um voo para ficar menos tempo longe do bebê, e também quando decidiu manter a viagem enquanto ainda amamentava.

Lembro-me como se fosse hoje quando uma especialista em questões de gênero me disse em uma entrevista: “Too tough, too soft. Never just right”. Era o ano de 2010 e eu fazia uma reportagem sobre as consequências simbólicas da eleição de Dilma Rousseff, primeira mulher a assumir a presidência do Brasil.

Desde então — e lá se vão mais de dez anos — não consigo deixar de vestir os óculos de gênero para olhar o mundo. Com eles, as críticas às mulheres saltam aos olhos. Mas também a coragem delas ao subverter as expectativas. Ou, talvez, a palavra correta seja lucidez, para deixar de buscar uma aprovação que nunca virá e respeitar seus próprios desígnios.

A autora escreve em português do Brasil

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