visao.sapo.ptsvicente - 21 set. 17:59

Visão | Putin e a máquina de terror

Visão | Putin e a máquina de terror

As ameaças ao recurso a armas nucleares, ou a uma escalada da guerra que envolva as centrais nucleares, existentes sobretudo na Ucrânia, acontece sempre que a Rússia perde terreno para o seu adversário

O Estado Islâmico, ou melhor o DAESH, foi a maior e melhor máquina de propaganda conhecida até ao momento.

A sua atividade, baseada no terrorismo internacional, ao ser propagandeada e divulgada pelos meios de comunicação social, prolongava o sentimento de insegurança e de terror muito para além do ato em si e até das consequências do mesmo.

A transmissão de execuções sangrentas e de torturas feita pelo próprio grupo tinha esse mesmo propósito, que é aliás a base do terrorismo: inspirar o terror.

De tal forma que, mal víamos um homem (na generalidade eram homens) com o macacão laranja dos condenados, sentíamos de imediato esse pavor, mesmo que não víssemos quaisquer imagens.

Esta estratégia, que do ponto de vista da comunicação revelou-se brilhante, contou com a cumplicidade não planeada dos media, a tal ponto que foi necessário um acordo por forma a que estas imagens deixassem de ser divulgadas, porquanto a sua disseminação era a prorrogação do terror que se pretendia inspirar.

Durante o acontecimento mediático do momento – a morte e posteriores exéquias da Rainha – deu-se um ataque à central nuclear de Mykolaiv, com um míssil que deflagrou a300 metros do principal reator.

Aparentemente faz todo o sentido o que escrevi no meu artigo anterior, Patrimónios de Segurança, e torna-se urgente a intervenção dos Capacetes Azuis por forma a protegerem estas centrais que representam verdadeiras armas de guerra, podendo ter repercussões em todo o mundo.

Mas a questão que gostaria de abordar é a aprendizagem feita pelo senhor Putin da estratégia “Daeshiana”.

Perante toda a situação vivida desde fevereiro, pergunto-me se não estará mais do que na hora de reformular a constituição do Conselho Permanente

Com efeito, as ameaças ao recurso a armas nucleares, ou a uma escalada da guerra que envolva as centrais nucleares, existentes sobretudo na Ucrânia, acontece sempre que a Rússia perde terreno para o seu adversário.

Creio que, não sendo a maioria de nós peritos em matérias militares, não teremos muitas dúvidas de que, perante todas as tecnologias ao dispor e com um grau ínfimo de falha, se tivesse de facto havido vontade clara em fazer explodir a central nuclear, tinham-lo feito. Trezentos metros é claramente um aviso, uma forma de pressão, de fazer escalar o terror face ao que pode ser a nova estratégia do Kremlin.

Não creio que tal estratégia passe por uma guerra nuclear (pero que las hay, las hay…), mas sim algo mais insidioso, fomentando o medo nos cidadãos e levando as opiniões públicas a revoltarem-se contra esta guerra, deixando de apoiar o invadido por medo do invasor.

No dia em que reúne a cimeira do Conselho de Segurança da ONU, perante toda a situação vivida desde fevereiro, pergunto-me se não estará mais do que na hora de reformular a constituição do Conselho Permanente.

Por diversas razões: primeiro, porque já não representa a maioria da população mundial. Não se entende que não exista uma representação africana nem latino-americana, já para não falar dos países hindustânicos, neste Conselho.

Tão pouco se compreende que a Rússia continue a fazer parte do mesmo.

A assinatura da Carta das Nações Unidas obriga os seus membros a determinadas ações no âmbito das relações internacionais, nomeadamente o escrupuloso reconhecimento à autonomia dos povos e à soberania dos Estados.

Ora, quando um Estado com assento permanente quebra este compromisso, o passo natural seria a sua irradiação do lugar que ocupa.

Acresce a isto o facto desse mesmo Estado – a Federação Russa – estar neste momento a ameaçar toda a Europa, quer por via dos cortes energéticos, quer pelas ameaças que faz e cuja demonstração não cessa de levar a cabo.

O que nos leva a outra questão:

O que significa hoje em dia o ataque a um Estado? Neste preciso momento, a NATO não considerará que os Estados que a compõem estão a ser atacados?

Mas isso é um outro tema a abordar.

Para já, esperemos que, pelo menos, saia desta cimeira uma proposta de defesa internacional das centrais nucleares.

Já isso seria positivo e nos daria algum conforto.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

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