ionline.sapo.ptEduardo Oliveira e Silva  - 27 out. 10:20

Às urnas e em força

Às urnas e em força

A convocação de eleições tem de ser vista como uma solução natural, apesar de ter inconvenientes.

1. Na hora de enviar esta crónica, o Governo preparava-se para ver rejeitado o seu Orçamento pela dupla Catarina-Jerónimo, apesar das cedências de António Costa. A votação está prevista para hoje, sendo improvável qualquer evolução viabilizadora de última hora. Em consequência, o presidente Marcelo fez saber que dissolverá o parlamento e chamará o povo às urnas, coisa que ele e todos queriam evitar, mas não conseguiram. Dar a cada um dos eleitores a chave da decisão, sem dramas nem choradeiras, é coisa natural em democracia, ainda que nem sempre seja desejável. Este desiderato era, apesar de tudo, uma hipótese, desde as últimas legislativas que destruíram o equilíbrio a três partidos a que chamámos ‘‘geringonça’’. Esse desenho desengonçado durou uma legislatura e foi feito contra a PAF de Passos Coelho que, escusadamente, tinha ido para além da troica, vendendo ativos que hoje bem falta nos fazem. Nesta legislatura, já não fazia sentido e também não havia mais espaço para gritar que a culpa de todos os males era do tal Passos, da troika ou mesmo da pandemia. Mudaram as circunstâncias e, apesar das cedências suicidárias do PS, nada chegava para saciar o Bloco de Esquerda. O PCP ainda poderia ceder porque objetivamente alguns dos seus eleitores ganhariam no imediato com o leilão em curso. Mas aí o Bloco ficaria sozinho na oposição. Teria o novamente o melhor de dois mundos. Ficaria na posição confortável de quem vive em zonas finas, adora Sushi, encomenda Uber Eats, tem casa própria, frequenta espetáculos de vanguarda, conhece mundo e proclama ser de esquerda, exigindo tudo para todos, sabendo de antemão que não há dinheiro. Estes discípulos da vedeta Varoufakis são tão dissimulados como ele. A palavra, pois, ao sensato povo português. A pior coisa que aconteceria era, precisamente, não irmos às urnas e continuarmos a definhar lentamente. O que é pena é voltarmos a ir sem ter mudado as leis eleitorais, mantendo um sistema anacrónico, uma distribuição eleitoral de deputados desequilibrada e convidativo à abstenção. E se os resultados não ditarem um vencedor óbvio, pois que se façam coligações patrióticas à direita, ao centro ou à esquerda, em função do quadro decidido pelos portugueses.

2. A campanha interna para a liderança do PSD já está a ser dura. Começou logo com o tom de Rio na confirmação da sua candidatura, efetuada no seu reduto do Porto em jeito comicieiro. Ficou fundamentalmente o registo de duas farpas: a acusação de que Rangel teve o pior resultado de sempre do partido e a referência à forma veemente como o próprio Rio diz que reage quando está picado. A ameaça pode ser válida no boxe, mas não na política democrática. Sobretudo quando se trata de uma disputa que pode determinar o nome do primeiro-ministro. Imagine-se o que seriam as reações de um Rio picado e chefe de Governo contra um sindicato, contra uma manifestação discordante, contra uma empresa que contestasse um ato governativo, contra um técnico do Estado que decidisse em desfavor do poder? Ser combativo é virtude, ser vingativo é defeito. Rio acaba, entretanto, o mandato. Há que chamar os militantes a pronunciar-se. Não é a melhor altura? Paciência! Quem passou pelo Tribunal Constitucional, como Mota Pinto que preside à mesa do Congresso do PSD, deveria saber isso melhor do que ninguém. Compete-lhe mais agilizar o processo do que criar entraves não democráticos. Se houver problemas a resolver há o conselho de jurisdição interna e o próprio Tribunal Constitucional, que regula os partidos. Curiosamente muitos dos que acharam a formação da ‘‘geringonça’’ uma perversão democrática, consideram agora que Rio pode permanecer no poder sem ir a votos. Já nem em África se usam esses esquemas.

3. Como aqui se alertou ainda na semana passada, a pandemia está a recrudescer em vários países. O nosso não é exceção. Os jornalistas e comentadores voltaram a estar preocupados e a repor o tema na ordem do dia, o que é correto. É, no entanto, essencial recordar que, este outono/inverno, apesar da alta taxa de vacinação nacional, é a primeira época fria que vamos passar com a variante Delta, muito mais perigosa e mortal, podendo surgir outras. As coisas podem agravar-se subitamente e o descalabro do SNS está mais à vista do que nunca. Mesmo em gestão, o Governo tem de assumir o controlo da situação, preparando os diversos poderes públicos para cenários mais graves do que os esperados.

4. É impressionante a falta de eficácia do Estado em resolver questões da economia real. Há um ano foi decidida a nacionalização da Efacec na sequência de problemas com a fortuna de Isabel dos Santos. A estória contada aos portugueses rezava que o assunto se resolveria num instante, que a empresa era magnífica, havendo imensos interessados nela. Até agora nada. Está tudo a arrastar-se e estamos mais perto do que nunca da Efacec se transformar num elefante branco. Logo na altura, houve quem tivesse tentado moderar o otimismo, lembrando que a empresa servia basicamente necessidades do mercado africano, bastante mais rudimentar do que o europeu. É e de apostar que a questão se vai arrastar, ao jeito da Dielmar, com custos enormes para os contribuintes e sem soluções para os trabalhadores.

5. Aguarda-se que a ASF, o regulador dos seguros e das mutualistas, se pronuncie sobre os perfis dos envolvidos nas diversas candidaturas ao Montepio. Há nomes controversos em vários movimentos internos. Luís Patrão (o diretor geral do Partido Socialista) é um deles. Está na lista de Virgílio Lima como administrador. Em tempos, foi afastado do Governo (juntamente com Armando Vara) por pressão do presidente Sampaio pelo envolvimento na constituição da Fundação para a Prevenção e Segurança Rodoviária com dinheiros públicos, numa manobra que nem o primeiro-ministro da época (Guterres) conhecia. Segundo foi noticiado, na mesma lista constará o provedor da Santa Casa, Edmundo Martinho, como candidato à Assembleia de Representantes. A documentação pessoal de Martinho foi, há dias, objeto de uma investida da judiciária, alguns anos depois do jornal Nascer do SOL ter sido o único a denunciar certos benefícios de que o dirigente usufruía e lhe eram, alegadamente, concedidos, ilegalmente, pela própria Santa Casa. Entretanto, há notícia de que um dos candidatos à Associação Mutualista, Pedro Alves, processou, em junho, o jornalista do Observador Edgar Caetano por divulgação de supostas falsidades, invocando o direito de resposta junto deste meio. Está para se ver se a nota é publicada, esclarecendo a sistemática intoxicação contra o líder do chamado grupo dos quadros, que quer liderar o Montepio. Uma das campanhas insinua que Pedro Alves é um instrumento de Tomás Correia e que a sua idoneidade está a ser questionada através de inquérito, o que não corresponde à realidade. As investigações abertas sobre este gestor pelo Banco Portugal foram arquivadas.

6. Nem um marciano recém-chegado acreditaria na justificação dada para proibir os paraquedistas de desfilar a cantar os seus hinos tradicionais e usando o seu específico passo de marcha, no dia do Exército. A proibição imposta pelo chefe do ramo (muito estimado pelo PS) tem natureza obviamente política. Perante a vaia monumental de que o chefe militar e o ministro Cravinho Jr. foram objeto no desfile por parte de antigos militares e face ao silêncio de ambos, foi o presidente Marcelo que explicou que a proibição ocorreria só este ano e resultava da pandemia. Ficou-lhe mal a função de assessor de imprensa, além de que ninguém acredita nisso, quando se vê os ajuntamentos que há por todo o lado.

Escreve à quarta-feira

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