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Fala Paula pintora

Fala Paula pintora

Quando vejo a pintura de Paula Rego, lembro-me sempre de pequenas tartarugas rastejantes, recém-eclodidas, em busca do mar. Mal existem, mal sabem rastejar-se, e já enfrentam a resistência da areia, a chapada do vento e o voo perturbador das gaivotas.

Estas atacam rasantes, afocinham mortais: alcançam as tartarugas, fecham-lhes o bico alicate na cabeça e arremessam-nas a seco contra as rochas. Partem-se as carapaças às tartarugas, fica o recheio húmido e mole, ainda vivo e pulsante, petisco muito apreciado entre as gaivotas.

Esta desgraça contou-a assim, pelas palavras dele, o meu primo Miguel. Há uns anos, ofereceu-se como voluntário em Serralves. Acabou como motorista de Paula Rego aquando de uma grande retrospectiva. E não resistiu a descrever-lhe a aflição das tartaruguinhas, a voragem das gaivotas, o baque das carapaças despedaçadas nas falésias - a receita completa da iguaria.

Paula Rego ouviu o Miguel, inaugurou a exposição, dormiu num hotel, foi a dois ou três restaurantes, deu uns passos numas ruas, olhou para o Douro achando-o pardacento, voltou para Londres, ainda mais pardacenta com o seu bidé de Tamisa, onde não há vestígios de tartarugas acabadas de nascer.

Tempos depois, tocou o telefone em casa do Miguel. Atendeu o tio Nuno, cuja voz de telefonema - parecida com a do meu pai - é a de um animal ofendido. "Gostava de falar com o Miguel", disseram-lhe. "Quem fala?", perguntou ele. "Fala a Paula." "Paula quê?" "Paula pintora." Depois disto, o silêncio deve ter sido o das tartarugas vigiando os perigos do céu.

Paula pintora disse ao meu primo Miguel que ficara com tartarugas na cabeça. E eu imagino a sua mente como uma imensa praia em que a inocência das crias é despedaçada pela fome das predadoras, sem sombra de homem, sem figura de mulher, sem bonecos torcidos nem cães que farejam, só o acastanhado das carapaças fugindo ao branco das asas; e assim o conflito, assim a vida. Paisagem pronta a descer ao inferno elevada pela beleza.

Paula pintora ficou com tartarugas na cabeça e pô-las na tela, quase como entregá-las ao mar: e o telefonema servia para dizer olá ao Miguel, e para lhe pedir a morada. "Quero mandar-te um quadro das gaivotas a comerem as tartarugas", disse-lhe como quem pede se faz favor para entrar.

Hoje, o Miguel lá guarda o seu Paula Rego - e eu acho que as próprias tartarugas se sentiriam um pouco mais tranquilas se soubessem que morriam por tão belo gesto.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

Escritor

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