visao.sapo.ptClara Cardoso - 25 out. 09:38

Visão | E depois do adeus

Visão | E depois do adeus

Ao fim de meses de peste, o “depois de Corona” chegou. A pandemia não acabou, mas a Era Covid chegou ao fim. Está na altura de virar a página. Nesta última “crónica d.C”, proponho um balanço de como chegámos aqui

Há um ano e sete meses, o embate de um meteorito invisível fez nascer as “crónicas d.C.” A comunidade improvisava reações, a sociedade tremia e a atmosfera de dúvidas trouxe à luz um espaço de observação, reflexão e crítica com o intuito de tirar lições da crise. “Observar, antecipar e repensar a realidade d.C (depois de Corona), no sentido de garantir que saímos desta crise para um mundo melhor”. Os otimistas garantiam que a pandemia seria fugaz, três semaninhas em casa a fazer pão com farinha de espelta. Os pessimistas vaticinavam o apocalipse, o vírus como vingança da Natureza pelos pecados humanos. Estavam todos errados. O meu desvio otimista, crónico como as crónicas, nunca me teria permitido acreditar que viria a escrever 71 textos. Ora aqui estamos nós, “Time after time”. Contudo, ao fim de meses de peste, o “depois de Corona” chegou. A pandemia não acabou, mas a Era Covid chegou ao fim. Está na altura de virar a página. Nesta última “crónica d.C”, proponho um balanço de como chegámos aqui.

Há um ano e sete meses, a solidariedade deu tema a uma das primeiras colunas. Entre o humanismo comovente e o “salve-se quem puder” – tão ácido, como natural –, é hoje ainda mais evidente a urgência de cultivar a cooperação como valor central nas sociedades modernas. A maioria das pessoas assumiu, sem hesitar, o sacrifício geral em proteção dos mais frágeis, dispondo-se a arcar com as consequências. Todos sentimos o impulso de ajudar se possível, estender o braço à vizinha de cima, ligar aos amigos, organizar a família. Até no mantra naïve (e um pouco kitsh) do “Vai Ficar Tudo Bem” há uma vã tentativa de conforto, uma mentira caridosa como as que o pai Guido, interpretado por Roberto Benigni, conta ao filho no filme “A Vida é Bela”. Por muito tosca que a frase seja, a intenção é descansar, é aliviar, é cuidar.

No plano da ação coletiva, as associações, as iniciativas cidadãs, as autarquias – todas foram fundamentais na organização, no apoio de proximidade, provando uma vez mais que a mudança se faz sobretudo no local, olhos nos olhos. De nada nos valeram os sistemas impessoais, maquinais e tecnocráticos: a verdade trata as pessoas pelo nome. É uma grande lição. No futuro, estaremos certos de que esta cooperação solidária é a única saída para as grandes batalhas do nosso tempo: a urgência climática, o combate das desigualdades, a justiça, a coesão. Provámos ser capazes de pensar coletivo quando a ameaça bate à porta.

Aprendemos muito. Em pouco tempo, a falácia inicial de que estaríamos “todos no mesmo barco” encalhou num iceberg, tornando-se óbvio o quanto sempre predominam a discriminação, a desigualdade. Somos todos iguais perante a Lei, diferentes perante a realidade. Falámos do direito à habitação, quando as casas se transformaram num habitat forçado. Falámos de desinformação, de teorias da conspiração, da urgência de legislar sobre as gigantes digitais, quando as aplicações se transformaram num poço de mentiras e manipulação. Falámos de trabalho, de direitos laborais, da prioridade que é combater a ética neoliberal no trabalho, quando as motinhas takeaway, a recolha de lixo ou as caixas de supermercado se revelaram “essenciais”. Falámos de turismo, da dependência do estrangeiro, da insustentabilidade do turismo de massas, de uma monocultura económica insustentável, quando os hotéis ficaram às moscas e os tuk-tuks às aranhas. Falámos da Europa, de relações internacionais, diplomacia e cooperação, quando a necessidade de encontrar respostas comunitárias para a crise se afirmou. Falámos de cultura, dos profissionais das artes, quando o globo se refugiou nos filmes, nas séries, quando venceu depressões ouvindo música, viajou lendo livros e poemas, quando penou com a falta de estímulo, de contacto, de elevação. Falámos de ambiente quando os patos nadaram em Veneza, quando as corsas saíram à rua no Japão, quando se percebeu que a origem da pandemia, como a de tantas outras doenças, está na relação do ser-humano com o planeta. Sem a reorganização profunda dos circuitos alimentares, dos transportes, das fontes de energia, nenhuma bandeirinha verde nos valerá. Falámos de saúde mental, da urgência de investir, de falar, de educar, quando o medo, o isolamento e a distância pegaram fogo à depressão, à ansiedade, à paranoia. Falámos de tanta coisa que podia escrever mais 71 crónicas.

A crítica teve um lugar importante nas “crónicas d.C”. A gestão da pandemia, a incoerência das medidas, a confusão das mensagens, o aproveitamento dos deputados espertalhões. Por envolver toda a gente, a pandemia estimulou o debate e a argumentação – denunciando ao mesmo tempo o quão importante é investir na educação para a lógica, para a cultura do debate saudável. Falámos de democracia. A pluralidade de visões, a transparência, o cultivo do espírito cívico e o envolvimento da população na política são essenciais ao rejuvenescimento do espírito democrático. Basta de lamentos vãos sobre a degradação da democracia. A abstenção continuará, o desinteresse continuará, com os resultados que conhecemos, enquanto as pessoas se sentirem mais próximos do plantel do Rio Ave do que dos responsáveis políticos. É necessário investir, estimular, esclarecer, debater, educar, desmistificar – e os media são chamados a fazer a sua parte.

Pelas “crónicas d.C” passaram muitas personagens. Umas não sobreviveram. Trump caiu. Bolsonaro está na fila. Outros estão de boa saúde. As citações e as referências criaram um espaço de encontro improvável. Por estas páginas, passaram Cesária Évora e Carl Sagan, Chico Buarque e Jeff Bezos, Marta Temido e Gengis Khan, Shoshana Zuboff e Fernando Mendes, Baptista-Bastos e Ursula von der Leyen, Greta Thunberg e Karl Marx. Passaram referências mais pessoais, da minha avó aos meus professores. Rimo-nos com o que foi cómico, comovemo-nos com muito do que ficará para a memória.

O vírus será uma ameaça grave até que estejamos todos a salvo. Imunizar o mundo é o próximo grande sprint. Enquanto “virar a página da pandemia” for uma expressão do privilégio ocidental, estaremos à mercê de novas variantes, mais letais e resistentes às vacinas. Se não o fazemos por solidariedade – a tal que já provámos ter – façamos porque é também do nosso interesse. Depois de tudo o que aprendemos nos últimos dois anos, a recuperação da crise para um sistema mais justo, mais igual, mais sustentável é prioridade absoluta. E, para tal, precisamos de todos. Daqui, parto para uma nova etapa, com a certeza assegurada de que a futurologia cabe ao tarot.

O planeta segue dentro de momentos.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

NewsItem [
pubDate=2021-10-25 08:38:12.0
, url=https://visao.sapo.pt/opiniao/ponto-de-vista/2021-10-25-e-depois-do-adeus/
, host=visao.sapo.pt
, wordCount=1083
, contentCount=1
, socialActionCount=0
, slug=2021_10_25_859525166_visao-e-depois-do-adeus
, topics=[opinião]
, sections=[opiniao]
, score=0.000000]