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A memória como a mais bela das ficções

A memória como a mais bela das ficções

Retrato minucioso dos seus dias ou pura matéria ficcional? É em torno dessa duplicidade que Dulce Maria Cardoso escreve as suas crónicas, a que deu o engenhoso título de "Autobiografia não autorizada".

Alguém já disse que não existe nada tão ficcional como as memórias nem matéria tão biográfica como a dita ficção. Ambiguidades à parte, será este também o princípio ordenador de "Autobiografia não autorizada", título das crónicas que Dulce Maria Cardoso publica na revista "Visão" há quase cinco anos, agora parcialmente compiladas numa edição da Tinta da China.

O grau profundamente pessoal destes escritos, a roçar o íntimo, levar-nos-ia a pensar estarmos perante uma descrição minuciosa dos seus dias, mas também uma incursão memorialística, não menos intensa, em que viaja até aos idos da sua própria infância.

A habilidade da autora de "Eliete" ou "Campo de sangue" não se satisfaz, todavia, com simples transcrições ou decalques da sua vida. A esse exercício, seguramente útil mas pouco estimulante para quem cria, contrapôs Dulce Maria Cardoso um outro, mais desafiador - criar uma espécie de material híbrido, concentrado avulso de emoções, sentimentos e confidências que tanto podem pertencer à esfera biográfica como à ficcional.

Esse jogo das escondidas estabelecido com o leitor está superiormente sintetizado no título, que remete, por sua vez, para um outro, não menos inspirado, do espanhol Gonzalo Torrente Ballester, "Eu não sou eu, evidentemente".

A base destas crónicas será sempre autobiográfica, conferindo a quem lê a ilusão de espreitar para território interdito ou, pelo menos, secreto. Mas, por entre tamanha índole confessional, também se encontram elementos saídos da imaginação e do engenho da escritora, numa estratégia que não procura tanto a salvaguarda (legítima) da sua privacidade como o gosto confesso de explorar o poder da palavra enquanto gerador de ilusões. e possibilidades.

Convocando a vida em toda a sua extensão, Dulce Maria Cardoso distancia-se da visão tradicional do escritor que recusa colocar as mãos na argamassa da realidade.

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Nesta seleção, não podia faltar "O homem sem nome", a crónica em que recorda o episódio em que, ainda criança, foi salva de um afogamento certo numa praia de Angola por um soldado do qual não guardou o nome. A boa nova viria com a publicação e o posterior contacto de um familiar do tropa, revelando a sua verdadeira identidade.

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