expresso.ptexpresso.pt - 6 ago 15:43

Beirute. Ira contra as autoridades toma conta das ruas

Beirute. Ira contra as autoridades toma conta das ruas

Apelos à revolução e pedidos de ajuda ao Presidente francês, Emmanuel Macron, para depor o Executivo libanês tomaram as ruas de Beirute. Três dias de luto não acalmam quem chama "terrorista" ao chefe de Estado libanês, Michel Aoun. Macron promete regressar ao Líbano, para propor um novo pacto político

Apelos à “revolução” e protestos encheram as ruas destruídas de Beirute durante a visita de horas do Presidente francês à capital do Líbano. “Os cidadãos querem a queda do regime”, gritavam os manifestantes, que chegaram a pedir a Emmanuel Macron ajuda para derrubar o Presidente libanês

As novas revelações sobre as explosões de terça-feira deram lugar a raiva e indignação. “Revolução, revolução!”, gritavam as pessoas esta quinta-feira durante a visita à cidade do Presidente francês. Informações recentes revelam que os responsáveis de Beirute ignoraram repetidos avisos sobre os químicos perigosos armazenados no porto da cidade cuja explosão matou 137 pessoas, feriu mais de 5000 e deixou 300 mil sem casa.

Macron disse aos jornalistas durante a visita ao bairro predominantemente católico de Beirute que ia propor um “novo pacto político” à classe política libanesa.

“O povo quer a queda do regime”, gritavam os manifestantes. “Michel Aoun é um terrorista! Ajude-nos”, pedia um homem referindo-se ao Presidente do Líbano, segundo a agência France Presse.

Ira e zanga são os sentimentos que estão a vir à superfície passadas quase 48 horas sobre as explosões no porto de Beirute. Atribuir responsabilidades a quem tenha negligenciado o perigo que representava o material explosivo depositado no porto da capital libanesa é de momento imperioso.

Surgem cada vez mais provas, incluindo e-mails e documentos de tribunal, de que as autoridades tinham conhecimento do depósito de toneladas de nitrato de amónio, que foi confiscado pelas autoridades e estava há seis anos guardado num armazém do porto.

A revelação de que as explosões podem ser atribuídas à negligência do Governo atualizou o sentimento de frustração perante a classe política libanesa e perante a corrupção endémica que prejudicou os serviços públicos básicos e as infraestruturas.

Organizações de defesa dos direitos humanos, como a Human Rights Watch (HRW) e a Amnistia Internacional (AI), foram rápidas a instar o Governo libanês a convidar especialistas internacionais para realizar investigações independentes sobre as explosões da passada terça-feira. A investigação deve determinar as causas e os responsáveis pelas explosões bem como garantir que não voltem a acontecer incidentes semelhantes, refere a HRW.

"Dada a repetida falha das autoridades libanesas em investigar os lapsos graves do Governo e a desconfiança do público nas instituições governamentais, uma investigação independente com especialistas internacionais é a melhor garantia de que as vítimas da explosão receberão a justiça que merecem", defendeu a investigadora da HRW no Líbano, Aya Majzoub, num comunicado divulgado esta quinta-feira.

“As cenas terríveis na sequência das explosões foram devastadoras para um país que já se encontra sob o efeito de crises múltiplas. O que quer que seja que tenha causado as explosões, incluindo uma grande quantidade de nitrato de amónio armazenado sem condições de segurança, leva a Amnistia a pedir a montagem rápida de um mecanismo internacional para investigar o ocorrido”, disse a secretária-geral da Amnistia Internacional, Julie Verhaar.

A AI apelou ainda à comunidade internacional para que aumentasse com urgência a ajuda humanitária ao Líbano, país a braços com uma crise económica agravada pela pandemia de coronavírus.

O Presidente Michel Aoun declarou que as explosões foram causadas por 2.750 toneladas de nitrato de amónio, que é utilizado como fertilizante e pode ser usado no fabrico de bombas.

Segundo adiantaram as autoridades, o material esteve armazenado no porto de Beirute durante mais de seis anos, sem as devidas precauções de segurança, mas as circunstâncias que levaram à explosão do produto ainda não foram identificadas.

O Presidente libanês prometeu uma investigação transparente sobre as causas da explosão, garantindo que os responsáveis enfrentam "punições sérias".

O Executivo libanês decidiu na quarta-feira colocar em prisão domiciliária todos os responsáveis portuários que supervisionavam as instalações de armazenamento desde 2014, mas ainda não foram divulgadas as acusações que enfrentam.

A HRW expressou sérias preocupações com a capacidade de o sistema judicial libanês conduzir uma investigação credível e transparente por conta própria.

De igual modo, a AI defende uma investigação internacional, “livre de qualquer interferência política doméstica”, de modo a garantir que seja encontrada a verdade, seja feita justiça e haja reparações para as vítimas.

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