www.dinheirovivo.ptdinheirovivo.pt - 27 set. 17:39

Centeno. ″Precisamos de dados sobre o clima para mostrar progressos e combater o negacionismo″

Centeno. ″Precisamos de dados sobre o clima para mostrar progressos e combater o negacionismo″

Governador entra na discussão acalorada que decorre em Portugal e avisa que fenómeno é ″muito sério e importante″, ″é uma nova fonte de risco financeiro″.

Numa semana marcada em Portugal por protestos de alto perfil de vários ativistas ambientais contra membros do governo e de grandes empresas de energia, como Galp e EDP, o governador do Banco de Portugal (BdP) não perdeu a oportunidade e fez questão de entrar na discussão, apesar de estar de visita ao Chile, a mais de 10 mil quilómetros de distância.

O banqueiro central disse que as alterações climáticas são uma nova fonte de risco financeiro e que é preciso ter dados de muito maior qualidade para mostrar a muitas pessoas que se estão a fazer progressos positivos no combate a essas mudanças e para calar os negacionistas que estão sempre a tentar esvaziar esse debate.

Mário Centeno foi o orador principal no segundo dia (quarta-feira, 27) de uma conferência organizada pelo Banco Central do Chile e a partir do palco alertou para a pobreza que ainda existe na qualidade e na quantidade de dados estatísticos sobre os efeitos e as causas das alterações climáticas, fenómeno "muito sério e importante", que ainda por cima "é uma nova fonte de risco financeiro", avisou o governador.

"Vou falar-vos da importância de termos dados de elevada qualidade para assegurar que a transição para uma economia baixa em carbono se torna mais fácil", disse Centeno à sua audiência na capital chilena.

"Primeiro de tudo, é importante termos os dados corretos. É muito importante para o processo de tomada de decisão a vários níveis da banca central, por exemplo".

"Se não tivermos dados bons, de qualidade, será impossível comunicar às pessoas quais são os compromissos, quais são as implicações das alterações climáticas para os balanços dos bancos, para a estabilidade financeira, mas, mais importante ainda, para mostrarmos os progressos que estamos a obter [no combate às alterações ambientais]", defendeu o economista português.

"Se não conseguirmos mostrar às pessoas os progressos que temos nesta frente, arriscamos a ter uma fadiga dos vários atores em relação a este assunto tão crucial e importante", avisou.

Centeno deu o exemplo de um problema que ainda hoje persiste ao nível de indicadores sobre uma realidade clássica e universal no estudo da economia: os salários.

Segundo Centeno, os economistas lidam há mais de quatrocentos anos com a questão dos salários, mas continua a ser "muito difícil" obter séries históricas de dados "totalmente comparáveis entre países", por exemplo.

"Se é assim com os salários, agora imaginem dados relativos às alterações climáticas. O ruído que está à nossa volta, os negacionistas que vão surgindo no meio do nosso debate por causa da falta de boa informação, tudo isto é um assunto muito importante".

A proposta de Centeno é que os bancos centrais precisam de investir mais nisto das estatísticas das alterações climática e do impacto nos bancos, nas empresas, etc.

"Os bancos centrais com todo o seu conhecimento e experiência que têm a lidar com dados precisam de acelerar e começar a dar um forte contributo para produzir dados "confiáveis, granulares, comparáveis e relevantes" de modo a "identificar, avaliar e quantificar de forma correta os riscos para a economia", "perceber a interação entre a mudança climática e a economia", "cumprir o seu mandato de bancos centrais" e "prevenir práticas de greenwashing", elencou o antigo ministro das Finanças do governo PS, de António Costa.

Greenwashing é um fenómeno perverso que existe quando uma organização, uma empresa ou um decisor gasta mais recursos (tempo e dinheiro) para fazer marketing que depois usa para se mostrar mais amigo do ambiente e menos para efetivamente reduzir a sua pegada carbónica ou ecológica.

Ou seja, segundo os peritos, é um expediente de marketing enganador utilizado pelas empresas para exagerar o valor e eficácia das políticas e ações amigas do ambiente, tirando disso proveitos reputacionais e financeiros indevidos.

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