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Celebrar a geodiversidade

Celebrar a geodiversidade

Os processos geológicos que acontecem debaixo dos nossos pés e nos passam despercebidos são importantes para o bem-estar e a segurança de populações, mas também para o crescimento económico.

De hoje a pouco mais de duas semanas celebra-se o Dia Internacional da Geodiversidade[1]. Declarado pela UNESCO desde 2021, o dia 6 de Outubro recorda anualmente a importância e o papel das geociências, e das engenharias relacionados com as ciências da Terra, no nosso quotidiano e a relevância destas disciplinas para atingir a meta dos objetivos do desenvolvimento sustentável declarados pelas Nações Unidas. Os processos geológicos que acontecem debaixo dos nossos pés, que nos passam despercebidos por serem na sua maior parte lentos e silenciosos, são importantes para o bem-estar e a segurança de populações, para o crescimento económico, no combate à falta de alimento e de desigualdades. Adicionalmente, estes processos, ou resultado destes durante o tempo geológico, são hoje fundamentais para a economia verde e críticos na transição energética e digital.

Deveria ser hoje claro para todos nós que o combate à crise climática passa por uma transformação acelerada da atual matriz energética.  As fontes de energia atuais têm obrigatoriamente de ser menos dependentes dos combustíveis fósseis e passar a ser geradas maioritariamente a partir de fontes renováveis e limpas, como são exemplo a energia geotérmica, a solar, a eólica e até mesmo a nuclear. Em todas estas fontes de energia o denominador comum é o nosso planeta e os processos que nele acontecem. É o caso do aproveitamento do calor produzido naturalmente no interior da terra (a energia geotérmica) ou a necessidade de estudar as propriedades geotécnicas dos sedimentos que estão no fundo do mar, e abaixo deste, para a implantação de forma segura e duradoura das infraestruturas necessárias para a produção de energia eólica offshore ou para o aproveitamento da energia das ondas. Os recursos minerais são ainda essenciais como parte integrante dos componentes constituem os painéis solares, os geradores eólicos, as baterias de veículos elétricos e na tecnologia necessária à produção elétrica verde.

 Se o papel das ciências terra e da engenharia de recursos energéticos na transição energética é relativamente direto, o papel destas áreas do conhecimento na transição digital é menos evidente, mas igualmente crítica. A acelerada transformação digital requer a disponibilidade de grandes quantidades de elementos de terras raras e de minerais críticos como são o caso do lítio, o níquel, a grafite, o manganês e o cobalto. Os recursos minerais não energéticos são essenciais nos avanços tecnológicos relacionados com o desenvolvimento de novos sensores e do hardware necessário para o armazenamento e para o processamento da informação produzida por estes sensores. Estas matérias-primas existem em todos os componentes eletrónicos desde os chips, onde os dados são processados, às baterias necessárias para colocar os sistemas que sustentam a transição digital a correr. Os avanços tecnológicos nestas áreas exigem o desenvolvimento em simultâneo de novas soluções de gestão, produção e de processamento das matérias-primas minerais.

O Dia Internacional da Geodiversidade é por isso mais do que apenas celebrar o planeta terra e a sua (geo)diversidade. É uma oportunidade para aumentar a geo-literacia e chamar a atenção para o papel que os recursos naturais, minerais e energéticos desempenham na luta contra a crise climática e no desenvolvimento sustentável desta e das próximas décadas. Neste contexto, o Instituto Superior Técnico está na linha da frente e alinhado com a recente proposta do Comissão Europeia sobre o papel das matérias-primas críticas (o Critical Raw Materias Act[2]). Para além da investigação multidisciplinar desenvolvida em vários centros de investigação nestes domínios, o Técnico oferece ainda uma licenciatura em Engenharia de Minas e Recursos Energéticos e Mestrados em Engenharia Geológica e de Minas e em Engenharia em Recursos Energéticos, preparando uma geração de engenheiras e engenheiros com conhecimento holístico capaz de enfrentar os desafios da economia digital e verde.

 

[1] https://www.geodiversityday.org

[2] https://ec.europa.eu/commission/presscorner/detail/pt/ip_23_1661

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