www.publico.ptpublico@publico.pt - 28 jan. 11:01

Como é que se sobrevive emocionalmente a uma dor insuportável?

Como é que se sobrevive emocionalmente a uma dor insuportável?

Vou contar alguns momentos da minha vida, que me causaram uma dor absolutamente insuportável, irreparável, e que me paralisaram. E depois vou dizer como sobrevivi.

Na província do Noroeste do Paquistão, quando nos preparávamos para fazer uma cesariana a uma rapariga de 20 e tal anos que tinha o feto bem vivo atravessado no útero, impossibilitando o parto vaginal, o marido recusou que fizéssemos a cirurgia.

É assim, está na lei. O marido é que assina, ou não, o consentimento para a operação. Mesmo depois de lhe ter explicado várias vezes que a rapariga e o bebé iriam morrer com dores agoniantes, ele manteve-se firme na recusa — e ainda acrescentou que compraria outra mulher.

Gelei. Paralisei. Sofri em silêncio uma dor insuportável com a cara desta rapariga bem viva nos meus pensamentos. Como é que se sobrevive a isto?

No Congo, na minha primeira missão após o parto do décimo filho que nasceu de boa saúde, a mulher sangrou massivamente por atonia uterina, um útero que não contrai adequadamente, após o parto, e por isso sangra muito. No desespero, o cirurgião conseguiu estancar a hemorragia retirando-lhe o útero (histerectomia). Eu, para a manter viva durante a cirurgia, dei-lhe muitas transfusões de sangue e muitos soros.

No final da cirurgia tinha que a retirar do ventilador, porque não existia nada, nem sequer parecido com cuidados intensivos. Mal a retirei do ventilador, entrou em paragem cardíaca. Tentei reanimá-la até à exaustão. Morreu-me literalmente nas mãos. Fui dar a notícia à filha mais velha que teria uns 12 ou 13 anos, que já cuidava do recém-nascido. Até hoje fiquei com a sensação de que poderia ter feito melhor, para evitar que estas dez crianças ficassem órfãs.

Fiquei a noite toda a olhar para o céu à procura de respostas. Mesmo com o consolo dos meus colegas, a minha dor era insuportável. Como é que se sobrevive a isto?

Na República Centro-Africana, chamaram-me da maternidade para reanimar uma rapariga de 17 anos, que teve uma paragem cardíaca por um erro na transfusão. O técnico cometeu um erro muito básico na grupagem de sangue, e ela recebeu uma transfusão de sangue incompatível. Não consegui reanimá-la. Morreu. E ela até teria sobrevivido sem a transfusão que foi prescrita mais por precaução do que por extrema necessidade. Morre muita gente por simples ignorância.

Não me saía da cabeça a imagem das minhas mãos a fazer compressões cardíacas, e a cara do técnico que cometeu um erro básico e fatal. Como é que se sobrevive a isto?

No Sudão do Sul, num hospital rural, quase todos os dias víamos uma criança a entrar em braços, ou numa maca improvisada, vinda sei lá de quantas horas ou dias de viagem, em coma hipoglicémica por malária grave. Algumas salvámos no limite, outras vinham mortas ou morriam-nos nas mãos, por algo tão simples de tratar como dar glicose pelas veias e os antimaláricos. E, depois, víamos os corpos das crianças a sair em braços, quase como se fossem sacos de batatas às costas.

Que mundo tão injusto, tão cruel e tão desigual. Como é possível tantas crianças morrerem por algo tão fácil de tratar. Como é que se sobrevive a isto?

Pausa.

Todas as situações me mataram, me corroeram por dentro. Deram-me nós na cabeça que pareciam impossíveis de desatar.

Em todas estas situações em que senti uma dor emocionalmente insuportável, só uma coisa me salvou. O próximo doente.

Quando o meu coração estava pesado como uma pedra, e o corpo parecia paralisado, eu reagia quando me chamavam para outro doente. Às vezes foram minutos, outras horas, outras vezes apenas no dia a seguir. Por rádio, telefone, ou em presença física, quando ouvia “Dr. Gustavo, precisamos que veja aqui um doente”, descongelava, e substituía o peso do coração por alguém que precisava de mim.

E foi assim que sobrevivi. Com o próximo doente, a próxima criança, ou a próxima mulher a sangrar que precisou de mim. Fiquei com as cicatrizes, mas andei para a frente. Sempre e só, com o próximo.

Foto

As crónicas de Gustavo Carona são patrocinadas pela Fundação Manuel da Mota a favor dos Médicos sem Fronteira

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