www.publico.ptpublico@publico.pt - 24 jan. 12:17

Paquistão submerso

Paquistão submerso

Histórias de amor, amparo, perda, mudança e adaptação. Adaptação exigida por alterações climáticas, catástrofes e tentativas de sobrevivência que nos ensinam a dar valor às pequenas coisas.

Paquistão. Uma palavra que esconde tanto sobre um país. Um destino desconhecido, fora da rota da maioria dos viajantes. Um povo, vários sorrisos, palavras amáveis, inúmeros convites para conviver e pedidos de longas conversas. Palavras que abraçam boas memórias. Memórias feitas de carinho, de histórias partilhadas. Histórias de amor, de amparo, de perda, de mudança e de adaptação. Adaptação exigida por alterações climáticas, catástrofes e tentativas de sobrevivência que nos ensinam a dar valor ao que temos, às pequenas coisas. Ofertas que a vida nos concede e que damos por garantido. No Paquistão, a vida tomou outro curso.

À medida que nos aproximamos da zona central do país, onde o Rio Indus se expande, apercebemo-nos do impacto da subida das águas. Paisagens alteradas, agora submersas. Os pontos mais baixos da zona de Sindh vivem, actualmente, debaixo de água. As pessoas fugiram, deixaram tudo para trás. Agora, desalojados, fazem a sua vida em tendas feitas de lonas e, por vezes, tecidos rotos e usados, apoiado em paus toscos montados por desconhecedores. Vivem sem conforto, sem portas, sem janelas. Estão à mercê das intempéries e lutam por sobreviver, no meio do caos que foram obrigadas a aceitar.

O Indus nasce nos Himalaias e percorre a longitude total do país, até desaguar ao largo de Carachi. No seu caudal percorrem toneladas de água, que no norte do país, avança sem medo, sem contrariedades, a caminho da vida das pessoas. Ao observar o rio conferimos os inúmeros rápidos, que apenas se enfurecem com o percorrer do ziguezague das montanhas que rivalizam entre si na envergadura e na robustez. Quando abandona a zona das montanhas, segue duro e firme, consistente e implacável, com força e caudal suficiente para destruir qualquer coisa que se coloque no seu caminho. No seu leito por vezes jazem camiões empurrados pelas derrocadas das intermináveis escarpas.

Foto O casal Diogo e Filipa Frias, autores do projecto Intrepid Jumpers Intrepid Jumpers/DR

Mas as alterações climáticas vieram piorar esta realidade. O degelo fez aumentar o fluxo da água, enfurecendo ainda mais o tornear do rio. Pontes destruídas, margens completamente obliteradas. Vidas destruídas, não só pelas inundações, mas também pelas chuvas e, consequentemente, pela contaminação do local, pela dengue e cólera. Quem sobrevive, tem uma vida de adversidades pela frente. Porque viver uma vida em tendas não é fácil. Não existem instalações sanitárias, esgotos, protecção, nem privacidade.

As pessoas que vivem aqui queixam-se da falta de ajuda, da falta de condições e de apoio. Três meses depois, o governo apenas enviou as lonas para tapar a frágil estrutura de canas construída à pressa. As crianças correm até nós, querem brincar, correr e rir, finalmente. As mães imploram por ajuda monetária, mostram onde moram e contam das suas desgraças, que os maridos foram para a cidade reunir algum dinheiro para ajudar na reconstrução das suas vidas. Vivem longe deles, mas em comunidade - e isso é importante para elas. A entreajuda é notável e essencial e, no infortúnio, comportam-se como uma grande família.

Foto As comunidades locais ansiavam pela chegada das tendas Intrepid Jumpers/DR

Como em todas as catástrofes, há sempre pessoas que se tentam aproveitar da situação. O avistar de um estrangeiro é uma oportunidade de ouro. Alguns, por vezes de fato e bem-falantes, claramente sem necessitarem de ajuda, ao contrário destas mulheres e crianças, aguardam a sua chance e, saídos não sei bem de onde e sem aviso prévio, aproximam-se de nós, identificando-se como representantes e guardiões das famílias para recolher donativos, outros como pertencendo a organizações locais de ajuda.

Já sabemos como tudo isto funciona. As mulheres ignoram-no e continuam a suplicar por ajuda, enquanto apertam as nossas mãos. O nosso dinheiro é passado, disfarçadamente, enquanto se distrai o parasita, para as matriarcas dos núcleos que visitamos, na esperança que, desta forma, consigamos ajudar quem de facto necessita.

A despedida é difícil. Uma menina, que carrega a tristeza no olhar, encara-nos de mão dada à nossa. Não há muito que possamos fazer, mas esperamos que esta situação se reverta e que finalmente consigamos alcançar o equilíbrio que há muito o mundo tenta reivindicar.

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