visao.sapo.ptClara Cardoso - 25 nov. 11:56

Visão | Mundial do Petróleo

Visão | Mundial do Petróleo

Não vale tudo, tanto mais quando nos orgulhamos de viver no país que foi o primeiro a abolir a pena de morte, que foi pioneiro na abolição do tráfico de escravos. A lição que se aprende com algumas das decisões da FIFA são o inverso daquilo que é desejável, e que se resume à liberdade do ser humano

Ronaldo marcou, Portugal ganhou e parte que vai ficar tudo bem. Mas estamos em pleno Mundial da Polémica. 

Dentro de portas a ida ao Qatar das três maiores figuras de Estado criou mal-estar entre os portugueses, onde me incluo. Bem sei que o objetivo é namorar a FIFA para que o Mundial de 2030 venha para a Ibéria, mas será que vale tudo?  

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Por estes dias, muito se tem falado na equipa invisível que deu vida aos estádios que recebem os jogos do Mundial. Muito se tem falado em direitos humanos, na discriminação e restrição dos direitos das mulheres e da comunidade LGBT+, como são recebidos e tratados os expatriados na terra do emir Tamim bin Hamad. Sobre estes e outros factos só a força da comunidade internacional, onde Portugal se inclui, poderá trabalhar diplomaticamente. Uma comunidade onde a FIFA não se inclui, pois já demonstrou ser entidade disponível para penalizar com um cartão amarelo quem ousa desafiar culturas (ou devo dizer interesses?). 

Esta predisposição da FIPA foi sentida também em Portugal, quando adeptos da Seleção portuguesa vestindo uma t-shirt da Amnistia Internacional foram impedidos de entrar no estádio de Alvalade e assistir ao jogo entre Portugal e a Nigéria. É certo que a Federação Portuguesa de Futebol foi rápida a imputar o excesso de zelo aos seguranças do estádio, mas… somos adultos! O que se passou em Alvalade foi uma total falta de respeito pela liberdade de expressão, em linha com a decisão da FIFA de sancionar os capitães que usassem a braçadeira arco-íris, que reivindica os direitos da comunidade LGBT, nos jogos do Mundial 2022.

Marcelo aproveitou a ida ao Qatar para participar numa conferência focada nos direitos humanos e educação, um dos objetivos do Desenvolvimento Sustentável. Senhor Presidente, sem dúvida, precisamos que o mundo se una em torno desta causa. Estamos no século XXI e temos de fazer a evolução da forma, tal como a natureza fez a da espécie. Mas, não podemos esquecer o que se passa dentro da nossa porta.

Tal como o Qatar teve e tem equipas invisíveis, no nosso país as notícias de vítimas de origem estrangeira, que são exploradas, que vivem em condições sub-humanas, que trabalham sem fonte de rendimentos nos campos agrícolas da região do Alentejo e do centro do País não são de agora.

Bem sei que o decreto de abolição da escravatura refere “proibindo a exportação de escravos, quer por mar, quer por terra, em todos os domínios portugueses” e que os “novos escravos” (até custa a escrever) chegam por avião. Não basta parecer. É preciso ser. Não podemos falar de direitos humanos lá fora e depois ter situações destas cá dentro. Não podemos correr o risco de ser país coorganizador do Mundial e depois ter o mundo a expor pela negativa quem se expôs em Times Square através de paisagens maravilhosas e se esqueceu de mostrar como vivem os imigrantes que trabalham os campos agrícolas da região do Alentejo e do centro do país, ou nas imediações do Martim Moniz que acolhe milhares de trabalhadores que se dedicam a entregas de comida ou conduzem os transportes que todos usamos. 

Não vale tudo. E este Mundial do Petróleo deve envergonhar-nos a todos. 

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

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