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Ser avô ou ser avó não é profissão

Ser avô ou ser avó não é profissão

Sabemos que a vida de muitos casais depende da disponibilidade dos seus pais, a verdade é que estes já criaram os filhos e precisam de tempo próprio e de momentos de sossego.

Reconhece-se que os avós são importantes para o crescimento integral dos netos.

Não é necessária uma tese científica da academia para todos constatarmos que as crianças crescem mais felizes quando os avós assumem parte da sua educação, assim como é comummente aceite o papel que os avós têm na dinâmica familiar, quer como recurso, quer como meio de transmissão de saberes numa perspetiva intergeracional.

Para os avós, a relação próxima com os netos proporciona o contacto com uma geração muito mais nova e, consequentemente, a perspetiva de novas ideias. Já para os netos, os avós oferecem a sabedoria adquirida ao longo da vida e esse ensinamento e essa experiência acabam por ser utilizados pelas crianças quando se tornarem adultas.

A afetividade tem forte influência no desenvolvimento intelectual de uma criança, já que os laços das suas relações com outras pessoas permitem fortalecer características de personalidade, como a solidariedade e a inteligência emocional.

Os avós desempenham um papel importante no crescimento e na formação das crianças, porquanto, com a experiência que acumulam, oferecem uma visão mais ponderada sobre a vida e são capazes de transmitir segurança.

Os avós, mesmo que não possuam formação escolar específica, fornecem valores sólidos e apoio emocional e esforçam-se, na maioria dos casos, por garantir a felicidade dos netos, o que impacta positivamente na vida escolar e afetiva destes. Quem já assistiu ao encontro de netos e avós à porta das escolas, no final de um dia de aulas, sabe do que falamos… É de uma alegria sem fim!

Mas torna-se indispensável alertar para que a participação dos avós na vida dos netos não se traduza numa educação permissiva, conflituosa, mimada ou de compensação pela falta de presença dos progenitores, o que também é recorrente nos dias de hoje.

Há quem acredite que a “vó” ou o “vô” são responsáveis por mimar demais as crianças, o que realmente pode acontecer; porém, o amor que eles demonstram pelos netos é mais importante do que a superproteção que possa existir. É aconselhável respeitar essa diferença de papéis e importa encontrar um equilíbrio entre a disciplina e os mimos.

No entanto, a reflexão que convidamos os/as leitores/as a fazer não é quanto à presença dos avós no quotidiano das crianças e às suas vantagens, mas, sim, quanto à presença dos netos no quotidiano dos avós e às suas desvantagens, quando ocorre de forma desregulada e, frequentemente, quase exaustiva.

Há que considerar que os avós têm vida própria e não podem nem devem estar disponíveis, sempre, para cuidar dos netos.

Sabemos que a vida profissional de muitos casais depende da disponibilidade dos respetivos pais, mas a verdade é que estes já criaram os filhos e precisam de um tempo próprio e de momentos de sossego, para se dedicarem aos seus hobbies, aos encontros com amigos, às leituras, aos trabalhos na horta… Precisam de programar a sua vida, sem a correria entre a escola, a ginástica, a música, o judo, o futebol…

A propósito de uma greve de professores ouvi, há dias, várias vezes, a seguinte afirmação: “Agora vai para casa dos avós.” Ora, pontualmente, compreende-se e admite-se. Mas os avós não são empresas de serviços de atendimento e guarda de netos.

Está provado que a rotina no cuidado dos netos e o stress que muitas vezes isso implica são prejudiciais à saúde mental dos avós. Os anos trazem uma natural necessidade de adaptação do corpo ao esforço. O organismo começa a dar sinais de dificuldade em responder ao dispêndio intensivo de energias solicitadas pelas crianças. O tempo de recuperação desse esforço é superior ao de um corpo jovem e isso pode deixar marcas de alguma gravidade.

Um estudo realizado pela Universidade de Harvard concluiu que as avós, que cuidam dos netos mais de nove horas semanais, têm 55% de maior risco de desenvolver problemas cardíacos (The Wall Street Journal, 31 de outubro de 2017). Embora não encontrem razões explícitas para esse fenómeno, os investigadores sugerem que corpos cansados podem ser mais vulneráveis à exposição do excesso de energia infantil.

Felizmente, hoje, os avós – em grande parte reformados, com mais saúde e maior vontade de “fazer coisas”, e nalguns casos até com melhor situação financeira – deixam de ser encarados como inativos, apenas úteis para fazer recados ou jogar às cartas nos jardins, mas também não podem, nem devem, ser vistos como cuidadores a tempo inteiro dos tempos livres dos netos.

Recentemente, a Sociedade Espanhola de Geriatria emitiu uma série de recomendações (publicadas no jornal El Mundo) dirigidas aos avós, apelando para que: “Façam o que puderem, mas não se sobrecarreguem com trabalho. Imponham limites aos vossos netos, filhos, companheiros. Vivam! Aprendam a dizer não.”

Aqui chegados, apetece-me dizer:

— Avós, desfrutem dos momentos que partilham com os vossos netos, mas não negligenciem a vossa saúde. Reservem tempo e espaço para as coisas que vos deem prazer: leituras, idas ao ginásio, workshops de várias temáticas, viagens, trabalhos no campo, cultivo da horta ou, simplesmente, momentos de silêncio ou contemplação.

A marca que os avós deixaram em cada um dos leitores tem, seguramente, a feliz lembrança de uma avó que fazia os doces preferidos quando íamos lá a casa, ou de um avô que ensinou a assobiar ou a andar de bicicleta… E isso são memórias insubstituíveis. No entanto, tenham bem presente: ser avó e avô não é profissão.

A autora escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990

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