observador.ptObservador - 25 nov. 06:38

Vamos lá então bater no bei de Tunes

Vamos lá então bater no bei de Tunes

Oxalá um qualquer comércio ou investimento de que desesperadamente precisemos não nos faça engolir algum vexame neste caso do Qatar, e descobrir que nem toda a gente pode bater no bei de Tunes.

Quando julgávamos que já sabíamos a lição, eis que o professor nos diz que afinal é tudo ao contrário, e lá temos de a aprender outra vez. Lembram-se do que nos tinham ensinado o ano passado, quando Biden pôs os EUA a fugir de Kabul? Sim, foi isso: tínhamos de aceitar que o Afeganistão nunca seria a Suíça, e que o mundo não estava obrigado a seguir os nossos valores. Há vinte anos, George W. Bush e os “neo-conservadores” tinham pretendido pôr as meninas afegãs na escola. Essa era de imperialismo humanitário acabara.

Esta foi a sabedoria da imprensa e das redes sociais até há um par de semanas. Mas bastou as equipas de futebol começarem a embarcar para o Qatar, e tudo mudou. O Qatar foi escolhido para organizar o Mundial de Futebol há 10 anos. Ninguém se lembrou então da democracia, dos direitos das mulheres, da liberdade sexual, da corrupção ou do tratamento dos imigrantes, tal como ninguém se lembrou de nada disso durante o Mundial de 2018 na Rússia, quatro anos depois de Putin ter invadido a Ucrânia e anexado a Crimeia, ou durante os Jogos Olímpicos de Inverno na China, há uns meses. Há dias, a santa cimeira do clima decorreu, sem comentários, num Egipto ditatorial e corrupto. Agora, porém, ai do chefe de Estado que vá assistir a um jogo no Qatar sem rasgar as vestes e deitar cinza na cabeça, e ai dos jogadores que não aproveitem a entrada em campo para um retrato de protesto. Que se passa? Porque é que a lição do Afeganistão já não vale? George W. Bush tinha afinal razão?

Um dia, Eça de Queiroz revelou como resolvia o problema de produzir uma coluna de jornal quando não era possível “arrancar uma só ideia útil do crânio, do peito ou do ventre”. Para essas terríveis esterilidades, havia um recurso: agarrar “ferozmente” na pena e dar, “meio louco”, “uma tunda desesperada no bei de Tunes”. O bei era o governador otomano do que é hoje a Tunísia. Do outro lado do Mediterrâneo, diante de uma Europa liberal e progressiva, o bei presidia a um poder decrépito e corrupto, que protegia a pirataria e mantinha a escravatura. À falta de assunto, era a salvação do colunista: como podia a Europa tolerar aquele atentado à civilização? Os leitores indignavam-se sempre. O jornalismo perdeu este grande recurso em 1881, quando a França ocupou e começou a “civilizar” Tunes.

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