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Christian Bobin (1951-2022), o escritor que se surpreendia com a bondade

Christian Bobin (1951-2022), o escritor que se surpreendia com a bondade

Autor fortemente ligado à dimensão espiritual e religiosa, Christian Bobin morreu esta sexta-feira em Le Creusot, pequena cidade francesa onde nascera há 71 anos.

Sempre discreto na sua vida pessoal, Christian Bobin manteve esse lado introspetivo mesmo depois de o seu nome se ter tornado familiar para um número alargado de leitores.

Cultivava a simplicidade com um à vontade tal que muitos julgavam tratar-se de um artifício, algo habitual num meio, como o literário, onde abundam as excentricidades.

Nascido em Le Creusot, pequena cidade mineira na região da Borgonha, manifestou desde cedo uma personalidade solitária e discreta que encontrou um aliado ideal nos livros. Após ter abandonado o curso de Filosofia, acumulou empregos em bibliotecas, museus e livrarias, dedicando as restantes horas à escrita.

Os primeiros livros, datados do final da década de 1970, tiveram reduzido eco no público, pouco familiarizado com um tom fragmentário em que se encontravam elementos da poesia, do romance ou do diário.

Já então cultivava o seu estilo muito particular: frases luminosas e curtas, alicerçadas numa linguagem simples mas que não rejeitava a simplicidade.

O sucesso só chegou no início dos anos 90. Incursão na vida de São Francisco de Assis, "Le très-bas" (Gallimard, 1992) venceria o prémio Deux Margots 1993 e lançou em definitivo Bobin para a primeira linha da literatura francesa.

Sempre influlenciado por autores conterrâneos como Jean Grosjean, André Dhôtel ou o alemão Ernst Jünger, manteve ao longo das três décadas seguintes um ritmo cadenciado de publicação. Pelo conjunto da sua obra, a Academia Francesa distinguiu-o em 2016.

Avesso a grandes aparições públicas, afirmou, numa entrevista rara concedida em 2007 ao "Le Monde", o seu "medo de que a palavra, por se expor demasiadas vezes em plena luz do dia, perca sua vitalidade".

"Nada é mais deslumbrante do que as pegadas de um pardal na neve: elas permitem que vejamos o pássaro inteiro. Mas para isso, precisamos de neve. O equivalente à neve na vida humana é o silêncio, uma discrição, essa distância que permite o vínculo real", afirmou nessa mesma entrevista, na qual defendeu ainda que "é a bondade que me surpreende nesta vida, por ser muito mais singular do que o mal".

Três dos seus livros foram traduzidos para português, embora apenas o mais recente esteja disponível no mercado livreiro: "Um deus à flor da terra" (Difel, 1994), "Ressuscitar" (Edições Tenacitas, 2006) e "Francisco e o pequenino" (Apostolado da Oração, 2014).

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