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Manuel Fernandes: "Temos que exigir um pouco mais a uma geração tão boa da seleção"

Manuel Fernandes: "Temos que exigir um pouco mais a uma geração tão boa da seleção"

Médio esteve no último Campeonato do Mundo pela seleção portuguesa, em 2018, e compreende as críticas ao rendimento da seleção nacional. Em entrevista à Renascença, Manuel Fernandes assume que "se o onze inicial for escolhido com base nos jogadores em melhor forma, Ronaldo não deveria ser titular"

O internacional português Manuel Fernandes compreende as críticas feitas à seleção nacional e a Fernando Santos e acredita que se pode "exigir mais a uma geração tão boa".

Em entrevista à , o médio que integrou a seleção portuguesa no Mundial 2018 concorda que Portugal deverá ser menos dependente de Cristiano Ronaldo. "A idade passa por todos, é inegável", diz.

Ao contrário do que afirmou Fernando Santos, Manuel Fernandes sente que as consequências do ataque em Alcochete não afetaram a performance portuguesa no Mundial da Rússia, onde Portugal deveria ter ido mais longe. A seleção caiu nos "oitavos" para o Uruguai.

O atual médio do Sepahan, do Irão, tem algumas reservas em classificar a atual seleção como a melhor geração de sempre, recordando que Portugal foi à meia-final do Euro 2000 e Mundial 2006 e à final do Euro 2004. "Portugal não conseguiu dar seguimento depois do Euro 2016, fomos eliminados com o Uruguai e Bélgica nas últimas duas competições", recorda.

Sobre a prestação no Qatar, Manuel Fernandes acredita que Portugal tem capacidade para "ir longe, mas não vou tão longe ao ponto de falar em ganhar".

Penso que sim, o Mundial tem sido um pouco atípico. Algumas seleções favoritas tropeçaram ou não têm praticado um futebol tão bom. Parece-me um Mundial com menos qualidade do que o de 2018.

Acho que a seleção tem mais do que condições para fazer um bom Mundial, não vou tão longe ao ponto de falar em ganhar, porque depende de certas circunstâncias. No que toca o plantel, tem todas as possibilidades de ir longe.

Não sei, é difícil. Há pessoas que dizem que a melhor geração é que ganha, não sou totalmente apologista disso. É uma geração muito boa, isso não há qualquer tipo de dúvidas, mas temos que exigir um pouco mais, sendo tão boa. No Mundial fomos eliminados pelo Uruguai, no Europeu pela Bélgica.

Não digo de uma forma crítica, mas tendo uma geração tão boa, podemos até ter ganho o Europeu - que é um feito fantástico -, mas poderia ter dado um passo em frente. É difícil dizer que é a melhor geração. A geração do Figo, Rui Costa e João Vieira Pinto do Europeu 2000 também é muito forte, apesar de não ter ganho. Mais à frente também juntou-se alguns dessa geração e outros jovens, vice-campeões no Euro 2004 e quartos classificados no Mundial 2006.

Por isso, melhor geração acaba por ser muito opinião de cada um. Pessoalmente, acho que esta geração é muito boa, mas também acho que a do Figo era fortíssima.

Acaba por depender dos resultados. Um quinto deste plantel fez parte do Euro 2016, mas nas competições seguintes não conseguiram dar seguimento. Essa geração que falei foi à meia-final do Europeu em 2000, perde a final do Euro 2004, vai às meias-finais do Mundial 2006, atingiu esses patamares regularmente. Isso é importante.

Temos uma geração muito forte e seria bom que pudessem competir e ir longe para provar que é a melhor geração dos últimos anos.

Portugal bateu o Gana, por 3-2. Ronaldo, Félix e Rafael Leão marcaram os golos. Foto: José Sena Goulão/Lusa Portugal bateu o Gana, por 3-2. Ronaldo, Félix e Rafael Leão marcaram os golos. Foto: José Sena Goulão/Lusa

Espanha era um jogo difícil, o empate 3-3 acabou por ser positivo. O Ronaldo marca quase no fim de livre direto. Contra Marrocos não fizemos um bom jogo, eles foram claramente superiores. Não digo que a vitória foi injusta, mas eles mereciam mais do jogo. Também sofremos com o Irão.

Contra o Uruguai reagimos tarde, tivemos de ir atrás do resultado e eles eram compactos defensivamente. O plano deles correu da melhor forma possível, colocaram-se à frente e defenderam o resultado com uma equipa experiente. Saiu-lhes da maneira planeada.

Deu-me a sensação no fim do jogo que poderíamos ter empatado. Tirando os últimos 15/20 minutos em que eles recuaram, era um jogo contra uma equipa acessível que deveríamos ter ganho e seguido em frente.

Acho que não. O estatuto, de certa forma, até nos ajudou. As equipas vinham com um certo respeito, sendo campeões da Europa. Foi um Mundial que deveríamos ter feito muito mais. Teríamos apanhado a França depois do Uruguai, mas isso seria já andar aqui nos "ses".

Se Portugal depois fosse eliminado pela França já era aceitável, entre aspas, pela seleção que era. O Uruguai, sem desprimor, não me parece que tivesse sido uma seleção que tenha feito o suficiente para ser melhor e nos eliminasse.

Eu acho que não. Foi obviamente tema de conversa, era impossível não ser estando lá o Bruno Fernandes, William Carvalho, Rui Patrício, o João Mário, mas em nenhum momento acredito que o que aconteceu em Alcochete tenha algo a ver com a performance de Portugal no Mundial. Eu não senti isso, o ambiente era muito bom.

Os treinos eram competitivos, de respeito mútuo. Na minha opinião e estando lá dentro, não partilho da opinião do selecionador, pelo contrário até.

Manuel Fernandes com Cristiano Ronaldo, no Mundial 2018. Foto: Reuters Manuel Fernandes com Cristiano Ronaldo, no Mundial 2018. Foto: Reuters Manuel Fernandes fez apenas um jogo no Mundial, frente ao Uruguai. Foto: Reuters Manuel Fernandes fez apenas um jogo no Mundial, frente ao Uruguai. Foto: Reuters Foto: Reuters Foto: Reuters

Acho que não afeta. Não é positivo, mas no fim do dia se alguém sai afetado poderá ser o Cristiano Ronaldo. Seguramente que há camaradagem, ninguém quereria estar nessa situação.

É uma situação desagradável e acredito que ele quererá provar que pode ainda fazer o que sempre fez a quem está a duvidar das suas capacidades nesta fase da carreira dele. Mas não acredito que afete o grupo ou que possa ser usado como desculpa para Portugal estar melhor ou pior.

Acho que é uma fase de transição, a seleção tem de ser menos dependente do Cristiano. É algo natural porque ele não vai jogar para sempre.

Atualmente, há jogadores com capacidade para assumir o jogo, mas para isso é preciso que esses jogadores assumam o papel de responsabilidade e a preponderância sobre o jogo.

Acho que ele terá sempre preponderância, mas não tem a mesma que há cinco anos porque é impossível. O tempo passa por todos e isso é inegável. Continua a ser importante, mas temos de perceber que já não podemos ser tão dependentes dele, porque nem é bom para a seleção.

É difícil, depende do que escolhemos como padrão de escolha. Se for quem está em melhor forma ou a jogar com mais regularidade, o Ronaldo não deveria ser titular, por mais difícil ou estranho que seja dizer isto. Eu fui colega dele, admirador de tudo o que fez, mas quem está lá dentro saberá dizer melhor se o que eu estou a dizer é uma baboseira.

O que é importante nestas competições, tendo estado uma vez lá dentro, é estarem os atletas que estão bem fisicamente ou num bom momento de forma. Em 2016, não foi um Europeu em que a seleção destruísse toda a gente como outras seleções noutras competições, mas os jogadores estavam muito bem no clube.

No outro dia estava a ver a Argentina, apesar do Paredes e o De Paul serem muito bons, não jogam com regularidade e não estão num bom momento de forma. Contra a Arábia Saudita, supostamente muito mais débil, foram engolidos no meio-campo. Não estão na forma que deveriam estar e acho que nestas competições faz a diferença.

Percebo. Quando se tem jogadores que Portugal tem e as equipas onde jogam, é normal que as pessoas exijam mais. No fim, o resultado é que conta, mas sou apologista que Portugal poderia jogar melhor. Não digo isto como crítica. Se Portugal jogasse muito bem, eu acreditaria que Portugal poderia jogar muito, muito bem. Com os jogadores que tem, poderia ser muito mais dominador.

Dizem que o que interessa é ganhar, ninguém está a dizer o contrário e é uma forma muito fácil de responder às críticas. Mas acho que pode ser muito mais dominador e não tem de sofrer tanto.

 Foto: Paulo Aragão/RR Foto: Paulo Aragão/RR

Foi uma boa experiência, nunca tinha vivido um Campeonato do Mundo. O que tiro do Mundial foi o bom convívio e a oportunidade de estar na maior competição que existe.

Não tenho interesse e continuamos a treinar. Tivemos duas semanas livres e agora já estamos a treinar e tenho compromisso com o clube.

A parte dos direitos humanos é importantíssima, não me parece que abordaram algumas questões de certa maneira. Vi o jogo do Qatar e ao intervalo e metade do estádio foi embora. O Mundial é suposto juntar pessoas de várias nacionalidades a apreciarem uma grande competição.

Não me parece que o Qatar seja um país de futebol. Tem todas as infraestruturas porque tem o dinheiro para isso, mas não me parece que foi a melhor decisão.

Se compararmos com a Rússia, que também não é um país de futebol na minha cabeça, comentaram comigo que foi dos melhores Mundiais, surpreenderam. Por várias razões, este Mundial provavelmente será lembrado por tudo menos pelo futebol.

Começou pelo Hugo Almeida [antigo internacional e treinador-adjunto do Sepahan], porque fomos colegas de equipa na seleção e no Besiktas, e depois com o mister José Morais. Houve uma abertura com a questão dos estrangeiros e pareceu-me uma boa oportunidade nesta fase da carreira. Lutam para ser campeões. Ficou mais fácil com um "staff" português.

Até quando o corpo permitir. Gosto do que faço, quero aproveitar, não quero depois arrepender-me de ter deixado muito cedo.

Não passa pelo futebol, tenho outros planos em mente. Por completo é difícil afastar, são 20 anos como profissional, mais uns quantos nas camadas jovens. Mas não me vejo a treinar, ou algo assim.

Tive oportunidades em anos distintos, mas não me pareceu que fosse o momento correto para voltar. Depois o tempo vai passando, quanto mais o tempo passa, fazia ainda menos sentido voltar.

Ser campeão com o Benfica.

Depende de como voltarem, com a paragem para o Mundial é um recomeçar. A paragem é como se fosse o final de temporada. Se conseguirem manter esta forma e dinâmica, têm capacidade para serem campeões. O adversário na Champions é supostamente acessível. Tem todas as condições para fazerem uma temporada muito, muito boa. Mas de poder ganhar até ganhar ainda vai um passo importante.

[Entrevista gravada antes do jogo frente ao Gana]

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