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Os que se aproximam e os que se reaproximam, segundo Paulo Raimundo

Os que se aproximam e os que se reaproximam, segundo Paulo Raimundo

Pedir que os que saíram se reaproximem, sem que a direção do partido mude uma linha, é um exercício impraticável. Para preencher faltas, é necessário um espírito de maior abertura.

Paulo Raimundo, numa recente entrevista à Lusa, reconheceu que há 20 anos teve lugar “um movimento de gente que se afastou por várias razões por oposição a esta ou aquela posição do PCP e passado todo este tempo concluem que este é o partido que apoiam”.

A frase vale a pena ser examinada com algum detalhe. As centenas de quadros/ativistas que se afastaram não o fizeram apenas por esta ou aquela posição tomada pelo partido. É simplificação a mais. No partido conviveram com maior ou menor dificuldade durante muitos anos militantes que não concordavam com posições da sua direção. Havia um sentimento de que, apesar disso, valia a pena continuar, não obstante a direção seguir um estilo demasiado fechado tanto no plano ideológico como organizacional. Não se abandona um partido por esta ou aquela posição com que não se concorda. Além disso, os anos e anos de militância que vinham de antes do 25 de Abril e que levaram à construção do partido forte e organizado tinham um peso muito grande; não é fácil abandonar algo a que se entregou de alma e coração e que preenchia o ideal que mereceu e merecia tanta entrega.

O problema surgiu de um modo mais acentuado quando foi criado no partido um ambiente político de combate ao chamado liquidacionismo que tinha penetrado a direção do partido, segundo Álvaro Cunhal em entrevista a um jornal espanhol.

Só uma tal atitude explica a expulsão de Edgar Correia e de Carlos Figueira e a suspensão de Carlos Brito por um período de dez meses, porque, na sua opinião, o marxismo-leninismo não era indiscutível. Haverá para um comunista, como Carlos Brito, algo de mais ignominioso do que ser convidado a dizer o que pensava sobre o marxismo-leninismo, tê-lo feito e, a seguir, sofrer uma suspensão? Um militante incansável ao serviço do PCP com anos e anos de cadeia e com uma fuga heroica que devia ser um orgulho para todo o partido.

A orientação marxista-leninista da URSS e dos outros países conduziram à implosão daquele socialismo. Não é legítimo a um comunista que se preze pelo futuro do ideal socialista/comunista repensar se aquela ideologia entendida daquele modo pode continuar a ser o alfa e o ómega, como é no caso do PCP?

Antes do 25 de Abril, com a concordância da direção, recrutei ativistas para a UEC que não eram marxistas-leninistas, mas concordavam com o Rumo à vitória que constituía o programa do partido.

Se se tiver em conta as várias declarações na ocasião em que foram decididas as sanções e nos anos seguintes, já com Jerónimo de Sousa como secretário-geral, a direção sempre desvalorizou os que saíram, afirmando que saíam alguns e entravam muitos mais.

Tratou-se de um processo de limpeza dos quadros “pouco seguros”, substituindo-os pelos “absolutamente seguros”, muitos deles com uma experiência política traduzida pela participação na luta pela “limpeza” de muitos dos quadros que tinham feito com a direção clandestina a transição para o grande partido de mais de 200 mil membros.

Este foi o processo de combate ao Novo Impulso e que levou ao afastamento de centenas e centenas de quadros e ativistas do partido e não o facto de o partido ter tomado esta ou aquela posição.

A frase contém ainda uma posição enviesada acerca da falta que faz quem não está no partido. Nela está implícito que são os que saíram que, de certo modo, têm de se reaproximar se quiserem considerar o PCP como a sua casa. Não há, por parte da direção, qualquer gesto quanto à sua aproximação ou reaproximação aos que poderão eventualmente fazer esse caminho. O caminho a fazer é dos que saíram e concluir que o PCP é o partido que apoiam, se bem que apoiar seja diferente de militar.

Só a coragem pode dar outro rumo e tentar inverter as perdas constantes de influência no recrutamento de militantes, no terreno social e eleitoral. Falta saber se a coragem vai vencer o imobilismo e o dogmatismo

Há, porém, uma novidade: enquanto, para Jerónimo, não faziam falta e os que entravam eram mais do que os que saíam, Paulo Raimundo afirma que esses que saíram – ou foram obrigados a sair, acrescento – fazem falta. Será um passo? A prática o dirá. Mas pedir para se reaproximar sem que a direção do partido mude uma linha é um exercício impraticável. Para preencher faltas, lacunas que existem e existirão (mesmo que reentrassem todos os que saíram), é necessário um espírito de maior abertura. Não pode ser um movimento de sentido único.

Acresce que qualquer ideal/projeto tem de se adaptar e de se renovar no tempo. Desde sempre e mais agora, com a aceleração do tempo. Ademais, num momento tão complexo e difícil para todos os progressistas e comunistas, é certo e seguro que, para levar a cabo a empreitada, não há comunistas a mais, todos serão poucos.

Só a coragem pode dar outro rumo e tentar inverter as perdas constantes de influência no recrutamento de militantes, no terreno social e eleitoral face ao elevado grau de dificuldade que os comunistas enfrentam em Portugal e em todo o mundo. Falta saber se a coragem vai vencer o imobilismo e o dogmatismo. Se vencesse seria um bom contributo. Até para construir a casa comum dos comunistas. É que faz falta.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

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