sol.sapo.ptPedro Ochoa - 24 nov. 00:00

A reportagem da vergonha

A reportagem da vergonha

Os inquisidores serviram-se de desabafos de estados de alma publicados numa página privada do Facebook, grupo esse somente acessível a um restrito número de membros que têm em comum prestar serviço nas forças de segurança, sendo, portanto, de natureza privada e vedado a terceiros.

Na semana passada, aos tablóides do costume e aos politiqueiros do sistema foi-lhes oferecida matéria para se deliciarem nas suas habituais diarreias verbais, fruto de uma reportagem dita de investigação e assinada por pseudo-jornalistas financiados pela fundação de George Soros e com evidentes ligações a partidos de extrema-esquerda.

De forma tendenciosa e manipuladora, procurou-se associar algumas centenas de agentes de autoridade, das fileiras da GNR e da PSP, a ideais racistas, xenófobos e, como não podia deixar de ser, de extrema-direita, insinuando-se mesmo a militância da maioria deles no Chega.

Com base nesses comentários, que, como bem sabemos, regra geral não passam de um simples descarregar de sentimentos de raiva e de impotência perante situações adversas e que não deveriam existir, não reflectindo o genuíno pensamento de quem os profere, os relatores da reportagem, travestidos de polícias de costumes, decretaram como crime de ódio as palavras escritas nessas publicações, endereçando às autoridades judiciárias a responsabilidade pela exemplar punição dos seus autores.

Tal como é recorrente nos dias de hoje, a carneirada que assentou praça nas redacções dos principais órgãos de comunicação social e nos partidos que sustentam o regime, de imediato veio a público exigir mão pesada para os alegados criminosos, deixando-se cair, por essa via, na esparrela dos activistas políticos adoradores de Marx e de Engels, para quem qualquer tipo de autoridade é um inimigo a abater.

Estamos, sem dúvida, perante um crime! Um crime que os seus perpetradores, para além de não tentarem sequer escondê-lo, ainda se deram ao luxo de se vangloriarem de o terem levado a cabo.

Mas, neste caso concreto, os criminosos não são os polícias e militares tornados protagonistas, à revelia da sua vontade, no lixo supostamente jornalístico que nos foi imposto.

Desabafos genéricos, sem destinatários identificados e proferidos em grupos de amigos, mesmo que reunidos numa rede social, por mais escabrosos e imorais que sejam não constituem delito criminal há praticamente meio século.

Seriam, naturalmente, actos criminosos se dirigidos directamente a um alvo específico e com uma ameaça velada de concretização, o que, manifestamente, não é o caso.

Criminosos são os polícias dos costumes, os pides dos tempos modernos, que, sob a capa de jornalistas, devassaram a vida privada de quem diariamente arrisca a vida para garantir a segurança e o bem-estar de todos nós, desencadeando uma investigação sem a obrigatória tutela judicial e espiando abusivamente comunicações privadas, sem o competente mandado emitido por um magistrado.

Se esta vergonhosa investigação tivesse sido engendrada por órgãos de polícia criminal, de imediato, depois de analisada por uma qualquer autoridade judicial, teria sido considerada ferida de ilegalidade, todas as alegadas provas seriam determinadas como nulas, porque obtidas por  meios fraudulentos, e os seus intervenientes levados perante a justiça, por violação do estado de direito.

E o mais preocupante, é que nos dias de hoje ninguém está a salvo de ser vítima deste tipo de censura, que os mais ingénuos ainda julgam já ter sido extinta, vendo a sua vida ser espiolhada grosseiramente e exposta na praça pública.

Seria expectável, perante todos estes indícios da prática de diversos crimes, que a Procuradoria-Geral da República, ao invés de apontar baterias às forças de segurança, ordenasse antes averiguar da legalidade das acções praticadas pelo auto-denominado consórcio de jornalistas, em particular no que concerne à violação de direitos daqueles que por eles foram investigados.

Não tenhamos dúvidas de que este folhetim teve propósitos exclusivamente políticos, tendo como objectivo atingir um partido que os seus detractores teimam em o catalogar como de extrema-direita, procurando colá-lo ao que consideram franjas extremistas e radicais da GNR e da PSP, aproveitando-se também para denegrir a credibilidade destas duas Instituições.

Se os pretensos jornalistas tivessem querido fazer um trabalho isento, credível e abrangente, teriam, certamente, encontrado bastantes mais mensagens de apelo ao ódio, estampadas em todas as redes sociais, em canais abertos e não em grupos privados, com constantes insultos e ameaças de morte aos polícias e aos militares da Guarda.

Teriam, até, descortinado escritos de ódio de outros agentes de autoridade, com filiações ou simples simpatias políticas a partidos extremistas de esquerda, tendo como alvo actores de  quadrantes políticos opostos e até mesmo camaradas de profissão.

Mas não, para esta inquisição do regime só existem crimes de ódio à direita. A esquerda, essa é tolerante e incapaz de semear a discórdia no seio da sociedade.

Os mamadus de serviço podem destilar veneno contra tudo o que cheire a autoridade e incendiarem as redes sociais e as televisões com discursos inflamados direccionados a quem lhes estendeu a mão e os procurou integrar num país de acolhimento, mas não se trata de ódio, mas sim do exorcizar dos traumas que os afligem.

As manas bloquistas, que têm a quem sair, titulares de um órgão de soberania, podem vir para a rua e, sob o olhar e silêncio cúmplice de Catarina a pequena, apelarem à morte do Presidente de um país irmão, eleito democraticamente, que tal gesto, obviamente, não pode ser intitulado de ódio, mas apenas e só de exercício do direito de expressão.

Naturalmente que muitas dessas palavras que apareceram escarrapachadas na imprensa, saídas das mãos de quem tem a obrigação de nos defender das agruras internas, ultrapassam o limite da razoabilidade, mas as virgens ofendidas que vieram a terreiro exigir sangue deveriam ter em mente uma outra preocupação, a de encontrar as causas que estão na sua origem e não a do castigo de quem se excedeu.

Este apregoado discurso de ódio de polícias e militares da Guarda não se combate com sanções criminais ou disciplinares, mas sim com a resolução dos graves problemas que afectam as forças e serviços de segurança e condicionam o comportamento moral de todos quantos nelas prestam serviço.

No fundo, trata-se de dignificar a carreira daqueles que juraram dar a vida pela Pátria, caso esse sacrifício se torne indispensável, premiando-os com salários mais atraentes e com condições de trabalho decentes, nomeadamente ao nível das infra-estruturas e dos meios materiais e logísticos.

Os responsáveis pela segurança interna têm de entender que o seu dever é defender sempre os agentes de autoridade e patrocinar a aprovação de leis que punam exemplarmente todos os actos criminais contra eles cometidos enquanto no exercício de funções.

Proteger e dignificar os polícias, é o que se espera de quem tem a tutela das forças e serviços de segurança, não permitindo, em circunstância alguma, a inversão de papéis entre quem combate o crime e quem o pratica, fatalidade que se tornou recorrente nos últimos tempos.

E, condição obrigatória para que a pacificação regresse a quem anda nas ruas a zelar pela nossa segurança, garantir que a Lei se aplica de igual modo a todos, extinguindo, de uma vez por todas, a prática que passou a regra, de minorias actuarem impunemente à margem das normas que regulam a vida em sociedade e exercerem uma violência contínua sobre quem procura pôr cobro às suas actividades criminosas, sem que daí sofram quaisquer consequências.

Quanto aos partidos do sistema, em particular aqueles que deveriam estar na linha da frente na defesa acérrima de todas as Polícias, recomenda-se um exame de consciência para que percebam qual a razão de parte significativa dos efectivos policiais se aproximarem do Chega.

Talvez cheguem à conclusão de que os polícias e militares da Guarda já só confiam em quem, na verdade, defende os seus mais elementares interesses!

Pedro Ochôa

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