visao.sapo.ptapfigueiredo - 24 nov. 08:31

Visão | A realidade e os "casos"

Visão | A realidade e os "casos"

A ida dos três ao Qatar impõe-se na ordem do simbólico? Mesmo neste domínio há outras formas, muitas já usadas, de manifestar apoio à seleção. Melhores e sem dar azo, por várias sabidas razões, a legítimas críticas a essas escalonadas idas àquele sultanato das três figuras de topo da hierarquia do Estado. Aliás, que outro país se faz representar a tal nível, em tal país e em tal prova? Não havia necessidade...

1. A realidade do mundo está marcada pela guerra decorrente da criminosa invasão da Ucrânia pela Rússia, com todas suas terríveis consequências, bem assim por outras ameaças para o nosso futuro coletivo e para o futuro do planeta. Entre estas avultando as climáticas, de novo tratadas na COP 27, cujos resultados ficaram muito longe do desejável.

E a realidade do País está marcada pela realidade do mundo e seus reflexos entre nós, desde logo pelas dificuldades crescentes de grande número de portugueses, mormente devido à alta taxa de inflação não acompanhada de correspondente subida dos rendimentos, mais grave para os que deles sempre careceram e carecem.

Ora, neste tão complexo e preocupante contexto, a avaliar por tantas intervenções de protagonistas políticos e pelo relevo que tantos media lhe dão, até parece o importante serem os “casos” que se vão aceleradamente sucedendo. “Casos” amiúde sem qualquer fundamento, ou menores, como os de certas alegadas incompatibilidades, atingindo até figuras como Elvira Fortunato, não obstante a autoridade moral que lhe advém do seu percurso e de ao integrar o Governo só prejudicar a sua brilhante carreira de cientista.

2. “Casos” como o agora suscitado pelo Ministério Público ao constituir arguida a presidente da Câmara de Matosinhos e da ANP, Luísa Salgueiro. Segundo foi noticiado, e não desmentido, por haver nomeado a sua chefe de gabinete sem concurso público – como todos fazem, pois o nº 1 do artº 2 da Lei 78/2019 dispõe que “os membros dos gabinetes de apoio aos titulares de cargos políticos e públicos são livremente (por eles) designados”, e o nº 4 até especifica que tal se aplica “aos órgãos das autarquias locais”. Como estas coisas são possíveis e sem consequências (lembram-se do “caso” Centeno, a busca ao seu gabinete em vésperas de assumir a presidência do Eurogrupo?…), suscitam, no mínimo, enorme perplexidade. 

3. O lançamento e/ou aproveitamento político-partidário de (quase?) tudo isto por parte de parte da oposição, a mais de três anos de eleições, não se me afigura nem curial nem vantajoso para quem tem de se afirmar é através da apresentação de credíveis soluções alternativas às do Governo para os principais problemas do País. E o debate sobre o Orçamento do Estado, ainda em aprovação quando escrevo estas linhas, teria sido uma oportunidade de ouro para isso – mas não foi…

4. Será por terem na tribuna o Chefe de Estado, o presidente do Parlamento ou o chefe de Governo que os jogadores se sentirão mais motivados e a Seleção Nacional será mais forte no Campeonato do Mundo de Futebol? Julgo que ninguém sequer imaginará responder que sim, incluindo Marcelo, Santos Silva e António Costa. Então a ida dos três ao Qatar impõe-se na ordem do simbólico? Mesmo neste domínio há outras formas, muitas já usadas, de manifestar apoio à seleção. Melhores e sem dar azo, por várias sabidas razões, a legítimas críticas a essas escalonadas idas àquele sultanato das três figuras de topo da hierarquia do Estado. Aliás, que outro país se faz representar a tal nível, em tal país e em tal prova? Não havia necessidade…

5. A boa notícia: jovens empenhados a lutar por uma causa mais do que justa, fundamental para defender o planeta e assegurar o seu futuro, a lutar com a vontade de mudar o mundo para melhor que deve caraterizar os mais novos. A má notícia: os meios utilizados nessa luta não serem adequados, inteligentes, podendo até prejudicar a consecução dos fins visados.

De facto, julgo de todo ao lado, errado, nocivo, que um movimento como o Fim ao Fóssil: Ocupa, tenha como forma de “luta” o fecho de escolas a cadeado, impedindo aulas. Fazendo-o até nas que mais se distinguem pela qualidade do ensino, ​por iniciativas cívicas e culturais que são instrumentos de democracia e progresso, como o “Liceu” Camões. Errado e nocivo “exigir” (como estão sempre a fazer alguns partidos, com destaque para o Chega) a demissão de um ministro. Porquê? Por antes de o ser, no exercício da sua atividade profissional, presidir a uma empresa do setor dos petróleos, pertencente à Gulbenkian. Gulbenkian, cujo instituidor era do “ramo” dos petróleos, e que em defesa de novas energias limpas até vendeu essa empresa.

À MARGEM
Percebe-se bem que o Presidente da sacrificada e heroica Ucrânia esteja numa situação, até emocional, que o leve a afirmações e posições que dificultam o caminho para a desejável paz, a que uma vez mais se referiu o Papa Francisco. Mas tem de fazer um esforço para as evitar – e os países que mais o apoiam, com destaque para os EUA e a União Europeia, dar o contributo possível para isso. Último exemplo: a acusação à Rússia relativamente ao míssil que atingiu território polaco. Como seria possível a Rússia ser tão louca ou tão estúpida que fosse, sem nenhuma vantagem, dar um motivo à NATO para intervir diretamente no conflito? 

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