www.dinheirovivo.ptdinheirovivo.pt - 24 nov. 14:44

Catar: é o Gás, estúpido (não os Direitos Humanos)

Catar: é o Gás, estúpido (não os Direitos Humanos)

A Alemanha tem liderado um pequeno grupo de países que tem levantado uma guerra relativamente aos Direitos Humanos no Catar, nomeadamente recordando os milhares de mortos na construção/reconstrução dos estádios de futebol e os direitos da comunidade LGBTQI+.

Recordemos o passado em relação à comunidade LGBTQI+ ainda durante o nazismo os enviou em massa para os campos de concentração e morte. Não há país com tal curriculum de perseguição sistemática e mortífera da comunidade LGBTQI+ na História Mundial. Note-se ainda que o casamento de pessoas do mesmo sexo na Alemanha só foi legalizado em 2017, tendo siso um dos últimos países europeus a fazê-lo - muito depois de Portugal que é um país tradicionalmente conservador. Que seja este país a liderar uma campanha contra o Catar sobre este importante tema não deixa de levantar as maiores dúvidas sobre a sinceridade da campanha.

Também é estranho ser a Alemanha a levantar a questão da morte dos trabalhadores da construção civil tendo em conta que a empresa alemã Schlaich Bergermann Partner foi responsável pela construção do Estádio 974, um dos estádios preparados para o mundial e em cujas obras vários operários morreram.

Tudo se entende quando colocamos o gás na equação. O Catar é, como se sabe, um dos maiores exportadores de gás, um produto que a Alemanha, depois de se ter recusado importar essa matéria-prima da Rússia, precisa desesperadamente. O Catar é o terceiro maior exportador mundial de gás, atrás da Rússia e dos Estados Unidos. Mas o Catar exporta a maior parte da sua produção para a Ásia e a parte ​​​​​​​que exporta para a Europa ruma à Itália, ao Reino Unido, à Espanha e à Bélgica. Ou seja nada ou quase nada para a Alemanha.

O que vemos então é uma tentativa da Alemanha de pressionar o Catar no sentido de alterar a estrutura geográfica das suas exportações de gás. O que a Alemanha pretende é o acesso ao gás do Catar e para isso utiliza, legitimamente, a pressão política sobre esse país, procurando envergonhá-lo internacionalmente quando organiza uma mostra mundial como o Campeonato do Mundo de Futebol.

Significativamente esta luta privada entre a Alemanha e o Catar não tem sido acompanhada por outros países, nomeadamente pelos Estados Unidos, que preferem ser eles a abastecer a Alemanha de petróleo, nem pelo Reino Unido ou a Itália que não querem ver diminuído o seu abastecimento em favor a Alemanha, mas apenas por pequenos países satélites da Alemanha como a Dinamarca.

Bem tem estado o nosso Presidente Marcelo Rebelo de Sousa que tem evitado entrar nesta polémica que pode colocar em risco o projeto de gasoduto português, já que o gás do Catar não viria pelo Atlântico antes entraria pelo canal do Suez no Mediterrâneo. A sua viagem ao Catar é oportuna e foi aprovada pela larga maioria dos deputados portugueses.

A Defesa dos Direitos Humanos tem sido largamente instrumentalizada por alguns países ocidentais para atingir os seus fins geoestratégicos e económicos. Aliás seria de esperar que a Alemanha também deixasse cair o tema mal consiga os seus intentos.

Como cidadãos devemos defender a causa dos Direitos Humanos onde quer que eles não sejam respeitados, mas não devemos ser ingénuos ao ponto de não ver as manipulações que se fazem em redor deste tema, algumas das quais nos poderão, inclusivamente, prejudicar.

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