observador.ptobservador.pt - 23 set. 18:17

Peça "Sombras Andantes" fala da violência da ditadura sobre homossexuais

Peça "Sombras Andantes" fala da violência da ditadura sobre homossexuais

André Murraças é o criador da peça que fala sobre homens e mulheres homossexuais que foram perseguidos durante o Estado Novo. Duas das datas estão esgotadas, as últimas duas estão perto disso.

Um espetáculo de teatro a solo, que mistura documental e ficcional para contar histórias de homossexuais perseguidos e castigados pelo Estado Novo, estreia-se esta sexta-feira no Aljube, em Lisboa, no âmbito da exposição “Adeus Pátria e Família”.

Concebido e interpretado pelo encenador, dramaturgo e ator André Murraças, “Sombras Andantes” é “um conjunto de histórias sobre homens e mulheres homossexuais que durante a ditadura foram perseguidos e alvo de criminalização”, contou à Lusa o encenador e dramaturgo.

“São histórias de amor mantidas em silêncio, que me interessa revelar e não deixar cair no esquecimento”, reforçou.

Em palco, conta “histórias de cidadãos anónimos”, com profissões triviais, como um padeiro ou uma empregada de escritório, baseadas nos arquivos da Polícia Judiciária, recorrendo a voz off, objetos, peças documentais como recortes de jornais e filmes de vídeo a dramatizar situações, enumerou.

O espetáculo partiu do gosto pessoal de André Murraças pelo conhecimento do passado português, que, neste caso, percorre o período que vai das primeiras prisões por delito, passando pela evolução do poder e intensificação da carga policial, até à possível resistência.

Serão também contadas histórias de pessoas ligadas ao espetáculo ou às lutas políticas, como é o caso do poeta António Botto e o escândalo da “Literatura de Sodoma” (que vitimou ainda os escritores Judith Teixeira e Raul Leal), do bailarino encarcerado Valentim de Barros, ou do dirigente do PCP Júlio Fogaça.

André Murraças quer dar a conhecer estas vidas escondidas ou duplas e revelar esse “universo paralelo que se desenvolveu, constituído por quem não fazia parte do sistema, que não era protegido e corria riscos”.

O espetáculo abordará a conivência da medicina que, enfatizando um lado patológico, ajudava a ver a homossexualidade como algo de mau, disse, apontando como exemplos o caso de Valentim de Barros, a quem foi feita uma lobotomia, ou do médico Egas Moniz, que considerou a homossexualidade como doença e contribuiu assim para a criação do estigma e sua validação como crime.

André Murraças assina o texto, encenação e cenografia do espetáculo, sendo ainda o seu intérprete único em cena.

No seu percurso, os solos de teatro são uma constante, recorrendo a objetos pessoais, cartas, desenhos, filmes caseiros para contar histórias, cruzando o cinema com o documental, o privado com o público.

Em trabalhos anteriores a solo já explorou a perseguição dos nazis aos homossexuais e, paralelamente, desenvolve trabalho, enquanto dramaturgo e encenador, em projetos com outros atores.

O encenador tem um gosto particular por destacar personagens (reais ou ficcionadas) que tenham vidas marcadas pelo lado trágico mas que ainda assim insistem em não se resignar, de que são exemplo Cândida Branca Flôr, Oscar Wilde ou Repórter X.

“Sombras Andantes” vai estar em cena no auditório do Museu do Aljube e é de entrada livre, mediante marcação através do endereço inscricoes@museudoaljube.pt.

Segundo André Murraças, as datas iniciais — esta sexta-feira e 30 de setembro, às 19h00, e 24 de setembro e 1 de outubro, às 16h00 — já estão esgotadas.

Foram entretanto adicionadas mais duas datas — 29 de setembro, às 19h00, e 1 de outubro, às 19h00 — que também já estão perto de esgotar.

O espetáculo está inserido na programação paralela da exposição temporária “Adeus Pátria e Família”, inaugurada a 28 de junho e patente até 29 de janeiro de 2023.

A exposição apresenta a história da repressão, da luta e das conquistas pela diversidade de género e sexual durante a ditadura e após o 25 de Abril, procurando mostrar como a tensão entre a repressão e as resistências de diversidade sexual e de género, ao longo dos anos, condicionou a vida quotidiana e perpetuou práticas e discursos opressivos e discriminatórios, marcando a sociedade portuguesa até à atualidade.

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