www.dinheirovivo.ptdinheirovivo.pt - 23 set. 19:38

Paulo Portas: Europa perdeu competitividade

Paulo Portas: Europa perdeu competitividade

Para Paulo Portas o mundo está cada vez mais politizado, com o crescimento e o eixo político a transferir-se para a Ásia. Num cenário pós pandemia e guerra na Ucrânia surgem novos players - como a Polónia - que ganham destaque.

Uma análise da situação geopolítica mundial. Este foi o papel assumido por Paulo Portas aquando da sua intervenção no X congresso da AGEPOR - Associação dos Agentes de Navegação de Portugal, com o tema "O mar é tudo". O antigo ministro do Estado e da Defesa Nacional começou por enaltecer a resiliência do setor, dado que o transporte marítimo foi fortemente afetado pela pandemia e voltou, novamente, a estar regional e localmente no centro das relações comerciais internacionais aquando da guerra na Ucrânia.

A par disso foi evidente, acrescentou Paulo Portas, que, quer a pandemia, quer a guerra, não foram considerados como situações previsíveis pelas entidades que habitualmente fazem considerações sobre o futuro. O que talvez significa que precisamos de ter ou melhores dados ou melhores analistas.

Paulo Portas alertou ainda para as alterações que estão a transformar o mundo. Não só o crescimento mudou-se para a Ásia, como o mesmo aconteceu com o eixo político. E explicou que isso não se reflete no núcleo duro da NATO. Nem a terceira maior economia do mundo, o Japão, nem a primeira economia europeia, a Alemanha, nem economias emergentes, como o Brasil, têm poder de veto.

A constituição é antiga - data do fim da segunda Guerra Mundial - e não reflete o mundo atual.

Mas, mais do que isso. No caso específico da pandemia a situação que o mundo atravessou mostrou que não há um sistema internacional de gestão de crise. A resposta dos vários países - o encerramento de fronteira e o confinamento - é prova disso mesmo. Temos de deixar de ser reativos para passar a apostar numa gestão de conflitos, em que se tenta antever os mesmos, por forma a atuar antes de eles se efetivarem. Porque é certo que haverá mais crises mundiais, com a próxima, provavelmente, nas palavras de Paulo Portas, a incidir sobre as alterações climáticas e o seu impacto económico.

Mas "será que a globalização foi longe demais?". A questão de Paulo Portas prende-se com o equilíbrio entre globalização e governance e, principalmente, por o mundo ter perdido "a" figura de árbitro no que se refere à arbitragem do comércio mundial. O que, na opinião do ex-ministro, potencia um aumento de conflitos bilaterais ou multilaterais.

E depois há a questão da inovação. Se há cerca de 20 anos os Estados Unidos da América e a Europa produziam cerca de 80% dos semicondutores a nível mundial hoje o valor não chega sequer aos 20%. O mesmo ocorre com as baterias para os veículos elétricos, em que os 10 maiores fabricantes do mundo estão na Ásia.

Porque será que os capitais europeus preferem investir nos Estados Unidos e na Ásia? Porque têm modelos de negócio completamente distintos. E a análise indica que a Europa tem défices de competitividade. "A Europa não é sequer o quinto polo em termos de inovação", constata Paulo Portas. A liderança pertence a Israel, com o Japão a ocupar o segundo lugar - e que lhe permite auferir do título de terceira maior economia a nível mundial. Seguem-se os Estados Unidos da América e a China.

"Precisamos de melhorar este rácio", afirma Paulo Portas. E rapidamente.

A questão da inovação e da investigação foi ainda realçada por um outro ponto: "Só saímos da pandemia porque houve uma aliança entre a ciência e o capital". E basta olhar para os números. "Os Estados Unidos investiram quatro vezes mais que a Europa" no desenvolvimento da vacina.

O perigo da fragmentação

Um dos fenómenos que está a acontecer e que Paulo Portas assinalou prende-se com a fragmentação, no sentido de os países só fazerem negócio com os seus aliados. Isto pode mudar por completo o cenário geopolítico mundial. Principalmente porque assistimos cada vez mais a uma polarização entre o poder instituído - os Estados Unidos da América - e o poder desafiante - a China.

Mas essa não é a única mudança a que estamos a assistir. A própria mentalidade dos europeus está a mudar. Segundo Paulo Portas a guerra na Ucrânia deitou por terra a noção de guerra sem defesa. Mudou a ideia que tínhamos sobre a paz. Porque a verdade é que, no caso da Ucrânia, a Europa não tem grande coisa a dizer. Não só pela falta de poderio militar, mas, principalmente, pela dependência energética. Com a Alemanha a sofrer um "vexame muito grave", dado que se verificou a existência de uma grande debilidade da defesa e, sobretudo, da dependência energética. O certo é que, e resposta disto, a Alemanha está a deitar para trás a sua mentalidade ainda fruto da consequência das duas grandes guerras e a adotar uma liderança militar a nível europeu.

Ainda em termos de futuro e de mudanças geopolíticas europeias, Paulo Portas apontou que a entrada da Ucrânia para a União Europeia vai desviar as atenções e criar algumas dificuldades aos países periféricos, passando a haver dois eixos: ao já existente Paris-Berlim soma-se o Varsóvia-Kiev, com a Polónia a ganhar cada vez mais importância na política europeia.

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