visao.sapo.ptSARA NUNES - 23 set. 08:31

Visão | Um cancro chamado TAP

Visão | Um cancro chamado TAP

Se a TAP é uma bandeira de Portugal, está a passar a imagem de um País desorganizado, sem estratégia e com uma arrogância que não deixa saudade

“Portugal precisa de todos” é um slogan do Ministério da Economia para que os portugueses na hora de comprar prefiram produtos “Made in Portugal”. Mas será que devemos de facto dar preferência a todos os produtos nacionais? É certo que temos marcas, como Vista Alegre ou os vinhos do Porto, que estão nos quatro cantos do mundo e que sentimos orgulho quando sabemos que um desses lugares é o Palácio de Buckingham ou a Casa Branca. Mas, também não é menos verdade que uma das nossas marcas nos faz corar de vergonha. Falo da TAP.

Oficialmente, a transportadora área nacional diz que “são mais de 80 destinos em mais de 30 países que estão à sua espera!” e promete “os aviões mais modernos, prontos para o acompanhar nas suas viagens”. Conta também que “tem como foco o serviço e a liderança no mercado de transporte aéreo e atividades afins, com vista a gerar retorno para os investidores”. Mas, o que se lê na imprensa, nas redes sociais, o que um cidadão normal vive no aeroporto é bem diferente do que conta. Diria mesmo que é mentira!

Bem sei que TAP significa aviões, que ANA significa gestão aeroportuária, que Groundforce se traduz na assistência em escala ao transporte aéreo. Também sei que para um avião voar em segurança é necessária a união destas entidades e de uma série de sindicatos. No entanto, quando compro um bilhete de avião para ir do ponto x ao y, voo com a TAP, que é o rosto de uma equipa grande.

Acontece que com a TAP todos os dias se ouvem relatos de voos atrasados, do péssimo serviço do pessoal de terra, de bagagem que não chega ao destino (que dá a volta ao mundo antes de ser entregue ao dono), que viu o seu voo cancelado ou atrasado.

Para este português a TAP é um buraco financeiro e nunca se deveria ter invertido o processo de privatização, mas uma vez feito há que ter a coragem e emendar o erro. Para este português não faz sentido o Estado manter uma empresa que é um sorvedouro de milhões de euros, que presta um serviço que chega a ser penoso para quem o compra, que é uma péssima embaixadora da marca Portugal.

Não é meu hábito usar este espaço para falar da minha vida, mas o que vivi com a TAP num sábado que se queria de viagem para comemorar um momento especial foi transformado num autêntico pesadelo. Já no autocarro a caminho do avião, recebemos a informação de voo cancelado.

“A segurança primeiro” foi uma das justificações para este cancelamento. Olhando para a lista de voos TAP com constrangimentos naquela tarde – 14 voos –, concluo que a frota ou está velha, ou mal mantida. Também ouvi que o cancelamento teve a ver com “problemas operacionais”. Tendo em conta que a operação da TAP é planeada com antecedência, as rotas e horários de voos diários, a desculpa mostra que não há competência para garantir as operações que são a sua fonte de rendimento. Ora, cada operação falhada implica perdas operacionais!

A juntar a tudo isto a forma como tratavam os passageiros. Arrogância, má educação e desprezo foi o que encontrei naquela tarde, onde vi o meu voo cancelado e onde não consegui solução em tempo útil.

. Ora se os aviões têm tantos problemas, se as operações têm tantos atrasos, qual a relevância de sermos donos da TAP?

Porque não se extingue a companhia de bandeira, tal como fizeram países apelidados de “países modelo”? Perderíamos menos e cada português ganharia mais. Ganharíamos orgulho da decisão e poderíamos canalizar as verbas para a Saúde, a Educação, a Segurança, e, porque não, para a alta velocidade.

Tal como está não pode ficar. A TAP é uma espécie de cancro silencioso, que nos consome a carteira e a paciência sempre que tentamos viajar a bordo dos seus aviões. E já não serve a conversa de que a TAP faz repatriamentos em caso de necessidade. Para essas eventualidades poderemos sempre alugar aviões de passageiros, tal como alugamos aviões anfíbios de combate aos incêndios.

A TAP já foi uma referência da aviação por vários motivos. Já senti orgulho em ver um avião com a nossa bandeira pelo mundo, já senti o conforto de cumprimentar em português a tripulação depois de dias a viajar.

Hoje não. Naquele sábado, dei por mim a pedir desculpa a vários passageiros estrangeiros pelo serviço não prestado, e a justificar que Portugal não é assim, que somos um destino turístico por excelência e sabemos receber. No entanto, quando estes turistas me falam do aeroporto e das condições péssimas em que esperaram, ou da falta de uma tarifa fixa nos táxis como nos países civilizados para evitar os abusos nos trajetos, começo a ficar sem argumentos.

Vou já poupar a resposta às mensagens que vou receber a dizer que nem todos os colaboradores são iguais, que não posso tratar todos por igual. É verdade, falei com uns 10 funcionários neste processo – um deles foi bastante correcto ao dizer-me que, o voo para onde me estavam a encaminhar, a acontecer, não haveria hipótese de voar, visto estar em overboking total pelo cancelamento do anterior.

Quando se prepara a proposta de Orçamento de Estado para 2023, seria interessante inscrever nela a coragem política para fazer “marcha atrás” e emendar o erro. De igual modo, seria interessante que na conversa que o líder do PSD, Luís Montenegro, terá em breve com o Primeiro-ministro e o ministro das Infraestruturas, para discutir o futuro aeroporto de Lisboa, pudesse ser incluído o futuro da TAP. É que ainda não estou convencido da intenção do governo em acelerar a privatização da companhia aérea a 100% de modo a concluí-la em 2023.

Seria estrategicamente mais importante sermos donos dos aeroportos, e não somos há muito, não entendo os nacionalistas que defendem a TAP como símbolo nacional e que chegam a compará-la aos descobrimentos. nem quero entender. Se a TAP tivesse que liderar alguma descoberta, ia chegar lá atrasada, garantidamente.

Paguem por favor para alguém ficar com a empresa, como aconteceu com o novo banco, vale mais limitar perdas que manter a companhia neste estado. Acredito que os privados pensem no cliente, na necessidade de cumprir com a expectativa de compra, tornar a experiência atrativa e potenciar as vendas.

Deixem voar a TAP sem atrasar o nosso desenvolvimento e sem excesso de peso nos nossos bolsos.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

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