observador.ptobservador.pt - 23 set. 18:29

Portugal pede à China que use influência para demover Putin de retórica nuclear

Portugal pede à China que use influência para demover Putin de retórica nuclear

João Gomes Cravinho falou com Wang Yi sobre as relações diplomáticas entre Portugal e a China, pediu ainda ao seu homólogo que tivesse uma palavra para Dmytro Kouleba sobre a guerra.

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O ministro dos Negócios Estrangeiros (MNE), João Gomes Cravinho, disse esta sexta-feira que pediu à China que utilize a sua influência para demover o Presidente russo, Vladimir Putin, da retórica sobre a utilização de armas de destruição maciça.

Em declarações à imprensa portuguesa em Nova Iorque, onde participou na 77.ª Assembleia-Geral das Nações Unidas (ONU), Cravinho indicou que usou o seu encontro de quarta-feira com o conselheiro de Estado e ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, para abordar a invasão russa da Ucrânia.

Sim, falámos da guerra. Muito em particular, aquilo que eu sublinhei ao meu colega chinês foi que, embora possamos ter ideias diferentes sobre a natureza da guerra, era fundamental que a China utilizasse a sua influência para explicar ao Presidente Putin que a retórica sobre a utilização de armas de destruição maciça é absolutamente inaceitável, descabida e que era fundamental que se eliminasse do vocabulário do Presidente russo”, disse o MNE português.

Desde o início da guerra, a China tem sido um dos países que se tem abstido de condenação a atuação da Rússia na Ucrânia, em palcos como o Conselho de Segurança e a Assembleia-Geral da ONU.

Contudo, Wang Yi garantiu esta sexta-feira ao homólogo ucraniano, Dmytro Kouleba, que Pequim pediu respeito pela “soberania e integridade territorial” de todos os países, de acordo com a imprensa estatal chinesa.

Já sobre o encontro entre os MNE português e chinês, a agência estatal chinesa noticiou que Wang Yi observou que a “relação China-Portugal resistiu ao teste das mudanças no cenário internacional e alcançou um desenvolvimento sólido com base na compreensão e confiança mútua”, acrescentando que o “povo chinês tem sentimentos amigáveis em relação ao povo português”.

“Os dois países têm avançado na cooperação prática enquanto superam o impacto da pandemia de Covid-19”, disse Wang, acrescentando que as exportações de produtos agrícolas e alimentares portugueses para a China estão a crescer rapidamente, e que a cooperação entre grandes empresas de ambos os países, assim como a cooperação tripartida, estão a progredir.

Wang Yi disse ainda que Portugal, “como um importante membro da União Europeia”, tem desempenhado um papel positivo e construtivo nas trocas entre a China e o bloco europeu.

De acordo com a agência Xinhua, a China mostrou estar disposta a trabalhar com Portugal para, em conjunto, defender o papel central da ONU nos assuntos internacionais e promover a causa da paz, do desenvolvimento e do progresso.

Wang Yi também expressou a expectativa de que a União Europeia adote uma “atitude objetiva, racional e imparcial” (…) de modo a “produzir resultados vantajosos para todos”.

Já sobre a posição de Cravinho, Xinhua indicou que o português destacou o papel crítico da China na abordagem de desafios comuns, como salvaguardar a paz e a segurança e combater as alterações climáticas.

Elogiando a eficácia do princípio “um país, dois sistemas” em Macau, Cravinho disse esperar que Macau continue a funcionar como uma ponte para facilitar a cooperação Portugal-China, de acordo com Xinhua.

“Referendos não serão reconhecidos por ninguém”, João Gomes Cravinho

O ministro dos Negócios Estrangeiros (MNE), João Gomes Cravinho, considerou esta sexta-feira “completamente ilegais” os referendos que a Rússia está a realizar para anexação dos territórios ucranianos ocupados, prevendo que “não serão reconhecidos por ninguém”.

Naturalmente, estes referendos são completamente ilegais e não serão reconhecidos por ninguém. A Rússia já levou a cabo este tipo de estratégia em outros contextos, nomeadamente na Geórgia, mas não haverá nenhum tipo de reconhecimento internacional”, disse Cravinho a jornalistas em Nova Iorque, à margem da 77.ª Assembleia-Geral das Nações Unidas (ONU).

“Portanto, a ideia de que a partir do momento em que fazem estes falsos referendos, passemos a falar de território russo na Ucrânia, essa é uma ideia que não tem qualquer cabimento e, portanto, não justificará qualquer atitude nova por parte da Rússia”, avaliou.

O chefe de diplomacia portuguesa declarou que os referendos são uma nova forma de agressão à Ucrânia e disse acreditar que a comunidade internacional está a reagir da “forma correta” à ação de Moscovo.

“Agora, do ponto de vista da tentativa de formalizar, da tentativa de criar uma ideia de legalidade nos territórios ucranianos ocupados, ninguém na comunidade internacional reconheceu a anexação da Crimeia e muito menos agora reconhecerá estes territórios sob ataque russo como sendo russos“, frisou

Os referendos sobre a adesão dos territórios ucranianos de Donetsk, Lugansk, Zaporijia e Kherson à Federação russa começam hoje e decorrem até 27 de setembro, indicaram as autoridades pró-russas dessas regiões.

O anúncio oficial de realização dessas consultas populares para anexação dos territórios ucranianos sob ocupação russa foi feito num discurso à nação proferido na quarta-feira pelo Presidente russo, Vladimir Putin, juntamente com o da mobilização de 300.000 reservistas russos para combater na Ucrânia e de uma ameaça velada de utilização de armas nucleares contra o Ocidente.

Face a essa mobilização de tropas russas — e consequente necessidade de reorganizar a estratégia da NATO nos países vizinhos da Ucrânia onde concentrou mais meios militares, maquinaria, arsenal de guerra, assim como meios humanos –, Cravinho assegurou “não ver a necessidade” de Portugal aumentar o seu contingente.

“Ainda não estamos a ver essa necessidade. Pode ser que daqui a seis ou oito meses se chegue a outra conclusão, mas para já não acreditamos que esta medida tenha grande eficácia militar. Estamos a falar de mobilização de militares que estavam na reserva para, evidentemente, fazer face às grandes perdas sofridas pela Rússia, embora Putin não admita isso. Mas a lógica só pode ser essa”, disse.

“Não acreditamos que venha a ter grandes consequências em termos de capacidade militar russa no curto prazo”, observou o líder da diplomacia portuguesa.

Na quinta-feira, Cravinho participou num encontro informal de parceiros transatlânticos, do qual estiveram presentes membros da NATO e o MNE ucraniano, Dmitri Kuleba, e onde a escalada no conflito foi abordada.

“Foi um momento em que nos pudemos, coletivamente, debruçar sobre os últimos desenvolvimentos por parte da Rússia. Aquilo que posso dizer é que há uma determinação coletiva relativamente à ideia de que não podemos sucumbir às tentativas de intimidação por parte da Rússia”, afirmou.

“Pelo contrário, aquilo que nós temos de fazer enquanto NATO é cerrar fileiras, continuar a dar apoio aos Estados que têm fronteira com a Rússia. E, por outro lado, também acentuar mais as nossas sanções, inevitavelmente, face a esta fuga para a frente de Putin”, acrescentou Cravinho.

O ministro assegurou ainda não haver qualquer indicação da necessidade de uma reunião extraordinária da NATO, “porque estamos todos convencidos que estamos a fazer exatamente aquilo que é necessário”, disse.

João Gomes Cravinho e o secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e Cooperação, Francisco André, acompanharam o primeiro-ministro, António Costa, na deslocação a Nova Iorque, por ocasião da 77.ª Assembleia-Geral das Nações Unidas.

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