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Visão | A extrema-direita e o exercício fútil de tentar parar o vento com as mãos. Editorial de Mafalda Anjos

Visão | A extrema-direita e o exercício fútil de tentar parar o vento com as mãos. Editorial de Mafalda Anjos

Os populismos, à direita e à esquerda, encontram terreno fértil em tempos de incerteza, crise económica e desespero. Mais do que combater estes movimentos políticos, é preciso combater as suas causas

A viragem do século ditou uma mudança significativa na política europeia. O primeiro embate, um marco histórico, aconteceu logo em fevereiro de 2000, quando o Partido da Liberdade austríaco, liderado por um sinistro Jörg Haider, assumidamente nacionalista, xenófobo e defensor de políticas de inspiração nazi, entrou formalmente num governo, conseguindo o melhor resultado para um partido de extrema-direita desde a Segunda Guerra Mundial. As ondas de choque fizeram-se sentir um pouco por toda a Europa: como era possível que um partido com estas características chegasse ao poder, legitimando a extrema-direita em toda a Europa?

Não só foi possível, como fez escola. A extrema-direita, com o seu discurso antissistema e “antimuita coisa”, passou a ser o “bully” a ter em conta nos resultados legislativos. Depois da Áustria, nestes 22 anos, muitos outros partidos do espetro da direita radical chegaram a coligações que suportam governos e, nalguns casos, até conseguem integrá-los.

A lista é extensa. Nos Países Baixos, o nacionalista anti-islamita Geert Wilders, que comparou o Corão ao Mein Kampf, teve um lugar de destaque num governo minoritário com o VVD e os democratas cristãos em 2010, e chegou a ser dado como possível vencedor nas eleições de 2017, ficando num confortável segundo lugar. Na Dinamarca, o DF, o nacional-conservador Partido do Povo Dinamarquês, tornou-se o segundo maior partido em 2015, alcançando 21% nas eleições gerais, mas acabou por perder gás em 2019.

Na Noruega, o Fremskrittspartiet, ou Partido do Progresso, liberal, nacionalista e anti-imigração, coligou-se com os conservadores em 2013 e formou governo (conhecido como “gabinete Solberg”), sendo reeleito em 2017 com os liberais e os democratas-cristãos. Na Finlândia, o populista Partido dos Finlandeses, conhecido como True Finns, conseguiu o terceiro lugar nas eleições de 2011 e o segundo nas de 2015, e depois de um fracionamento, voltou a chegar à segunda posição em 2019.  Em Itália, entre 2018 e 2019, Matteo Salvini, o rosto da Liga, foi vice-primeiro-ministro. E o Fratelli d’Italia, de Giorgia Meloni, está bem colocado nas sondagens para as eleições de dia 25 de setembro, podendo os italianos elegerem a primeira líder de extrema-direita desde Mussolini.

Não chegou ao Eliseu, mas em França, Marine le Pen, perdeu na segunda volta com uma mudança cosmética da Frente Nacional, mas conseguiu 41,5% dos votos, 13 milhões de votantes a gostar das suas propostas no país da igualdade, liberdade e fraternidade. E na Alemanha, a AfD chegou ao Bundestag de rompante em 2017, causando assombro por ver entrar na assembleia um partido de extrema-direita pela primeira vez desde o nazismo. Aqui ao lado, o Vox é o terceiro partido no parlamento espanhol.

Os resultados das eleições na Suécia, no domingo passado, não devem, pois, surpreender. Este é o novo normal numa Europa onde os movimentos populistas, conservadores, nacionalistas, antieuropa e/ou anti-imigração suportam soluções governativas ou ganham força inequívoca. As cercas sanitárias são raras e pouco eficazes.

Os ironicamente chamados Democratas Suecos, um partido radical que fez campanha contra a imigração, a corrupção e o crime, legislação ambiental e, cereja no topo do bolo, tem raízes neonazis, alcançaram mais de 20% dos votos, chegaram ao segundo lugar e vão suportar uma coligação de governo à direita. Mesmo que não consigam assento no governo, uma hipótese que os liberais recusam, terão influência na definição das políticas suecas. 

Por cá, não sendo umas eleições nacionais (onde, no outro lado do espetro, a esquerda mais radical garantiu uma solução governativa), na Região Autónoma dos Açores, um acordo entre PSD, CDS-PP, PPM com o Chega, assinado em novembro de 2020, deu suporte ao governo. Esta semana, novas sondagens mostraram que, somadas as intenções de voto no PSD e na Iniciativa Liberal, a direita já suplantaria os resultados do PS se incorporasse o Chega, que se consolida como terceira maior força política. Sondagens, leva-as o vento e, como bem sabemos, valem o que valem quando temos quatro anos pela frente de maioria absoluta, mas este é um cenário que está sempre em cima da mesa a médio prazo.

O contexto agora é extremamente propício e vai continuar a ser. Os populismos, à direita e à esquerda, encontram terreno fértil em tempos de incerteza, crise económica e desespero. A inflação, a subida das taxas e o forte abrandamento que se adivinham adiante deixarão mossas. E a tendência é para os eleitores descontentes irem buscar respostas alternativas quando “os do costume” não oferecem soluções.

Perceber as razões profundas deste ressentimento e desta raiva e atendê-las com respostas e medidas concretas é um imperativo para todos os partidos tradicionais. Mais do que combater os movimentos políticos, é preciso combater as suas causas. Caso contrário, tentar detê-los é como tentar parar o vento com as mãos.

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