observador.ptObservador - 22 set. 08:02

Duas mortes reais e uma imaginada

Duas mortes reais e uma imaginada

Passei o dia todo no sofá a ver nas televisões o funeral de Isabel II. Não pertenço, decididamente, à categoria dos portugueses que, nestas circunstâncias, declaram enfaticamente que “já estão fartos”

Até hoje, foi uma semana cheia.

Segunda-feira. Passei o dia todo no sofá a espirrar para lenços de papel e a ver nas televisões o funeral de Isabel II. Não pertenço, decididamente, à categoria dos portugueses que, nestas circunstâncias, declaram enfaticamente que “já estão fartos”. Por mim, confesso, não me fartei nada. O rigor milimétrico de todo o cerimonial consecutivo à morte da rainha, que culminou segunda-feira em Windsor, fascinou-me como há muito tempo nada na televisão me tinha fascinado. Só os ingleses, um povo de actores natos, é que podem dar-se ao luxo de tamanha pompa e circunstância sem caírem por um só instante no ridículo.

A etapa final, no castelo de Windsor, raiou a perfeição. Não me refiro apenas aos magníficos hinos do Common Prayer Book cantados pelo coro. Refiro-me à cerimónia no seu todo e a cada um dos seus momentos. Quando, por exemplo, o Lord Chamberlain quebra em duas partes uma varinha e deposita as partes partidas em cima do caixão da rainha, simbolizando o fim da soberania da monarca, viajamos instantaneamente no tempo. E todo o ritual é compatível com as mais humanas emoções. Como quando, por exemplo, o Royal Piper toca, na sua gaita-de-foles, um belo lamento, e, enquanto o caixão vai lentamente descendo para a cripta, se afasta a passos espaçados e regulares, até sair de cena e a música se ir perdendo na distância, como entre brumas.

Não, de facto não me “fartei” nada. Agradeci mesmo muito a extraordinária lição de representação, no duplo sentido da palavra, que não é tão duplo assim em alguém como Hobbes.

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