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Outros Mundos: Um ano, um mês e uma semana de aventuras e fotografias na Ásia

Outros Mundos: Um ano, um mês e uma semana de aventuras e fotografias na Ásia

Ana Abrão: “A maior e mais importante lição e constante desafio é a de aceitar as pessoas como elas são, com as suas limitações, as suas escolhas e as suas imperfeições…”

Como fotógrafa de pessoas e de culturas, o contacto com as pessoas das comunidades locais é o que, para mim, faz da experiência de viagem um momento enriquecedor e, talvez até, transformador. É uma oportunidade privilegiada de aprendizagem.

Um voo só de ida levou-me sozinha de Portugal até a Ásia e, a partir de lá, segui o fluxo dos acontecimentos, sem planos, sem datas, sem regras. Embebedei-me de liberdade. A Índia foi o ponto de partida e, em seguida, Nepal, Mianmar, Vietname, Camboja, Laos, Tailândia, Singapura, Malásia, Indonésia, Bornéu (território da Malásia) e Sulawesi (Indonésia).

Em 402 dias, há espaço para muitas coisas. Inclusive para ser turista e fazer coisas maravilhosas como nadar nas cascatas paradisíacas de Kuang Si (Laos); praticar arborismo em árvores gigantes ou fazer curso de scuba diving nas Ilhas Perhentian (Malásia); perder-me de Kayak na Baía de Halong ou descer o rio de canoa na maravilhosa Tam Coc (Vietname) ou mergulhar com tubarões, a 30 metros de profundidade, na reserva marinha de Sipadan (Bornéu).

Adoro estas aventuras e cada uma delas faz de mim o que sou. Mas quando se trata de fotografar, o cenário muda. Ao longo dos anos, descobri uma forma muito particular de viajar e de produzir material fotográfico com originalidade e, ao mesmo tempo, profundamente significativo para mim: em locais remotos, distantes dos roteiros turísticos. Para se encontrar e interagir com pessoas locais, que nos vêem simplesmente como nós somos e nos recebem como convidados, é preciso, quase sempre, ir contra a maré do turismo.

Este caminho, no entanto, tem um preço. Se não há turistas, não há transportes, hotéis, restaurantes, serviços, informações acessíveis, pessoas que falam inglês e tudo o que torna a vida do viajante menos complicada.

Em compensação, a cada vez que sigo em sentido contrário aos viajantes e mergulho na cultura, a experiência torna-se intensa, rica e vibrante. Entro, verdadeiramente, numa cultura local quando me sento no chão da sala e como, com as mãos, a comida de todos os dias. Quando sinto a dinâmica do funcionamento de uma família. Quando observo as rotinas, as hierarquias, as divisões de tarefas, as diferenças de género, a forma como são educadas as crianças ou como são tratados os animais. Tudo ensina e enriquece a minha experiência. Aproximar-me da vida local, como ela é, revela uma dimensão que não vemos na superfície, durante uma viagem de férias.

Foto "Ao longo desta e outras experiências, vi e vivi coisas que nunca imaginaria" Ana Abrão

Ao longo desta e outras experiências, vi e vivi coisas que nunca imaginaria. Mais do que um portfólio de fotografias, tenho hoje um gigantesco álbum de histórias, onde cada imagem e cada rosto revela uma história única.

Observo com atenção as diferenças que admiro e as características com as quais me identifico. Penso, com tolerância, sobre as que me afastam. Pondero sobre as que me chocam. Aprendo sobre a cultura do outro, mas, sobretudo, analiso a minha própria.

Pequenas conquistas, que aqui temos como adquiridas, ganham nova dimensão, um novo valor. Tão simples como poder girar uma torneira e recolher água potável ou tão grande como a liberdade de escolha, de expressão ou religiosa. No entanto, a maior e mais importante lição e constante desafio é a de aceitar as pessoas como elas são, com as suas limitações, as suas escolhas e as suas imperfeições…

É verdade! “Nem tudo são flores”. Ser abandonada na fronteira do Vietname com o Camboja, sem passaporte e sem malas, é uma experiência que qualquer viajante dispensa. Ser colocada para fora do táxi, pelo condutor, com mala e tudo, de madrugada, num local estranho, de um país desconhecido, também não. Nem ser levada para um posto da polícia, onde ninguém fala inglês, acusada de coisas horríveis por um guia mau carácter, que tem a intenção, nefasta, de arrancar ao estrangeiro uns dólares a mais do que o combinado. Ser roubada enquanto durmo, muito menos. A antecipação das experiências desagradáveis, que não podemos prever ou evitar, são as que mantêm as pessoas no conforto do sofá. No entanto, aparte a irritação momentânea, são os pequenos “incidentes” que fazem do viajante solitário uma pessoa mais forte. Sim, há solução para todos os problemas. A tranquilidade e o equilíbrio são os melhores conselheiros.

Foto Capa do Livro "Outros Mundos" Ana Abrão

Que pessoa seria eu se não tivesse questionado o meu próprio conceito de liberdade porque, se antes eu pensava que ser livre é poder ir onde eu quiser e fazer o que eu desejo, à hora que me for mais conveniente, agora penso que é livre aquele ultrapassa fronteiras, vence barreiras e escolhe ser feliz à sua própria maneira, sem amarras e sem receio de ser julgado pelos outros.

O projecto Outros Mundos, composto por uma exposição e um livro, surgiu naturalmente em consequência deste e de outros trabalhos de fotografia documental e as suas vivências. A exposição, financiada pela Fundação Oriente, mostra 60 fotografias de quase um metro, organizada por núcleos temáticos onde, cada um, utiliza, como linha condutora, uma característica cultural, uma tribo ou minoria étnica de uma região específica da Ásia. A mostra segue itinerante pelas galerias do país. Em breve estará patente no festival de fotografia PhotoFest, em Cantanhede.

O livro, com mesmo nome, segue juntamente com as exposições. Nele, revelo uma parte da minha vivência e do meu percurso através de 12 séries de fotografias e as suas respectivas histórias, na sua maioria, de situações inusitadas.

Desde o lançamento, o livro surpreendeu o público ao obter três prémios de reconhecidas entidades internacionais (FEP, OneEyeland e IPA Book Awards), tendo sido destacado pela Federation of European Professional Protographers como livro do ano. A imagem da capa foi seleccionada entre outras vinte mil imagens na categoria Celebration of Humanity do conhecido concurso Travel Photographer of the Year (TPOTY).

Foto Fotografia de Outros Mundos Ana Abrão Nota biográfica

Aliando a fotografia de retratos a uma grande experiência como viajante, Ana Abrão utiliza a fotografia como ferramenta, não só para dar a conhecer ao “mundo de cá” a beleza da cultura de “outros mundos”, como também para, subtilmente, colocar em pauta questões sobre direitos humanos.

Formada em Psicologia e doutorada em Psicologia/Informática, Ana Abrão reduziu o seu investimento na carreira de professora universitária, depois de onze anos a dar aulas no Algarve, para seguir o seu gosto pela Fotografia. Exerce profissionalmente a fotografia há cerca de treze anos.

A Autora luso-brasileira representa Portugal nos concursos internacionais de fotografia, tendo recebido vários prémios (21 medalhas e 61 menções honrosas). Pontualmente, participa em salões de fotografia como membro de júris nacionais e internacionais.

Tem o reconhecimento Excellence em arte fotográfica pela Photographic Society of America, além de Artist e Excellence pela associação europeia International Federation of Photographic Art. Actualmente, é a representante da Photographic Society of America, em Portugal e curadora do site de fotografia Olhares.

Foi uma das participantes do último Travel Fest, organizado pela Associação de Bloggers de Viagem Portugueses.

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