observador.ptObservador - 21 set. 00:07

Como podem pessoas de contextos díspares convergir na mesma ideia?

Como podem pessoas de contextos díspares convergir na mesma ideia?

Cada um de nós é responsável por, através das suas ações, contribuir para que cada criança tenha uma vida de oportunidades independentemente do seu contexto.

Cada pessoa carrega consigo uma história de vida única que a traz ao ponto em que se encontra hoje. Por vezes, pessoas de contextos muito diferentes partilham a mesma convicção. Este é o nosso caso.

Eu, Francisco, nasci em Lisboa e, tal como os meus pais, o meu avô e o meu bisavô, formei-me em Direito. Cresci numa família grande e durante a minha infância tive a oportunidade de experimentar atividades diferentes: futebol, rugby, ténis, guitarra, cerâmica, teatro, e até filosofia.

Até aos 12 anos, andei numa escola privada que convidava os alunos a tomarem parte nas suas decisões. Lembro-me de perceber que tinha uma infância algo despreocupada quando falava com amigos de outras escolas que diziam que odiavam a escola e eu fingia que também não gostava. Mas na realidade gostava muito, a escola era uma brincadeira no bom sentido.

Ao mesmo tempo que tinha uma experiência descontraída na escola, sabia que em casa a exigência era grande. Não me lembro dos meus pais insistirem para eu ter excelentes notas ou de se zangarem comigo por causa do meu desempenho escolar mas lembro-me de saber que era esperado que eu tivesse boas notas e que me esforçasse muito.

No 7º ano fui estudar para uma escola pública. Sabia que era uma preocupação dos meus pais que eu não ficasse fechado dentro da bolha do mundo pequeno que conhecia. Por essa razão, desde cedo fui percebendo que cresci num meio privilegiado, com muitas facilidades, não só a nível de educação, mas ao nível económico, social e político. A minha reação ao meu privilégio começou por ser uma sensação de sorte, sentia-me sortudo pela vida que tinha. Aos poucos passou a raiva e culpa e, mais tarde, com alguma maturidade, cresceu em mim uma maior gratidão e motivação para me pôr a mexer.

Já eu, Inês, cresci no Algarve e sou filha de pais adolescentes. Durante os meus primeiros anos de vida mudei muitas vezes de casa para viver com diferentes familiares. Aos 4 anos fui viver para Inglaterra, onde frequentei o ensino pré-escolar. Aos 6 anos, quando voltei para Portugal fui viver com a minha mãe e o meu padrasto e por essa idade pouco português falava. Nessa altura, a minha mãe começou a ser chamada à escola para saber das minhas dificuldades de aprendizagem.

Para além das aulas, não fazia qualquer tipo de atividades. Os meus pais não queriam que eu tivesse computador, acesso à internet, ou que ficasse na biblioteca a fazer trabalhos pois tinha de ficar em casa a cuidar do meu irmão. Foi nessa altura que fiz amizade com um colega de turma que era sempre o melhor aluno e comecei a dedicar-me aos estudos para conseguir competir com ele.

Quando chegou a altura de ir para a universidade os meus pais não me apoiaram financeiramente. Eu queria estudar Direito, mas no Algarve não existia esse curso e não tinha condições para estudar longe de casa. Apesar de tudo isto, comecei a trabalhar enquanto estudava, optei por outro curso e consegui entrar com a média mais alta. Hoje sou licenciada e pós-graduada em Sociologia.

Se o sucesso e uma vida estável e satisfatória fossem uma corrida, o nosso ponto de partida não seria o mesmo. Mas convergimos numa convicção: o contexto socio-económico de uma criança não deve ditar as oportunidades que tem ao longo da vida.

Portugal é dos principais países da OCDE em que o contexto socioeconómico de uma criança mais influencia o seu sucesso escolar. A probabilidade de reprovar é quatro vezes maior entre os alunos oriundos de contextos desfavorecidos do que entre os que provêm de contextos mais favorecidos (PISA 2015, Edulog). Só 10% dos filhos de famílias pobres chegam ao ensino superior.

Mas estas condicionantes começam ainda antes de a criança ter nascido. No nosso país, a escolaridade das mães está diretamente correlacionada com o sucesso académico dos seus filhos. A probabilidade de uma criança, cuja mãe completou até ao 9º ano, ter sucesso escolar, ou seja, ter positiva a português e matemática no 9º ano e nunca ter reprovado, é de apenas 31%. Já se a mãe tiver uma licenciatura é de 71%.

Contudo, nós acreditamos que esta realidade pode ser revertida. Há 1 ano, juntámo-nos à Teach For Portugal, uma organização sem fins lucrativos, para trabalharmos como Mentores numa escola e reduzir a desigualdade de oportunidades. Com formação e acompanhamento contínuos, nós, os mentores, trabalhamos durante 2 anos, a tempo inteiro, em escolas públicas portuguesas de contextos socioeconómicos mais vulneráveis, com alunos do 2º e 3º ciclo. Colaboramos com professores extraordinários dentro e fora da sala de aula, dentro e fora da escola. Desenvolvemos projetos na escola que promovem o envolvimento da comunidade. Temos um objetivo em mente: não deixar nenhuma criança para trás!

Todos nós temos um papel a desempenhar no que diz respeito a acabar com as desigualdades. Menos pobreza, menos desigualdade e menos instabilidade social significam menos custos corretivos como subsídios, retenção escolar, custos prisionais ou questões de saúde. Uma sociedade para todos.

Nos 3 anos no terreno, a colaboração da Teach For Portugal reduziu as negativas dos alunos no final do ano de forma consistente em mais de 30%. Estes são números impressionantes, mas o nosso objetivo não se concentra apenas nas notas dos alunos. Queremos desenvolver cidadãos com um forte sentimento de possibilidade, mentalidade de crescimento, compromisso com uma transformação contínua e excelente, com uma boa inteligência emocional e empatia. O nosso objetivo, enquanto organização, não é mudar o mundo, é criar as condições para que outros o façam.

Um dos nossos alunos do ano passado, tinha já 20 anos. Depois de várias reprovações frequentava ainda o 9º ano e, como os seus colegas de 14 anos, tinha a mentalidade de um deles. A sua história não era fácil. Imigrou para Portugal em adolescente, o único familiar que tinha cá era a irmã e nem sequer vivia com ela. A mãe, no seu país de origem, estava doente e tinha pouco onde se amparar. À medida que o fomos conhecendo, vimos que o seu objetivo era claro. Queria concluir o 9º ano de escolaridade. Contudo, o seu comportamento era explosivo, as suas notas más e a sua relação com os colegas conflituosa. Era frequentemente expulso da sala e tinha sido já suspenso. Não sabia como se conter nem como se focar. À medida que fomos trabalhando juntos, a diferença foi-se notando.

Não podemos alterar as condições socioeconómicas dos nossos alunos, mas podemos munir cada um deles com a gestão emocional, a liderança, a consciência do seu papel na sociedade e a motivação e confiança de que precisam para irem mais longe, terem mais oportunidades, quebrar ciclos de exclusão e de pobreza.

A verdade é uma: o Carlos conseguiu adquirir o auto-controlo, foco e desempenho académico necessários para concluir o 9º ano, tal como ambicionava.

A mudança depende de pessoas e uma pessoa pode ter um impacto enorme. O facto de o problema ser estrutural não significa que cada um de nós deva ficar parado à espera que a estrutura mude. O dia-a-dia impacta a estrutura. Tal como o Carlos, o nosso aluno, cada um de nós é responsável por, através das suas ações, contribuir para que cada criança tenha uma vida de oportunidades independentemente do seu contexto.

Somos todos agentes de mudança a desenvolver agentes de mudança.

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