eco.sapo.ptCarlos Marques de Almeida - 6 ago. 19:17

Foguete fálico

Foguete fálico

Face aos sinais incertos inscritos nos mapas do futuro, a Europa prepara-se para a escassez e para o frio que todas as nuvens políticas prometem. Mas em Portugal vive-se de novo a Teoria do Oásis.

Portugal já tem um homem no espaço. Os outros países mandaram macacos e cadelas. Mas Portugal começa a sua aventura espacial com um homem branco, cisgénero e heterossexual. Dez minutos de viagem vertical de um foguete fálico e nasce o primeiro astronauta português. Os portugueses percebem a importância do momento para o desenvolvimento da Nação e há mesmo quem veja o potencial de uma nova epopeia histórica idêntica à gloriosa época dos Descobrimentos. Deixem-se de ilusões. A viagem foi paga numa excursão agendada no mercado global do novo turismo espacial, não existe tecnologia portuguesa, nem engenharia portuguesa, nem investigação portuguesa. Existe a vaidade de um português de sucesso e dono dos cruzeiros fluviais no Grande Douro Internacional.

Há uma certa ironia quando o empresário ligado à indústria dos cruzeiros escolhe o espaço como cenário para a sua vaidade e para a afirmação da sua superior capacidade ao nível dos grandes bilionários internacionais. Há qualquer coisa de ostensivo e fútil numa viagem que chega ao limiar do espaço, espreita o infinito e depois deixa-se levar pela força da gravidade até cair com pompa e circunstância no deserto. É como as clássicas excursões saloias em que num domingo tórrido, vestidos com o fato de ir ver a Deus, a aldeia viajava até à praia para ver o Mar. Arregaçava-se as calças, recolhia-se a ponta dos vestidos e molhavam-se os pés. Pronto. E na história da aldeia assinalava-se o dia em que a população mergulhou na aventura do Mar.

O novo astronauta português é o mesmo empresário que acaba de recusar 40 milhões de euros do PRR para preservar o bom nome e melhor reputação dos seus negócios e empresas. Eis um empresário que nada poupa a benefício da Nação. Primeiro abre mão da prerrogativa de um financiamento caído do céu para depois colocar Portugal no limiar da era espacial em direcção ao céu. Esta atitude de não querer desiludir os portugueses nem de sacrificar Portugal é o cúmulo do capitalismo patriótico e altruísta. É como a Rainha Vitória que usava sempre as suas melhores jóias quando ia ver o povo, pois o povo nunca pode ser desiludido. A desilusão do povo provoca ódios, invejas, muitos problemas e muitas revoluções. O povo nunca deve ser ofendido.

No entanto, Portugal é hoje o lugar de um povo ofendido. É verdade que os portugueses desprezam os capitalistas e odeiam os políticos – os capitalistas pela brutalidade do lucro, os políticos pela ambição e pela proximidade ao capital. Talvez seja este o motivo pelo qual os portugueses pensam em política durante sete minutos por semana. E uma viagem ao espaço custa dez minutos. Por esta razão o País não descola, não levanta, não desenvolve, não se moderniza. Falta exigência e falta determinação onde sobra a mansidão de um Verão quente plantado à beira-mar com dinheiro obtido com um crédito ao consumo. Leva-se hoje e paga-se amanhã.

Neste Verão estagnado num País parado onde as bestas são bestas e os anjos são anjos, reina um sentimento difuso de descontentamento ou de indiferença ou de abandono. Talvez seja uma versão da euforia alimentada pelas primeiras férias em período pós-covid, ou nem tanto, mas para efeitos políticos e sociais é o restabelecimento oficial da normalidade. Este intervalo de tempo é como a viagem ao espaço, é como as jóias da Rainha Vitória, é a ilusão do regresso da ordem e da hierarquia num Mundo cada vez mais imprevisível e disfuncional.

Senão vejamos. O País arde de Norte a Sul. A falta de água seca os solos e as barragens e ameaça deixar de percorrer o circuito das torneiras. Os combustíveis atingem preços record, o gás natural torna-se um bem escasso, as taxas de juro reencontram o caminho da subida, a inflacção dispara como um foguete fálico numa ascensão difícil de controlar. A recessão espreita nas previsões oficiais. As urgências hospitalares abrem e fecham aleatoriamente em dias alternados. Na Ucrânia, com ou sem capa na Vogue, a guerra sem fim à vista continua a perturbar a normalidade da Europa. Uma Nova Rússia Imperial afirma-se como a grande perturbadora da Ordem Mundial, experimentando politicamente o velho novo fascismo pós-soviético. Fala-se de racionamento de energia na Europa. Lojas às escuras depois das dez horas da noite, aparelhos de ar-condicionado com temperaturas máximas e mínimas decretadas por decisão dos governos, cidades sem iluminação pública numa evocação do blackout de um Continente em guerra.

Face aos sinais incertos inscritos nos mapas do futuro, a Europa prepara-se para a escassez e para o frio que todas as nuvens políticas prometem. Mas em Portugal vive-se de novo a velha Teoria do Oásis. O Governo não chega sequer a ser uma hipocrisia organizada, pois satisfaz-se com o papel secundário de um espectador distante que vê ao longe uns movimentos que não percebe ou finge ignorar. Neste sentido não temos um Governo progressista, mas temos o privilégio de ter um Governo reactivo que só existe politicamente pela polémica, pela imposição da Europa, pela pressão dos factos a escorrer pelas paredes de um País ensolarado. No silêncio sobre Taiwan domina o amarelo de um paraíso triste.

Moral da história. Não há razão para acreditar que a percentagem de astronautas e de políticos míopes seja especialmente pequena em Portugal.

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