ionline.sapo.ptJosé Paulo do Carmo - 5 ago. 09:28

Nem magra nem com um quilinho a mais

Nem magra nem com um quilinho a mais

Eu considero perigoso vivermos num tempo em que as mulheres muito bonitas dentro de um certo estereótipo são consideradas “não reais” por não preencherem os padrões da mulher comum e por isso serem afastadas de certas campanhas de algumas marcas só porque não se pode cultivar o bonito e é quase proibido ter um corpo de uma determinada forma.

As pessoas têm que se habituar mais a viver com o que têm, o que pretendem atingir ou os esforços para lá chegar, do que andar permanentemente a olhar para o lado, a comentar o vizinho ou a vizinha e a invejar o que os outros mostram, até porque, pelo que já percebemos, parte do que é mostrado não é real. As redes sociais, sobretudo as que fazem da imagem o seu conteúdo principal, revelam muitas vezes um mundo imaculado, cheio de corpos aparentemente perfeitos e esculpidos pelo mais rigoroso dos escultores e quando os vemos na realidade, aparentam pouco ou nada do que por magia ali se revelava. E na realidade pouco ou nada importa. Como pouco ou nada deveria interessar achincalharmos as pessoas pelo peso que têm, a celulite ou qualquer outro motivo. Cada um deve ser incentivado a ser feliz e bem resolvido com o que tem e se não o é deve ser o próprio a procurar soluções para se aproximar do que gostaria de ser sem que o resto da sociedade tenha algo a ver com o assunto.

Ainda esta semana uma miúda no Instagram colocava uma fotografia com uns quilinhos a mais (do que os padrões de beleza habituais) e com a celulite bem visível no seu rabo. Logo lhe caíram em cima como se a própria tivesse que ter vergonha do seu próprio corpo ou pior ainda como se o resto do mundo tivesse que julgar as opções de cada um. Da mesma forma faz-me confusão a vontade que as pessoas têm em querer rebentar com o ego das outras e das primeiras coisas que lhes vem imediatamente à cabeça é sempre alguma particularidade do seu corpo. A mim não me parece absolutamente nada errado que tentemos emagrecer se achamos que estamos gordos e não ficamos bem assim, ou se achamos que somos mais saudáveis se tivermos certo tipo de preocupações.

Cada um deve seguir aquilo que acha melhor para si e ser livre de se apresentar como quer e bem lhe apetece sem ter que ter receio do jugo da sociedade. Acho maravilhoso ver quem tem confiança para mesmo fora dos padrões habituais se apresentar cheia de orgulho do que é seu. Isso deve ser incentivado mas não imposto. Nós vivemos num tempo em que temos a mania que devemos ser todos iguais. Em que não se pode ser muito bonito nem muito magro porque isso deprime os aparentemente menos “perfeitos” ou mais gordinhos ao mesmo tempo que não se pode ter uns quilos a mais ou apresentar alguma celulite ou qualquer outra coisa porque supostamente devíamos ter vergonha de nos apresentar assim em certas redes onde os filtros e o “photoshop” colocam tudo no sítio certo. E por aqui andamos, no meio de uns e de outros que muitas vezes são os mesmos, uns frustrados numa sociedade que se habituou à crítica fácil em detrimento do elogio, em que a diversidade é imposta em vez de se tornar num conceito visto com naturalidade e em que a imagem é tudo. Algumas pessoas deviam julgar menos os outros e preocuparem-se mais com eles próprios. Essas deviam tentar ser mais felizes e menos ressabiadas. Acredito que no final do dia se sentiriam mais preenchidas, independentemente do corpo.

NewsItem [
pubDate=2022-08-05 08:28:47.0
, url=https://ionline.sapo.pt/artigo/778066/nem-magra-nem-com-um-quilinho-a-mais?seccao=Opiniao_i
, host=ionline.sapo.pt
, wordCount=542
, contentCount=1
, socialActionCount=0
, slug=2022_08_05_789546344_nem-magra-nem-com-um-quilinho-a-mais
, topics=[opinião]
, sections=[opiniao]
, score=0.000000]