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Cancro do Pulmão: um problema de Saúde Pública que deve ser abordado de forma integrada

Cancro do Pulmão: um problema de Saúde Pública que deve ser abordado de forma integrada

A causa mais frequente e evitável de cancro do pulmão é o tabagismo. Cerca de 17% da população portuguesa era fumadora em 2019 (aproximadamente 1.700.000 portugueses em risco muito aumentado de patologia respiratória e cardiovascular).

O cancro do pulmão, conforme sabemos, tem uma elevada mortalidade, se não mesmo a maior de entre todos os tumores malignos. Em 2020, Portugal contabilizou 5415 novos casos (quarta neoplasia maligna mais frequente), com uma sobrevida global de cerca de 15% aos cinco anos.

Os registos portugueses mostram que aproximadamente cerca de 70% dos doentes com diagnóstico de cancro do pulmão se apresentam em fase avançada no momento do tratamento. Devemos olhar para esta doença como um verdadeiro problema de Saúde Pública e abordá-lo de uma forma integrada, desde a prevenção, até aos cuidados de fim de vida, centrando toda a atividade no doente.

É certo que tem havido uma diminuição do consumo do tabaco ao longo dos últimos anos, no entanto, o trabalho na prevenção deverá ser continuado e intensificado com: ações de sensibilização (com início nas escolas), a promoção de medidas de contenção dos fumadores (por exemplo: proibir o fumo em qualquer área dos recintos hospitalares) e o aumento do acesso dos fumadores a consultas e programas de desabituação tabágica. Outras medidas de âmbito legislativo de forma a diminuir o consumo do tabaco deverão também ser implementadas.

O diagnóstico precoce é essencial, uma vez que as sobrevidas calculadas para o cancro do pulmão nas suas fases mais iniciais rondam os 90% aos cinco anos. É importante realçar que fumadores, doentes com patologia respiratória crónica e qualquer pessoa que note alteração no seu padrão de tosse, expetoração raiada de sangue, cansaço aumentado, mal-estar generalizado, perda de peso ou qualquer outro sinal ou sintoma, por muito leve que seja, deve recorrer ao seu médico assistente e fornecer estes elementos como fatores de alerta. Certamente, terão a atenção merecida e serão realizados os exames adequados ao estudo da sua situação clínica.

Neste contexto, é essencial que implementem programas de deteção precoce em consultas de desabituação tabágica. Faz sentido encontrar clusters e nichos populacionais em determinadas áreas demográficas e começar, de forma lenta, a avançar com trabalhos de rastreio no campo, implementando novas soluções. Creio que isto teria impacto na identificação destes doentes na fase inicial da doença.

À medida que o tempo vai passando a doença evolui, por isso, temos que ser rápidos a fazer o diagnóstico e estadiamento. Este segundo significa perceber em que fase está a doença e se esta está localizada ou avançada, sendo preciso realizar vários exames complementares de diagnóstico para podermos chegar ao estadio correto da doença num doente em particular. E isso terá de ser célere.

Existem vários trabalhos publicados sobre isto. Alguns referem que, em duas semanas, 25% dos doentes aumentam de um grau, ou seja, passam do estadio I para o estadio II. Na Península Ibérica, temos tempos de diagnóstico e de estadiamento que podem chegar aos três meses, o que tem a ver com a dificuldade de acesso aos vários momentos dos exames por razões logísticas, como a falta de equipamento e recursos humanos dedicados.

Isso faz com que tudo se vá atrasando na cadeia do diagnóstico e do estadiamento e, quando é oferecida uma alternativa terapêutica, a doença já evoluiu. Isto é algo relativamente ao qual os vários intervenientes no processo tomaram consciência e estão, em vários hospitais do país, a ser criados protocolos rápidos de diagnóstico e estadiamento do cancro do pulmão. Estamos a trabalhar ativamente para que estes tempos sejam francamente diminuídos.

Através de um diagnóstico e estadio precoces, as soluções terapêuticas são locais, sendo que a cirurgia num nódulo pequeno e bem localizado é, hoje em dia, feita por todos os centros de cirurgia torácica por métodos minimamente invasivos, tendo uma recuperação muito rápida e uma probabilidade de sobrevida muito boa, aos cinco/dez anos de 90%.

Se passar muito tempo ou estas doenças forem detetadas tardiamente, os tratamentos locais deixam de ser opção ou, quando são opção, fazem apenas parte de um tratamento multimodal, acrescentado à radioterapia, quimioterapia ou à própria imunoterapia.

Portanto, terapias sistémicas, claramente, são muito dispendiosas e com efeitos secundários. De uma forma geral, por um lado, os doentes têm pior qualidade de vida e, por outro, sai muito mais caro, face ao que acontece com os doentes que são diagnosticados precocemente e operados na fase inicial da doença.

De uma forma precoce e integrada, um doente com cancro de pulmão precisa de um apoio multidisciplinar que não passa apenas pelo tratamento da sua neoplasia, mas é integrando num conjunto mais amplo e global, que é a pessoa e o seu ambiente. Defendemos o apoio social e psicológico para todos (em fase precoce ou avançada da doença) para que sejam acolhidos numa rede de suporte, promovendo a jornada da pessoa doente, tornando-a mais fácil e integrada.

A neoplasia maligna primária do pulmão é uma doença complexa cuja abordagem mostra o paradigma da multidisciplinaridade, integrando todas as áreas da Saúde em todos os momentos do processo. Podemos fazer a diferença se estabelecermos um diálogo sério e competente, integrando todos os intervenientes e centrando a jornada no doente.

O autor escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990

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