observador.ptObservador - 5 ago. 23:42

O longo deserto de Le Clézio

O longo deserto de Le Clézio

É preciso ser sonhador e lírico para continuar. Os alunos valem a pena. Os alunos ainda valem a pena. E enquanto houver alunos, continuarei.

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Na vida de um professor não há muito tempo de convívio entre colegas. Os intervalos são curtos. Como os almoços, onde, por vezes, se engolem sandes ou refeições rápidas. E quando se come não se fala. Vinte minutos, que é a pausa maior que se faz, entre aulas, dão para referir uma atitude menos boa de um aluno, um elogio, um relatório que falta entregar, um problema com a senha do e-mail, uma atividade que correu bem, uma graça em contexto sala de aula. Bebe-se um café, procura- se um manual, encontra-se um Diretor de Turma. Pode ainda haver alguém à nossa procura porque um Encarregado de Educação ligou para a escola e tem um recado para o professor tal, diretor da turma tal, a justificar que o aluno tal, faltou ao teste tal porque acordou indisposto e foi ao hospital. Na aula seguinte, trará o atestado médico. Dependendo das escolas, pode haver um polícia da CPCJ à nossa espera no P.B.X. para tratar um processo de um aluno. Uma representante de um tribunal de menores que vem à escola saber da avaliação e comportamento de um jovem problemático.

Vinte minutos que deveriam ser para relaxar. Para rir. Discutir um projeto. Pedir uma opinião. Aperfeiçoar o conhecimento de um assunto com um colega de outra área. O conhecimento não deveria ser estanque nem segmentado. Os professores deveriam ser a equipa dos vários projetos que propõem aos alunos.

Isto para dizer que gosto de certas reuniões. Não aquelas em que se preenchem uns tantos planos, se definem umas quantas estratégias, se traçam umas quantas metas, se apresentam umas tantas propostas de superação de dificuldades.

Gosto de reuniões onde se discutem formas de Ensinar adaptadas aos diferentes alunos, se criam projetos conjuntos que englobem as várias áreas do saber. Até que o sonho se me acabe. Até que a vida me desvie desse deserto. Até conseguir ver luz pelo fundo da agulha, por onde deveria passar a linha. Até que um dia tenha três contratos anuais seguidos, não obstante o tempo de serviço que se tenha. Como um camelo que tem sede.

É caso para dizer que é mais fácil um camelo entrar no fundo de uma agulha, do que um contratado entrar no quadro. Sem que, para isso, tenha de passar 40 dias no deserto. Os alunos, o único Oásis.

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