visao.sapo.ptapfigueiredo - 5 ago. 16:29

Visão | Contra Golias, Vandana vai

Visão | Contra Golias, Vandana vai

Segundo a lenda, Golias é vencido. Na minha leitura, não é vencido por David revelar forças sobrenaturais, mas por não deixar apequenar-se diante do tamanho do rival. Determinado a defender interesses legítimos, levou Golias ao chão com uma pedrada certeira. Vandana Shiva é claramente uma atualização de David, mas também de Shakti, apelando à determinação de cada um de nós

O filme “The seeds of Vandana Shiva”, ainda sem título oficial em português, foi lançado online numa ação de pré-visionamento global para subscritores e doadores, e em breve entrará na rota dos festivais de cinema. Fala do percurso da pioneira ambientalista e precursora do movimento mundial de proteção de sementes, a indiana Vandana Shiva. E mostra-nos a sua faceta anti-capitalista e anti-imperialista no combate a gigantes do agro-negócio e da monocultura intensiva, como seja a multinacional Monsanto. No filme percebemos como a sua estratégia de intervenção e de combate é persuasiva, persistente, lógica e altamente necessária para a sobrevivência de todos no planeta. Lutando contra Golias há várias décadas, esta mulher tem recebido reconhecimento de norte a sul do globo, embora entre ativistas, jornalistas e ambientalistas ainda haja quem não a conheça.  

Vandana Shiva nasceu em 1952 no sopé dos Himalaias, na Índia, e cedo começou a sua descoberta e aprendizagem sobre a importância de plantas, árvores, águas e sementes enquanto acompanhava o pai nos trabalhos de vigilância da floresta. Ao contrário do que era comum na cultura indiana da época, decidiu ser cientista. Formou-se em Física Nuclear na Universidade do Punjab e mais tarde doutorou-se em Filosofia da Teoria Quântica no Canadá. Tanto discursa nas Nações Unidas ou discute com altas figuras de Estado como reúne com aldeões e camponesas para a criação de estratégias de acesso democrático à terra, defesa de Direitos e aumento da visibilidade dos mesmos.

Com a chegada da Green Revolution – que introduziu na Índia sementes modificadas e modos de produção nefastos que causaram o endividamento e o suicídio de inúmeros agricultores – Vandana Shiva levou a sua experiência e conhecimento científicos às lutas de aldeões cujos meios de subsistência foram esmagados pelo capitalismo corporativo. E teve o apoio de milhares de agricultores que, em manifestação pública, fizeram frente à entrada de uma nova forma de colonização, a das sementes. Com o bonito nome de Revolução Verde (Green Revolution), esta não passou de uma estratégia económico-política que ameaçou gravemente a biodiversidade, levou a agricultura de pequena escala ao descalabro, desvitalizou a terra, e continua a disseminar-se por outros pontos do globo, junto de camponeses de países africanos, através de campanhas sedutoras onde a engenharia genética procura aniquilar o conhecimento ancestral da relação direta das pessoas com a terra.

Shiva tornou-se uma opositora aguerrida às corporações cujo interesse em privatizar e lucrar estão a produzir mudanças dramáticas no clima e a destruir o planeta a olhos vistos nas quatro direções. Ninguém parece escapar às garras de Golias, mas a cientista tem sabido ser uma aguçada pedra no sapato.

“Cada problema ecológico resulta da ilusão de acharmos que estamos separados da natureza.”

Segundo a Bíblia, Golias é vencido. Não por David afinal revelar poderes sobrenaturais no combate a Golias, mas por não deixar-se apequenar diante do tamanho e da aparente força do rival. Com uma pedrada certeira, levou Golias ao chão. Bastou um único David, determinado a defender os interesses legítimos de um povo.Vandana Shiva é claramente uma atualização de David, mas também de Shakti, apelando à determinação de cada um de nós, desde logo começando por reconhecer que pessoas e natureza são um só. A separação entre ambos é uma falácia que faz o ser humano achar-se superior a outros animais, mas esta assunção não passa de soberba e ilusão. Daí ser tão difícil percebermos que não temos o direito de explorar, desprezar, domesticar, dominar, poluir, consumir e deitar fora só porque podemos fazê-lo. A responsabilização deve ser pedida às multinacionais primeiramente, mas sem o consumidor individual estas não continuariam a crescer exponencialmente e a levar o planeta à destruição.

A variedade de sementes e de alimentos parece ser algo que conquistámos ao longo dos anos. Parece que temos muito por onde escolher quando vamos às compras, mas este é outro dos logros no qual escorregámos através das subtis campanhas das indústrias. O que tem acontecido é exatamente o oposto. Ainda que nos híper ou supermercados possamos ter a sensação de haver muita variedade de frutas e verduras, há pelo menos vinte anos que andamos a comer a mesma coisa. Quantas variedades de abóbora encontra? Três, com sorte. Quantas de espargos? Quantas de cenoura? Os Estados Unidos perderam mais de 90% da variedade de sementes de vegetais ao longo do séc. XX. E será que no restante mundo ocidental os dados serão diferentes? Acredito que não, devido à hegemonia americana. Estamos reduzidos à monocultura, mas dantes não era assim. Das mais de 40 variedades de espargos que existiam, só resta uma. Das mais de 150 variedades de couve-flor só restam nove. De quase 300 variedades de beterraba, sobreviveram dezassete. Mais de 90% da variedade de cenouras desapareceu. A fatalidade dos números da monocultura – que tem um impacto tremendo na saúde física e mental das pessoas – continua a agravar-se a cada ano. Destruindo a biodiversidade, destruindo o ambiente e a Terra, o ser humano entrou em auto-destruição.

Aprender a ler os rótulos das embalagens e descartar organismos geneticamente modificados, comprar local, comprar orgânico e de comércio justo, envolver-se na defesa de locais públicos livres de químicos, criar um banco de sementes nativas. Estas são algumas das sugestões de Vandana Shiva para nos mobilizarmos ativamente.

Sejamos certeiros apontando as nossas pedras à cabeça dos Golias. Shiva convida ao envolvimento de cada pessoa na mudança que cada um é capaz de fazer, sozinho ou organizado: pelos direitos da Terra, pela sobrevivência digna de todas as espécies e defesa da biodiversidade, contra marcas hegemónicas, sementes geneticamente modificadas, agricultura massificada e contra a razia feita pela indústria ao conhecimento ancestral, e apela à consciencialização do nosso papel na extinção das espécies e à nossa capacidade de fazermos mudanças reais. Se Shiva sozinha incomoda muito, juntos incomodaremos muito mais.  

Acompanhe o filme “The seeds of Vandana Shiva”. Caso já não consiga vê-lo online, espreite o trailer e conheça um pouco da mais poderosa ativista do mundo aqui.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

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