jornaleconomico.ptFilipe Alves - 5 ago. 00:18

A degradação dos serviços públicos em Portugal

A degradação dos serviços públicos em Portugal

O caos no sistema de Saúde é apenas um exemplo visível daquilo que está a acontecer nos serviços públicos como um todo.

Uma pessoa que me é próxima não conseguiu seguir o conselho do Presidente da República e teve o azar de ficar doente em pleno mês de agosto. Contrariada e meio a medo, foi obrigada a recorrer às urgências de um grande hospital que até recentemente funcionava em regime de parceria público-privada (PPP), sendo então considerado exemplar em termos de qualidade dos serviços prestados.

Porém, esse tempo já lá vai. Essa pessoa entrou no hospital por volta das sete da tarde, tendo-lhe sido atribuída uma pulseira amarela, que no sistema de triagem de Manchester significa um caso urgente que deveria ser visto por um profissional de saúde no prazo de uma hora. Horrorizada, a pessoa em questão apercebeu-se que na mesma sala estavam dezenas de pessoas com pulseiras amarelas. Ao seu lado, um casal com cerca de 80 anos, ele também com pulseira amarela, aguardava para ser atendido desde as dez da manhã.

Para agravar a situação, não existiam macas suficientes e vários idosos, doentes oncológicos e pessoas com dificuldades de locomoção esperavam, sentadas no chão, que os poucos médicos de serviço as pudessem assistir. Felizmente, ao contrário de outras pessoas que nesse dia tiveram de esperar mais de 12 horas para ser atendidas, a protagonista desta história ‘apenas’ esperou oito. “Podia ser pior”, desabafou quando finalmente voltou a casa, já de madrugada.

Esta crença de que “foi mau mas podia ser pior” é o que leva milhões de portugueses a conformarem-se com o estado lamentável em que se encontra o Serviço Nacional de Saúde. Quem tem recursos vai ao privado. Os outros, os que não conseguem pagar um seguro, não têm outro remédio senão conformar-se com longas horas de espera nas urgências e ficar meses ou mesmo anos à espera de consultas e cirurgias, por vezes correndo risco de morrer antes de ter acesso ao tratamento.

Mas o caos no sistema de Saúde é apenas um exemplo daquilo que está a acontecer nos serviços públicos como um todo. Vemos isso no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), nos tribunais, nas repartições de finanças e nas escolas, por exemplo. Faltam recursos e em todo o lado reinam o descontentamento e a desmotivação.

Tudo indica que nos próximos meses e anos iremos assistir a uma degradação progressiva dos serviços públicos em várias áreas, com milhares de professores, funcionários do fisco (ver entrevista nas páginas 4 e 5) e outros profissionais a atingirem a idade da reforma sem que sejam substituídos. E os que ficam mostram cada vez menos motivação, o que só pode dar fraco resultado. Façamos o exercício de tentar recordar a última vez que conversámos com um funcionário do Estado que revelasse grande entusiasmo e motivação com o seu trabalho. Pois é, caro leitor, não é fácil. E isto deveria servir de alerta para quem nos governa, porque está demonstrado que o caminho que tem vindo a ser seguido na última década não conduzirá a um bom desfecho.

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