sol.sapo.ptLuís Paulino Pereira - 5 ago. 00:00

Vamos sempre falar de ti!

Vamos sempre falar de ti!

Naquele tempo, só era médico quem tivesse vocação para isso. Para o médico, o doente era tudo e tudo se fazia pelo doente. Hoje, o panorama é bem diferente. A começar pela entrada em Medicina, que obriga a médias elevadíssimas, como se os melhores alunos viessem a ser os melhores médicos!

No concelho de Alenquer, junto à Serra de Montejunto, existe uma pequena aldeia com pouco mais de mil habitantes, de nome Cabanas do Chão. Gente simples e pacata, muitos deles primos e primas, todos se conhecem e se respeitam uns aos outros.

Com uma capela dedicada a S. Lourenço, esta terra é conhecida também pela Sociedade Musical e Recreativa de Cabanas do Chão, que se ocupa da área cultural.

No plano gastronómico, não há ninguém que não conheça o Pátio dos Anselmos, restaurante aberto todo o ano, que iniciou a sua atividade em 1994, conhecido pelo delicioso frango no churrasco. O proprietário, Joaquim Anselmo (mais conhecido pelo Costinha), lá está para nos receber condignamente.

A padaria da D. Chica é uma paragem obrigatória. Aí se junta muita gente à espera da última fornada, para levar para casa o pão quente, cozido em forno de lenha, de sabor inconfundível.

Em termos de saúde, a situação não é famosa. A unidade mais próxima fica na Abrigada, a cerca de dois quilómetros, e a maioria dos residentes não tem médico de família. Para se arranjar uma consulta de urgência é necessário ir de madrugada, sendo o atendimento feito por um clínico tarefeiro, à semelhança do que, tristemente, vai acontecendo por esse país fora e que ninguém consegue resolver.

No alto de um monte, virado para a Serra de Montejunto, fica uma moradia com um painel de azulejos à entrada onde se pode ler: «Ao avô Fernando. Vamos sempre falar de ti!». A vista é magnífica e repousante. Com a serra em pano de fundo, avista-se ao longe a aldeia e as povoações vizinhas – e tudo em redor são espaços verdes e prados verdejantes, com cavalos a correr e um ou outro rebanho, num cenário de beleza e magia.

O chilrear dos passarinhos saúda-nos à chegada, e os esquilos, que correm por toda a parte, convidam-nos para mais um dia em contacto com a natureza. Esta casa era do Dr. Fernando Gomes Barbosa, médico com raízes na aldeia que tanto amava, onde fez clínica, serviu muita gente e passou longas temporadas. Profissional de outros tempos, homem discreto mas sempre atento, muito dedicado aos doentes e à profissão, é ainda recordado por muitos naquela aldeia, que louvam o seu trabalho e sentido de amor ao próximo.

Estou a falar do meu sogro – a quem, com este artigo, presto a minha homenagem.

O meu filho, em criança, passava férias com os avós e ainda se lembra de algumas pessoas que nesta casa procuravam o avô Fernando em situação de aflição, e que ele nunca se negava a atender.

Há poucos dias, em conversa com o Sr. Joaquim Anselmo, este falava-me do Dr. Barbosa, que bem conheceu, citando-me muitos casos de pessoas que ele tinha acompanhado na aldeia: «Esta terra muito lhe deve e as pessoas têm consciência disso».

De facto, o Dr. Fernando Barbosa foi um autêntico médico de família, no verdadeiro sentido da palavra, muito antes da criação da carreira de Medicina Familiar.

Por isso, temos hoje muitos licenciados – mas médicos de bata branca, poucos. Depois, as afirmações de alguns, revelando publicamente estarem desiludidos e arrependidos com a escolha que fizeram, são confrangedoras. Que é isto senão falta de vocação? E apesar de tantos rigores na escolha dos candidatos, faltam médicos nos locais onde são precisos. Basta ler as notícias e ver os telejornais para percebermos que algo está errado. E não nos esqueçamos de que muitas vagas postas a concurso para a especialidade ficam por preencher, mesmo nas grandes cidades. Os nossos governantes falam num problema estrutural que afasta os profissionais do SNS e eu pergunto: de que estão à espera para o resolver?

Interrogo-me com alguma frequência como reagiriam os médicos do tempo do meu sogro se vissem como está hoje a Medicina e como se encontra presentemente o SNS!

A homenagem sentida que lhe prestamos, expressa naqueles azulejos, para lá da saudade com que o recordamos, pode também corresponder à gratidão dos habitantes da aldeia, a quem ele serviu com carinho e espírito de missão.

A qualquer jovem médico que esteja agora a dar os primeiros passos na profissão, independentemente da carreira que escolheu, quero deixar uma mensagem:

«Se conseguires fazer da tua vida clínica uma missão de serviço aos outros, e se vires nos doentes, em vez de números, seres humanos que precisam da tua ajuda, tal como fez o ‘avô Fernando’, podes ter a certeza de que ‘VAMOS SEMPRE FALAR DE TI’».

(À memória do Dr. Fernando Gomes Barbosa)

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