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Visão | Micróbios e o cancro: uma relação com história

Visão | Micróbios e o cancro: uma relação com história

A opinião de Sérgio Dias, investigador principal do Instituto de Medicina Molecular, na nova coluna sobre cancro: "Foi possível perceber que certos cancros, o cancro da mama por exemplo, têm maior diversidade de microorganismos que outros como o cancro do pulmão"

O Cinturão de Rochas Verdes Nuvvuagittuq é uma sequência de rochas enriquecidas em elementos químicos pesados (como ferro e magnésio) e rochas sedimentares associadas, localizado na costa leste da Baía de Hudson, 40 Km ao sudeste de Inukjuak, no Quebeque. Este local tem despertado interesse por parte de geólogos e biólogos nos últimos anos, por se acreditar que nele se encontram algumas das rochas mais antigas da Terra, com cerca de 4000 milhões de anos. Foi neste local que em 2017 um grupo de cientistas britânicos, noruegueses, americanos e canadianos encontrou – de forma engenhosa – evidência para a presença de bactérias de tipo filamentoso, com capacidade de processar ferro, em locais correspondentes a fontes hidrotermais. Os cálculos, publicados na prestigiada revista Nature nesse ano, permitiram determinar a idade das bactérias em aproximadamente 3770 a 4280 milhões de anos, confirmando a sua antiguidade e sugerindo que tais fontes hidrotermais possam ter sido os locais de origem da Vida na Terra. 

Sabemos que as bactérias são das formas de vida mais antigas da Terra, colonizando e habitando todos os ecossistemas conhecidos. Relevante para o contexto da Saúde Humana, e do cancro em particular, também nós somos “colonizados” por um número enorme de bactérias e outros microorganismos. Cerca de 1000 biliões de microorganismos habitam o nosso corpo e o seu papel na regulação de processos normais e também patológicos (como o cancro) tem sido amplamente estudado.


O contexto, molecular e celular de cada cancro, bem como a identificação da microbiota, é determinante para perceber se a função dos microorganismos é globalmente benéfica ou prejudicial para a iniciação e o posterior tratamento de um determinado cancro

Vários estudos demonstraram que, dentro do vasto grupo de microorganismos que nos colonizam, alguns podem exercer efeitos protetivos ou deletérios para o desenvolvimento do cancro, a sua progressão e a resposta à terapia. Quando falamos de “microbiota” referimo-nos aos microorganismos residentes no sistema gastro-intestinal, cuja função vai para além da regulação da digestão, incluindo funções cognitivas e imunitárias, mas também aqueles que colonizam e habitam diferentes orgãos e tecidos, e até mesmo tumores. A acção dos microorganismos residentes no intestino, bem como aqueles que se encontram noutros orgãos pode, na verdade, favorecer o aparecimento e a progressão do cancro.

No que concerne as bactérias presentes no intestino, identificadas há várias décadas, a sua ação na regulação da resposta imunitária do organismo é determinante para o aparecimento de cancros: uma alteração do tipo ou da abundância de certas espécies de bactérias no intestino pode resultar num estado de imunossupressão (mesmo que temporário), que favorece o aparecimento e a progressão tumorais. Por outro lado, foi também demonstrado que certos metabolitos, resultantes da atividade metabólica das bactérias, podem promover a multiplicação das células tumorais, favorecer a progressão do cancro, e mesmo levar à resistência a diferentes terapias.

Microorganismos presentes em orgãos fora do sistema gastro intestinal, e em diferentes tipos de cancro, foram identificados muito mais recentemente. No caso do cancro, foi possível perceber que certos cancros, o cancro da mama por exemplo, têm maior diversidade de microorganismos que outros como o cancro do pulmão. A verdadeira função e importância dos microorganismos no contexto tumoral é ainda bastante desconhecido, embora tenha recebido muita atenção (recente) por parte da comunidade científica. Foi possível perceber, por exemplo, que a presença de certos microorganismos (bactérias ou vírus) pode favorecer a iniciação tumoral através de ação directa sobre as células tumorais e através da manipulação do sistema imunitário. Algumas bactérias podem, por exemplo, induzir danos no DNA de células normais levando à ativação de programas moleculares que favorecem a divisão celular e a formação de um cancro. Por outro lado, como no caso do sistema gastro-intestinal, a produção de metabolitos resultantes da atividade metabólica de bactérias residentes em tumores, favorece a expansão de células tumorais. A microbiota de um tecido pode ainda resultar na criação de um ambiente pró-inflamatório que favorece o aparecimento de lesões pré-malignas e aumenta a probabilidade de desenvolvimento de um cancro.

É, no entanto, importante realçar que a presença de certas bactérias num cancro pode ser benéfica, ao promover uma resposta imunitária mais eficaz e, assim, melhorar a eficácia da imunoterapia. O contexto, molecular e celular de cada cancro, bem como a identificação da microbiota, é determinante para perceber se a função dos microorganismos é globalmente benéfica ou prejudicial para a iniciação e o posterior tratamento de um determinado cancro.

A caracterização (deteção e quantificação) de microorganismos no sistema gastro-intestinal é feita de forma não invasiva, através da recolha de uma pequena amostra de fezes e posterior análise da presença de ácidos nucleicos (DNA) bacteriano, por exemplo. No caso de tecidos, ou de tumores, o procedimento envolve necessariamente a obtenção de uma biópsia e a subsequente deteção de diferentes tipos de bactérias (mais frequentes), mas também de vírus e fungos.

A análise do microbioma de cada paciente, quer o microbioma intestinal quer o tumoral, fornece informação sobre o seu estado nutricional, imunitário e metabólico, e é hoje em dia visto como uma análise e um nível de informação relevante para a escolha de terapias personalizadas e tendencialmente menos tóxicas, mas mais eficazes. Por outro lado, a manipulação do microbioma através de transplantes fecais, de administração de antibióticos, da dieta, entre outras abordagens, começa a ser vista como uma nova ferramenta para melhorar a prevenção e o tratamento de diferentes tipos de cancro, sempre numa perspetiva integrativa com outras abordagens terapêuticas.  

Investigação recente revelou que as bactérias terão aparecido há muitos milhões de anos na Terra, mas também demonstrou que a sua interação com os seres humanos é determinante para o bom funcionamento do nosso organismo e também em situações patológicas como é o caso do cancro.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

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