24.sapo.ptManuel Cardoso - 3 ago. 15:08

A política externa desnorte-americana

A política externa desnorte-americana

Visitei Washington D.C. nos últimos dias, onde fiquei num hotel perto da Casa Branca. Enquanto eu refletia sobre se devia ou não participar numa free walking tour para ...

Visitei Washington D.C. nos últimos dias, onde fiquei num hotel perto da Casa Branca. Enquanto eu refletia sobre se devia ou não participar numa free walking tour para conhecer a cidade, Joe Biden tomava uma decisão ligeiramente mais complexa: largar um drone em cima do líder da Al-Qaeda. Um ano depois da queda de Cabul - pináculo da desastrosa política externa dos americanos naquela região - Biden deu o corpo às balas para se posicionar como presidente forte que não vira as costas ao combate ao terrorismo. O corpo de outra pessoa, claro. Havendo eleições intercalares em breve, há que mostrar que se sabe fazer peito. Não é política externa, é política do esterno.

Aproximam-se as midterms e os números não mentem: a inflação é alta e a aprovação de Biden é baixa. Para não sofrer uma pesada derrota, os Democratas estão a comportar-se como eu a jogar Street Fighter: carregam em todos os botões à espera de um milagre. Biden é visto como um presidente fraco? Vamos lá matar um jihadista, que a gente não se curva perante o radicalismo do Médio Oriente. A gasolina está muito cara? Vamos lá beijar os pés ao príncipe da coroa saudita, que a gente se for preciso curva-se perante o radicalismo do Médio Oriente. E o Khashoggi? Não tem mal, o gajo era um bocado chato. Violações dos mais básicos direitos humanos? Vá, vá. Simplesmente mantenham os preços do petróleo baixos e de resto façam o que a(sharia)em melhor.

Paralelamente, os Democratas premiram dois botões ao mesmo tempo no que toca à sua relação com a China. Por um lado, Nancy Pelosi, líder do Congresso americano, aterrou em Taiwan após o voo mais acompanhado pela Internet desde, sei lá, aquele que supostamente transportava Edinson Cavani para o Estádio da Luz. Por outro lado, Joe Biden havia considerado essa visita uma “má ideia”. Calculo que Biden já tenha ligado a Pelosi a dizer “Quantas vezes já te disse para não provocares Xi Jingping? Mas é o quê, estou a falar chinês?!”. Juntando isto às tensões internas entre centristas e progressistas, o partido que não tentou organizar um golpe de estado há menos de um ano está mais dividido do que o partido que tentou organizar um golpe de estado há menos de um ano.

Entretanto, voltei para Portugal. Espero que Augusto Santos Silva não copie a sua congénere americana, visitando Taiwan. Não nos dá jeito nenhum armar barraco com a China, que tem uma boa parte da EDP. Especialmente agora, que andamos às turras com a Endesa. Toda a gente sabe que os políticos portugueses só devem ir a territórios controlados por partidos quando é para ir buscar malas de dinheiro a Macau. Quanto à energética espanhola, o primeiro-ministro fez o que qualquer português faz quando olha para a conta da luz, que é dizer “estes gajos andam-me aqui a gamar”. Quem se trama é o Galamba, que vai passar Agosto a mergulhar numa piscina de facturas. Que bom é estar de volta. A política americana oferece mais entretenimento, mas sabe bem regressar a um país que é gerido como uma mercearia.

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