visao.sapo.ptClara Cardoso - 3 ago. 10:18

Visão | Um abismo chamado fascínio político

Visão | Um abismo chamado fascínio político

Desde a segunda metade do séc. XX que as igrejas evangélicas do Brasil têm vindo a cair em enormíssimos erros estratégicos, os quais provocaram os efeitos nefastos que estão à vista

Até aos anos sessenta o evangélico brasileiro tipo era uma pessoa simples, séria, honrada, bom trabalhador, e integrava uma família estruturada. Honrava a Bíblia – normalmente levava sempre consigo o seu exemplar pessoal para a igreja – e escrutinava os líderes espirituais da sua comunidade de fé. Demonstrava temor a Deus (não medo, mas respeito, reverência) e preocupava-se em dar bom testemunho dentro e fora da sua igreja. Era conservador nos costumes mas íntegro na sua atitude e palavra. Ter diante de si um “crente” como candidato a emprego era então uma garantia de conduta honesta para qualquer empregador, assim como de lealdade e seriedade.

Porém, a partir dessa altura tudo começou a mudar, essencialmente devido a três razões. Contamos abordar a primeira neste texto e as duas seguintes nas próximas duas semanas.

Tudo terá começado com a progressiva tomada de consciência, por parte da classe política, da real influência da massa de eleitores integrados em igrejas evangélicas por todo o país, desde os mais pequenos municípios às grandes metrópoles como São Paulo ou o Rio. Tal circunstância levou a que as estratégias eleitorais passassem por acções de sedução das respectivas lideranças.

Assim, as prefeituras e as câmaras municipais começaram a atribuir distinções, medalhas, louvores e títulos honoríficos aos pastores das maiores igrejas da sua região, de modo a que viessem a contar com algum retorno em períodos eleitorais, seja por apoio explícito dos mesmos às suas candidaturas, seja por convencê-los a integrar listas de candidatos do seu partido a lugares na vereação, e nas autarquias em geral. Como a coisa funcionou, posteriormente os pastores começaram a fazer-se candidatar a eleições parlamentares, tanto para deputados estaduais como federais e para o senado da república.

Entretanto desenvolveu-se a cultura do “curral eleitoral”, ou seja, a prática de arregimentar dos fiéis para votar neste ou naquele candidato indicado pelo pastor da igreja, muitas vezes dando o púlpito a tais candidatos nos cultos da igreja, numa total promiscuidade entre religião e política, em contramão com os fundamentos do estado laico.

As reuniões políticas de candidatos com líderes religiosos tornaram-se correntes como forma de estratégia eleitoral e cálculo político, mas sobretudo como um modo de arregimentar os pastores das igrejas locais devido à sua influência nas comunidades de fé, com base em promessas de campanha com vista a benefícios financeiros para as igrejas, e também tendo em conta a criação ou salvaguarda de legislação que protegesse os princípios da sua ética religiosa.

Assim, temos hoje uma “bancada da Bíblia”, esmagadoramente constituída por pastores das grandes igrejas do país e que é, provável e lamentavelmente a mais corrupta do parlamento brasileiro, no que ombreia com as dos famosos interesses económicos “do boi” (agropecuária, agrotóxicos) e “da bala” (fabrico e comércio de armas).

Assim, os ministros do Evangelho venderam-se por um prato de lentilhas, à semelhança do Esaú bíblico. Renderam-se à sedução da fama, ao cheiro do poder, aos projectos pessoais e à patética defesa dos interesses específicos de grupo. Alguns dos políticos evangélicos revelam-se hoje como os piores de toda a classe política brasileira, corruptos, aproveitadores, sem carácter, vaidosos, ambiciosos e populistas.

Boa parte dos políticos evangélicos deixaram-se contaminar pelo pior da baixa política em vez de fazerem a diferença pela positiva. De todo o modo afigura-se completamente inconcebível que um pastor de almas, um líder religioso que mantém responsabilidades pastorais numa comunidade de fé se envolva em combates eleitorais, quando sabe que com essa acção irá contribuir fatalmente para dividir o seu povo, que terá diferentes sensibilidades e simpatias relativamente ao espectro político. As pessoas não são gado, não são massa de manobra. Têm cabeça e devem pensar por elas próprias fazendo jus ao exercício dos direitos de cidadania.

Se tais líderes religiosos olhassem por um momento para o exemplo de Cristo, a quem dizem servir, veriam que além de ter separado as águas entre Deus e César, nunca revelou qualquer interesse pessoal em ocupar cargos de poder político ou mesmo religioso, e muito menos lutar por eles, nem estimulou os seus discípulos a fazê-lo. A razão é simples, é que o reino que Jesus Cristo veio estabelecer não é “deste mundo”: “O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos, para que eu não fosse entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui” (João 18:36).

Mas há outras razões que levaram a este estado de coisas. Delas falaremos nas próximas semanas.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

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