observador.ptObservador - 4 ago. 00:19

O discurso identitário e a falta de Freud

O discurso identitário e a falta de Freud

É apenas a liberdade que nos permite simultaneamente empatizar uns com os outros e guardarmos para com eles uma indiferença positiva que é uma forma de reconhecer a sua autonomia.

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A propósito de um artigo de Pacheco Pereira e outro de Ricardo Araújo Pereira, em torno da chamada “linguagem inclusiva” e do glossário LGBTetc., houve um pequeno caudal de prosa abespinhada que se publicou por aí, nomeadamente no Público, que cada vez mais toma para si a missão de educar os verdadeiros “portugueses de bem” nas delícias do delírio contemporâneo. Essa prosa não era muito importante. Na verdade, era insignificante, oscilando entre o furor indignado – um estilo recorrente na opinião jornalística – e uma muito cómica pretensão à cientificidade – uma não menos habitual manifestação da ignorância que a si mesma se ignora. Tudo isso sem que a língua portuguesa se ria, galhofeira, como Alexandre O’Neill queria, com quem assim escreve – antes, como O’Neill desqueria, falando bonito, chique e pudico. Por essa razão, o simples bom senso aconselharia a deixar a prosa sossegada nas suas agitações e a passar a matérias verdadeiramente interessantes.

Acontece, no entanto, que a prosa em questão, a tal prosa chique e pudica, acaba por ser significativa de um certo ponto de vista: ela exprime, à sua maneira fruste, uma tendência geral do pensamento democrático contemporâneo que encarna, sem verdadeiro paradoxo, uma vocação despótica, uma tendência que, com uma presciência que nunca será demais sublinhar, Tocqueville diagnosticou já em meados do século XIX. Na sua forma actual, essa tendência manifesta-se de múltiplas maneiras, que são coerentes entre si e que transcendem de longe as questões de género: o apelo a uma regimentação da linguagem, tão mais invasiva quanto novas proibições do uso linguístico se sucedem umas às outras, acompanhando a luxuriante criação de novos termos, quer de utilização obrigatória, quer denominando o que se poderia chamar “crimes de palavra” (por exemplo, “capacitismo”); a divisão da sociedade em identidades estanques que não comunicam entre si, já que tal comunicação seria vista como um modo de ceder ao poder opressivo de uma suposta maioria que tem por objectivo único a destruição dessas mesmas identidades; a própria exorbitação das identidades, que as alça a um patamar metafísico absoluto; e a dissolução dos indivíduos, com a sua dinâmica própria, na identidade metafísica que são supostos representar (veja-se tudo o que se diz sobre o “género”). Poderia continuar, mas isto chega.

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