eco.sapo.pteco.sapo.pt - 24 jun. 07:06

PSI já é o índice europeu que mais sobe desde os mínimos da pandemia

PSI já é o índice europeu que mais sobe desde os mínimos da pandemia

Após os mínimos de março de 2020, o PSI valoriza mais de 60%, o que representa o melhor desempenho na Europa. O PSI soma mais de 5% em 2022, enquanto a maioria dos índices europeus perde perto de 20%.

Quando a pandemia da covid-19 chegou em força à Europa e aos Estados Unidos, em finais de fevereiro de 2020, os índices acionistas globais sofreram um período de três semanas de quedas acentuadas como há muito não se assistia nos mercados financeiros. O movimento de quedas foi tão rápido e violento que as bolsas encontraram os mínimos logo no final de março de 2020. Quem nessa altura investiu no PSI está atualmente a acumular um ganho superior a 60%, o retorno mais elevado entre 10 dos principais índices europeus analisados pelo ECO. O desempenho está em linha com o registado pelos índices norte-americanos, com o S&P500 e Nasdaq Composite a continuarem à frente das bolsas europeias apesar das quedas mais pronunciadas em 2022.

Esta performance do PSI é sobretudo surpreendente tendo em conta o rumo do índice português durante a pandemia. Depois dos mínimos de março de 2020, a bolsa portuguesa andou quase sempre atrás dos mercados globais. No primeiro ano terminou com saldo negativo e em 2021 obteve um ganho pouco acima de 10%, enquanto a maioria dos índices (na Europa e EUA) disparou para máximos históricos com subidas superiores a 20%.

A bolsa portuguesa só em 2022 conseguiu descolar, apresentando um saldo positivo num ano que está a ser marcado por perdas acentuadas em quase todas as geografias, com particular incidência em Wall Street, onde já se vive um “bear market”. O S&P500 e o Nasdaq acumulam quedas acima de 20% desde os máximos históricos, arriscando o pior primeiro semestre desde 1932. Na Europa os principais índices estão perto dessa marca, com o Stoxx600, CAC e DAX a sofrerem perdas em torno de 18% em 2022, o que representa o pior desempenho desde a crise financeira desde 2008.

O PSI regista nesta altura uma valorização acima de 5% em 2022 e este mês já atingiu máximos de oito anos, altura em que acumulava uma subida anual de 14%. A correção das últimas duas semanas, motivada pelo agravamento dos receios com o cenário de recessão na economia global, não retira o brilho ao índice português, que se prepara para fechar o semestre isolado nos ganhos no mercado europeu.

Com Wall Street e as bolsas europeias a sofrerem um dos piores primeiros semestres de sempre, os ganhos acumulados desde os mínimos da pandemia diminuíram de forma substancial. Entre 10 índices europeus analisados, apenas o da Grécia conserva uma subida acumulada acima de 50% desde os finais de março de 2020. O PSI regista o melhor desempenho neste horizonte temporal, sendo o único a apresentar uma valorização acima de 60%, como é visível no gráfico em baixo.

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Fora do lote dos 10 índices europeus analisados, só o da Bolsa de Oslo consegue ganhos comparáveis com o PSI, embora registe um saldo negativo desde o início do ano. As praças da Suíça, Polónia, Dinamarca e Finlândia também sofrem perdas de dois dígitos em 2022.

Energia impulsiona PSI

O PSI está a conseguir esta “overperformance” numa altura em que a economia mundial vive uma espiral inflacionista como não se via há décadas; o conflito militar em solo europeu mais grave desde a II Guerra Mundial; um rápido e sincronizado aperto de política monetária a nível global; escalada dos preços das matérias-primas e receios de recessão global cada vez mais intensos.

A bolsa portuguesa beneficia agora de várias das fraquezas que motivaram um desempenho crónico mais fraco em períodos anteriores. A ausência de empresas tecnológicas no índice, o elevado peso do setor energético e de companhias classificadas como defensivas é agora um trunfo para a bolsa portuguesa, que tira partido da presença de diversas empresas que beneficiam com a alta de muitas matérias-primas (Galp Energia, Navigator, Altri, Mota-Engil), os efeitos da transição energética (EDP, EDP Renováveis, Greenvolt) e da subida de juros (BCP).

Os setores financeiro e energético têm sido os principais impulsionadores do índice, sendo que ambos têm beneficiado com os aumentos dos preços das matérias-primas e com as expectativas de novos aumentos das taxas de juro na Zona Euro. Portugal não tem sido dos países mais afetados com a guerra no leste da Europa.

Henrique Tomé, analista da XTB

Com 11 cotadas do índice em alta e apenas quatro em queda em 2022, a Altri (+54%) lidera os ganhos desde o início do ano, beneficiando com o destaque da Greenvolt. A Galp Energia surge em segundo e é a que mais impulsiona o PSI (+27%), um desempenho em linha com o setor do Oil & Gas que tira partido dos máximos nas cotações do petróleo. Greenvolt e REN também contribuem para a alta do índice português. Fora da energia destaque para o BCP, Navigator, Semapa, Sonae e Nos. Mesmo as cotadas com saldo anual negativo conseguem uma prestação acima dos setores onde se inserem. É o caso da EDP, Jerónimo Martins e Mota-Engil. Os CTT lideram as perdas no PSI (-33%) depois de as ações da empresa de correios terem duplicado em 2021 devido à explosão do comércio eletrónico.

“A bolsa portuguesa tem uma concentração muito elevada em empresas estáveis e maduras dos setores energético, produtores de matérias-primas, retalho ou telecomunicações, que têm tido um bom desempenho durante o ano, por razões setoriais ou específicas”, diz Nuno Sousa Pereira, diretor de investimentos da Sixty Degrees. Adicionalmente, o PSI “destaca-se pela ausência de grandes empresas tecnológicas, ou empresas de elevado crescimento mas ainda sem resultados, que têm sido os principais afetados pelas desvalorizações das bolsas a nível mundial”.

Mário Martins, analista da ActivTrades, também destaca a “elevada preponderância do setor energético na bolsa nacional”. Henrique Tomé, analista da XTB, junta um outro fator: “Portugal não tem sido dos países mais afetados com a guerra no leste da Europa” e “será o país da Zona Euro que mais irá crescer este ano”, o que se tem refletido no desempenho do índice.

Tendo sido das últimas economias da Zona Euro a recuperar para níveis pré-pandemia, Portugal liderou no primeiro trimestre com um crescimento de 11,9%. As estimativas da Comissão Europeia colocam o PIB nacional a crescer 5,8% este ano, o que representa o melhor desempenho entre todos os países da UE. A Sonae, que é vista como a cotada que mais reflete o andamento da economia portuguesa, acumula uma valorização em torno de 10% este ano, o que contraria a tendência negativa do setor na Europa.

Continuar no caminho das valorizações poderá ser bem mais desafiante, uma vez que a conjuntura internacional, especialmente no caso duma potencial recessão, não deverá deixar Portugal incólume e o país deverá começar a sentir os impactos, quer da quebra de procura, quer das condições de financiamento mais restritas, já após o verão.

Nuno Sousa Pereira, diretor de investimentos da Sixty Degrees
Recessão pode travar desempenho

No atual contexto de elevada incerteza nos mercados financeiros, com os receios de uma recessão global a agravarem-se, conseguirá o PSI manter este desempenho superior aos congéneres europeus? Os analistas ouvidos pelo ECO mostram-se cautelosos, assinalando que vai depender sobretudo da evolução das cotações das matérias-primas e da economia global.

Manter a diferença para as restantes praças é possível, bastando para isso que o atual ambiente de procura por bens, como a energia e as matérias-primas, se mantenha saudável”, assinala Nuno Sousa Pereira.

“Continuar no caminho das valorizações poderá ser bem mais desafiante, uma vez que a conjuntura internacional, especialmente no caso duma potencial recessão, não deverá deixar Portugal incólume e o país deverá começar a sentir os impactos, quer da quebra de procura, quer das condições de financiamento mais restritas, já após o verão”, acrescenta o diretor de investimentos da Sixty Degrees.

Henrique Tomé destaca que se a inflação continuar a aumentar, “o crescimento económico deverá abrandar e, por isso, acredito que a própria bolsa portuguesa acabe por ser prejudicada com o potencial risco de abrandamento”.

Para o PSI continuar a superar os outros índices europeus, “basta que as energéticas continuem a ter um desempenho acima do restante mercado, o que poderá ser difícil uma vez que o preço do petróleo pode estar perto de máximos, em virtude da possibilidade de uma recessão global”, salienta Mário Martins. O Brent em Londres atingiu esta semana mínimo de maio abaixo de 110 dólares devido às perspetivas de abrandamento no consumo.

Basta que as energéticas continuem a ter um desempenho acima do restante mercado, o que poderá ser difícil uma vez que o preço do petróleo pode estar perto de máximos, em virtude da possibilidade de uma recessão global.

Mário Martins, analista da ActivTrades
BCP com potencial

Na atual conjuntura de inflação elevada, subida de juros e perspetivas de abrandamento económico global, quais as ações do PSI que apresentam o potencial mais elevado? Entre as várias sugestões dos analistas ouvidos pelo ECO, o BCP é a aposta mais consensual, apesar de já acumular uma subida de 24% em 2022.

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“Tanto o setor financeiro como o setor energético são os que têm mais potencial, sobretudo o financeiro”, diz o analista da XTB, assinalando que “estamos numa altura em que o BCE se prepara para aumentar as taxas de juro”, o que vai beneficiar a banca. “Por outro lado, a curto e médio prazo o setor energético continua a ser atrativo para muitos investidores, uma vez que os preços das matérias-primas energéticas se mantêm elevados e muitos dos investidores estão a aguardar que estas empresas apresentem os seus resultados referentes ao segundo trimestre”, acrescenta Henrique Tomé.

O analista da ActivTrades salienta que a “subida dos juros em princípio beneficia a banca, a inflação elevada prejudica quase todos os setores, menos os produtores de algumas matérias-primas, produtos alimentares ou industriais, que podem aproveitar o ruído da inflação para aumentar margens”.

Nuno Sousa Pereira também destaca a banca “representada pelo BCP, devido ao efeito positivo da subida de taxas de juro no produto bancário, sendo que o cenário central não pressupõe um aumento demasiado elevado dos incumprimentos de crédito”.

O diretor de investimentos da Sixty Degrees junta mais cotadas à lista das que apresentam o potencial mais atrativo. “Os retalhistas como a Jerónimo Martins e a Sonae, são empresas que podem beneficiar de uma margem positiva pelo seu ciclo de caixa negativo num ambiente de juros positivos” e “o facto de possuírem operações em várias geografias e/ou outros setores deverá mitigar o risco bem como aumentar a oportunidade de integração vertical ou sinergias multigeografia”. Nuno Sousa Pereira inclui ainda “as empresas de telecomunicações, como a NOS, que poderão ver aumentada a procura por soluções tecnológicas por parte das empresas, que neste contexto de inflação elevada tentarão cada vez mais melhorar a sua eficiência operacional”.

No Iberian Book que publicou na semana passada, com as ações preferidas para o segundo semestre, o CaixaBank BPI destacou duas cotadas portuguesas: EDP e Navigator. A escolha da elétrica deve-se ao facto de a cotada liderada por Miguel Stilwell ser um “player” para estar exposto à transição energética a preços acessíveis, além de registar perspetivas de crescimento nas renováveis e possibilidade de cristalizar valor através da rotação de ativos. Já a Navigator beneficia com o facto de a subida dos preços do papel mais do que compensar a inflação, que deverá levar a companhia para um EBITDA recorde em 2022.

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