www.jn.ptjn.pt - 24 jun. 09:55

″Obrigado″: o último concerto de Milton Nascimento em Lisboa foi um samba de amor

″Obrigado″: o último concerto de Milton Nascimento em Lisboa foi um samba de amor

O cantor de quase 80 anos escolheu Portugal para a sua digressão de despedida dos palcos, que vai ainda passar por Castelo Branco, Porto e Braga

Do bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro, para uma digressão de consagração, celebração e despedida, distam quase 80 anos de vida de um dos maiores ícones da música popular brasileira. Milton Nascimento, o "mais mineiro de todos os cariocas", escolheu o ano em que assinala oito décadas de vida e seis de carreira para levar à estrada "A Última Sessão de Música", uma série de concertos que marcam a sua despedida dos palcos. A última sessão de Lisboa, ontem no Coliseu dos Recreios, foi como Bituca canta: um cuidar da vida.

Casa cheia, plateia sentada e um ambiente, num Coliseu há vários dias esgotado, completamente efervescente: ainda antes da entrada do músico em palco já se aplaudiam e cantavam, em coro e gritos, os temas brasileiros a passar nas colunas como "Como os nossos pais" de Elis Regina. Havia gente de todas as idades, jovens agarrados a discos de vinil, talvez na esperança de conseguir um autógrafo no final. Seria uma noite, sentia-se já, de celebração e louvor à música brasileira e a um dos seus maiores ícones. E o caso não era para menos: depois de 60 anos de carreira, Milton tinha escolhido apenas Portugal, Itália, Inglaterra e Espanha, na Europa, para a sua última digressão.

Aqui, Milton joga claramente em casa: além das ligações históricas e culturais entre nações, a comunidade brasileira presente no nosso país fez-se representar em força, na despedida de um dos seus heróis. E Milton chegou, atrasado mas logo em festa: não tinha sequer aparecido quando o anúncio da sua entrada provocou a primeira ovação de pé da noite. Estava lançado o tom, e depois de "Tambores de Minas", "Ponta de Areia" e "Catavento" o artista ofereceu o primeiro "boa noite" ao público, acrescentando de seguida: "eu queria agradecer a todos vocês, por tornarem a minha vida tão linda". Lembrou que tinha acabado de cantar uma música de Elis Regina, a mesma que já tinha posto a sala a cantar antes do concerto, e aquela que foi, confessou então, o amor da sua vida.

Sempre sentado, de boina na cabeça, sorriso no rosto e com uma voz pela qual o tempo não parece ter passado, Milton continuou a viagem pela sua carreira feita de 34 discos e inúmeros prémios: primeiro "Morro Velho", "Outubro", e "Para Lennon e Mccartney" que originou o primeiro grande momento de dança coletiva, ovação e vénias no final. Num crescendo de ritmo, houve tempo para outros clássicos, e são tantos: como "Cais", ou "Tudo o que Você Podia Ser". Depois de "San Vicente", o cantor confessou: viver este momento, depois de 60 anos de carreira, "é a prova de que os meus sonhos jamais envelheceram". Eterno poeta, o artista que nas suas músicas fala do Brasil, da América, de emigração, de trabalho, de amor, de fé, de amizade, de desigualdades, canta então, em "Clube da Esquina": "porque se chamavam homens; também se chamavam sonhos; e sonhos não envelhecem".

A partir daí, o público entrou em constante modo efusivo até ao final: "Lília", "Nada Será como Dantes", "Fé Cega, Faca Amolada", "Peixinhos do Mar", "Canção da América", tudo temas cantados e dançados, aplaudidos com regulares ovações e gritos por "Bituca", o nome carinhoso de infância e que traz consigo até hoje.

Antes de "Nos Bailes da Vida", dizia querer homenagear todos os "artistas especiais": que, como ele, começaram a tocar na noite. Entre novas vénias, tempo para "Tema de Tostão Incidental", "Cio da Terra", e "Maria, Maria", onde canta sobre esta "estranha mania, de ter fé na vida", caminhando para um final da música verdadeiramente apoteótico, com a lotada sala em pé e a dançar até ao cair

Da cortina para o encore

Bituca, o público novamente assim o chamou, regressou ainda com "Coração de Estudante", após o qual grita "viva a democracia", despoletando um coro de gritos de "Fora Bolsonaro" durante vários minutos. Porque o próximo tema era "Encontros e Despedidas" apresentou uma "nova amiga" para cantar com ele, Maro; e terminou depois com aquele que é talvez o seu tema mais icónico, "Travessia", em dueto com a portuguesa Carminho. Visivelmente emocionada, a fadista destacou a honra "de fazer parte deste momento", lembrando: Milton é "muito especial, para muitos artistas; que se tornaram mais valentes, e melhores, por causa dele".

Milton Nascimento faz 80 anos em outubro e sai da estrada por motivos de saúde (como diabetes e problemas cardíacos) mas já avisou que não deixará a arte de fazer música: a essa, garantiu, um adeus "jamais". Ainda sentado, de boina na cabeça e sorriso no rosto, despediu-se, isso sim, de Lisboa. "Já não quero ir mais embora", cantava a dado ponto, sob nova ovação do público, que claramente não o queria deixar. O cantor atua agora em Castelo Branco (26 de junho, no Cineteatro Avenida) e no Porto (dia 29, na Casa da Música), tendo também um concerto no Theatro Circo de Braga, a 2 de julho, ainda que fechado ao público.

NewsItem [
pubDate=2022-06-24 08:55:00.0
, url=https://www.jn.pt/artes/obrigado-o-ultimo-concerto-de-milton-nascimento-em-lisboa-foi-um-samba-de-amor-14964829.html
, host=www.jn.pt
, wordCount=822
, contentCount=1
, socialActionCount=0
, slug=2022_06_24_205422025_-obrigado-o-ultimo-concerto-de-milton-nascimento-em-lisboa-foi-um-samba-de-amor
, topics=[concelho lisboa, m�sica, música, artes]
, sections=[vida]
, score=0.000000]