visao.sapo.ptapfigueiredo - 24 jun. 08:30

Visão | Um anarquista africano em Lisboa

Visão | Um anarquista africano em Lisboa

“Se Luanda é um esquisse apressado de Lisboa, a capital portuguesa me pareceu uma caricatura grosseira de Paris. Os portugueses imitam os franceses em tudo”

Dezembro de 1889. Amanhecia, quando Job Jolomba, filho varão do rei do Bailundo, Ekuikui II, desembarcou em Lisboa. O rapaz sobressaía entre os restantes passageiros, não apenas por causa da cor da pele mas sobretudo em razão da elevada estatura e do invulgar vigor físico.

Acompanhava-o outro moço, quase tão alto quanto o príncipe, mas de constituição frágil e delicada – o seu amigo e secretário, Anastácio Tchipilica. Jolomba, que fora educado por missionários canadianos, falava melhor inglês do que português. Lia muito e tinha o hábito de anotar, num caderno que transportava sempre consigo, tudo quanto lhe despertasse a curiosidade. Cinco meses após desembarcar na capital portuguesa, o jovem ovimbundo caiu de cama, derrubado por uma febre súbita, vindo a falecer antes que os médicos descobrissem a origem do seu mal. Anastácio Tchipilica retornou a Angola, levando o caderno do príncipe que entregou aos cuidados de um missionário norte-americano. No final dos anos 70, o caderno foi descoberto na Biblioteca do Congresso, em Washington, por um historiador húngaro, que investigava a extraordinária jornada, através de Angola, do seu conterrâneo László Magyar.

NewsItem [
pubDate=2022-06-24 07:30:00.0
, url=https://visao.sapo.pt/opiniao/a/nem-tudo-e-ficcao/2022-06-24-um-anarquista-africano-em-lisboa/
, host=visao.sapo.pt
, wordCount=181
, contentCount=1
, socialActionCount=0
, slug=2022_06_24_1919962109_visao-um-anarquista-africano-em-lisboa
, topics=[josé eduardo agualusa, opinião, crónica, nem tudo é ficção]
, sections=[opiniao]
, score=0.000000]