observador.ptobservador.pt - 24 jun. 10:59

"Só quero sair daqui viva", norte-americana vê aborto negado em Malta apesar de gravidez inviável

"Só quero sair daqui viva", norte-americana vê aborto negado em Malta apesar de gravidez inviável

Com 16 semanas de gravidez, Andrea Prudente foi admitida no hospital com uma grave perda de sangue. Apesar do risco de hemorragia e infeção não pode abortar enquanto o feto tiver batimento cardíaco.

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As férias de um casal norte-americano em Malta foram interrompidas quando Andrea Prudente, grávida de 16 semanas, foi admitida no hospital com uma grave perda de sangue. Apesar do elevado risco de hemorragia e infeção, os médicos disseram à mulher que não poderiam proceder a um aborto porque a lei do país não o permite.

Prudente, de 38 anos, estava na ilha Gozo, com o marido, Jay Weeldreyer, quando começou a perder sangue durante a noite. Segundo o The Guardian, os médicos prescreveram-lhe uma medicação contra o aborto, mas passados dois dias as águas rebentaram e teve de ser admitida no St. Thomas Hospital, onde a informaram de que a placenta se tinha soltado parcialmente do útero.

Exames posteriores revelaram que não tinha fluído amniótico no útero, tornando a gravidez inviável: o bebé não tinha hipóteses de sobreviver. Porém, devido à lei que vigora no país, os médicos não podem terminar a gravidez enquanto o feto tiver batimento cardíaco.

Só quero sair daqui viva”, disse Prudente ao The Guardian a partir do quarto de hospital Mater Dei, em Valletta, para onde foi transferida.

A situação tem vindo a complicar-se devido a uma rutura da membrana e à posição do cordão umbilical. Além disso, testou positivo à Covid-19 e teve de ser colocada em isolamento.

O casal está a tentar viajar para o Reino Unido, opção de último recurso para proteger Prudente. No entanto, acusa a equipa do hospital de não cooperar com a transferência e de não partilhar os registos médicos à companhia de seguros.

Prudente recebeu, entretanto, os registos de que precisava e o conselho da equipa médica foi que deixasse o hospital e esperasse no hotel que o coração do bebé parasse de bater ou que desenvolvesse uma infeção, momento em que já poderiam intervir.

“O bebé não pode sobreviver, não há nada que se possa ser feito para o mudar. Nós desejávamo-la e ainda desejamos, nós amamos o nosso bebé, queríamos que sobrevivesse, mas isso não vai acontecer. E não só estamos numa posição em que vamos perder a filha que queríamos, mas o hospital está a prolongar a exposição de Andrea ao risco”, relatou Jay Weeldreyer à BBC.

Os últimos dias foram passados pelo casal fechados num quarto de hospital, que Weeldreyer descreve como uma forma de tortura emocional e psicológica: “Parte de mim ainda celebra ao ouvir o bater do seu coração, mas ao mesmo tempo não quero aquele batimento ali porque só está a causar mais sofrimento à mulher que amo”.

Em Malta, o aborto é ilegal em qualquer circunstância — mesmo quando não há hipóteses do feto sobreviver — e, segundo a Euronews, aqueles que o provocarem podem enfrentar até três anos de prisão. Esta medida inclui a mulher grávida e os profissionais de saúde envolvidos no procedimento. A única opção para as mulheres que procuram terminar uma gravidez é recorrer a medicação ilegal ou fazer um aborto no estrangeiro.

Na semana passada, a Fundação dos Direitos da Mulheres apresentou um protesto judicial em nome de 188 mulheres que alegam que a proibição do aborto na Malta é uma violação aos seus direitos à saúde, privacidade e igualdade. A organização prepara-se agora para contestar a constitucionalidade da proibição do aborto.

Andrea Prudente confessa estar “desesperada” por abandonar a ilha, mas sente-se na obrigação de partilhar a sua história para consciencializar as pessoas e evitar que outras mulheres passem por esta situação.

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