www.jn.ptjn.pt - 24 jun. 01:00

O meu S. João

O meu S. João

Para mim, o S. João é em Braga. Não por considerar que aí está a maior festa são-joanina do país, porque nada disso é assim, mas porque encontro na cidade o chão para esboçar o traço genuíno desta celebração cristã cheia de manifestações pagãs: a alegria coletiva de quem festeja de forma simples e genuína. Hoje, pelas ruas da cidade, andarão os carros do rei David e dos pastores, numa manifestação única em todo o país.

Beneficiando de ter sempre morado perto da capela de S. João, sítio a partir do qual ramificam todos os festejos desta altura, habituei-me a um frenesim que atravessa a cidade durante vários dias. Pela noite de ontem que estica sempre até às orvalhadas da manhã, espalha-se o som único de uma multidão que se junta numa espécie de cola coletiva à volta de um entusiasmo que contagia até gente de perfil mais discreto.

Depois de dois anos de pandemia, regressa-se agora à rua sem restrições. Para mim, parece que recupero a festa que terá ficado "in illo tempore" de que guardo boas memórias, mas que parecem algo remotas, tal a estranheza do período pandémico que atravessámos.

Hoje, em Braga, voltarei à tradição que renovo a cada ano: o encontro com os carros do rei David e dos pastores. Puxados normalmente por tratores, esses atrelados exibem, pelas ruas da cidade, uma manifestação irrepetível. A Dança do Rei David junta 13 elementos, que encenam uma dança sob um fundo musical oitocentista tocado pelos próprios. De origem desconhecida, a dança terá semelhanças com a Mourisca, embora coloque ao centro a destacada figura bíblica do pastor que se tornou monarca do povo de Deus ao derrotar Golias: o rei David. Ao seu lado, andará sempre um outro carro, por vezes puxado por bois, com pastores que entoam cânticos algo pueris dedicados a São João, o menino a quem entregam uma ovelha e que, em troca, lhes dá a mão a beijar. Trata-se de uma tradição medieval cujo objetivo era perfumar as ruas com ervas de cheiro, acreditando que, com isso, se purificava a cidade.

É este o meu São João, cheio de uma religiosidade trespassada por vivências puramente pagãs. Com passagem obrigatória pela capela de S. João e pelas margens do rio Este onde se podem ver quadros bíblicos representando o batismo de Jesus, de um lado, e, do outro, S. Cristóvão a atravessar o leito com o menino aos ombros. Dali, até aos carrinhos de choque, ao pão com chouriço, às tendas das sardinhas e às farturas é um saltinho. É disto que se fazem as festividades populares: um regresso genuíno a uma identidade coletiva.

*Prof. associada com agregação da UMinho

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