www.jn.ptjn.pt - 23 jun. 16:34

Há um cheiro a pólvora no céu da Europa

Há um cheiro a pólvora no céu da Europa

A fome vai começar e eles vão [...] ser nossos amigos. Escrita assim até parece uma afirmação de uma criança, mas é a declaração da arrogância russa proferida por Margarita Simonian, dirigente televisiva, no Fórum Económico Mundial de São Petersburgo. Portanto, condenando os povos à fome, o regime de Moscovo acredita que conseguirá aliados e, por essa via, ganhará a guerra miserável com que massacra o povo ucraniano há 120 dias. É surreal.

É a expressão do mais profundo desprezo pelos seres humanos! Não só pelos ucranianos, mas por todos os povos do mundo cuja alimentação depende, em grande parte, dos cereais da Ucrânia e da Rússia. Só a Ucrânia tem armazenadas mais de 20 milhões de toneladas de cereais que não consegue escoar por não ter acesso ao mar de Azov nem poder navegar no Mar Negro e por a via terrestre não permitir transportar a quantidade que responderia às necessidades dos povos, sobretudo dos países africanos.

A Rússia bloqueou o acesso aos portos mais importantes da Ucrânia e, desse modo, inviabilizou as exportações de sete milhões de toneladas de trigo, 14 milhões de toneladas de milho, três milhões de toneladas de óleo de girassol e outros três milhões de toneladas de farinha de girassol. E mais: a Rússia tem saqueado os cereais ucranianos e destruído silos onde se encontram

armazenados os produtos cerealíferos - uma ação que já mereceu de Josep Borrell, alto-responsável da União Europeia, o epíteto de crime de guerra.

Portanto, os cereais existem numa quantidade que permitiria alimentar a população mundial e, no entanto, já há países a sofrer de fome. Por agora, a fome alastra em vários países de África. Na Europa, o aumento dos preços ameaça as pessoas mais vulneráveis. Em breve, poderemos ter um problema de fome na Europa e não se vislumbram ações que possam obrigar o Kremlin a permitir o escoamento dos cereais por via marítima.

Ora, se nem para os cereais há uma solução diplomática, o que poderemos esperar para a guerra? Rigorosamente nada. Não podemos esperar nada. É impossível negociar com um líder político como Vladimir Putin, que ousa comparar-se a Pedro, o Grande, ressuscitando fantasmas com quase 300 anos, mitos de um império que não pode existir no século XXI, memórias das atrocidades perpetradas pelos exércitos invasores nas duas guerras mundiais, mas sobretudo pelas tropas de Adolf Hitler durante os anos da segunda guerra mundial.

Perante a escalada retórica do Kremlin e a intensificação dos combates na região do Donbass, alguns líderes europeus anunciam os preparativos dos seus países para a guerra na Europa. É uma desgraça que se avizinha. É a guerra na Europa que se aproxima a uma velocidade perturbadora. Enquanto a França, a Alemanha e a Itália tentam travar a escalada belicista, o Reino Unido vaticina que os britânicos devem estar preparados para lutar mais uma vez na Europa, a Finlândia declara-se pronta para a luta se for atacada, a Estónia e a Lituânia querem enviar navios de guerra para o Mar Negro para protegerem os navios ucranianos que venham a transportar os cereais.

Enquanto apregoa que quer a paz, a Europa prepara-se para a guerra - uma guerra mais vasta no território europeu, mais longa, mais desgastante, mais destruidora... Uma guerra imprevisível como são todas as guerras. A primeira guerra mundial começou e todos afirmavam que seria um conflito breve e circunscrito e acabou por ser uma guerra longa (1914-1918) que alastrou a todo o mundo e teve consequências devastadoras. A segunda guerra mundial prolongou-se no tempo (1939-1945) e no espaço e provocou a maior catástrofe humanitária do século XX - o holocausto.

E agora, em pleno século XXI, este conflito bélico na Ucrânia é uma guerra "surpreendentemente bárbara e antiquada", como escreveu o The New York Times depois de analisar mais de mil imagens da guerra, da autoria de fotojornalistas de todo o mundo, que permitiram identificar mais de duas centenas de armas proibidas pelos tratados internacionais e que, no entanto, têm sido usadas pelos russos contra civis na Ucrânia.

É uma guerra que desencadeou uma crise económica gravíssima e que está a provocar um investimento sem precedentes na segurança e defesa nacionais; que já provocou a maior crise humanitária do nosso tempo: mais de sete milhões de refugiados e milhares de mortos e feridos militares e civis; uma destruição que condena toda uma nação à miséria, disseminando um cheiro a pólvora no céu da Europa.

* Historiadora (HTC - CFE - Nova FCSH)

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