visao.sapo.ptapfigueiredo - 23 jun. 08:30

Visão | A “doença” e os remédios

Visão | A “doença” e os remédios

Face às reais carências e deficiências do SNS, o que antes de tudo se exige é haver um levantamento esclarecedor de quais são, relações e eventuais “dependências” entre elas, propostas para as resolver, inclusive alternativas quando as houver

Nos últimos dias a comunicação social voltou a ter em grande destaque os problemas no Serviço Nacional de Saúde (SNS), com o encerramento, alguns dias, das urgências de Obstetrícia de certos hospitais, sobretudo na área da Grande Lisboa. A saúde constitui a maior preocupação das pessoas, o que afeta o SNS interessa a todos, sendo por isso, sempre, um tema “principal” da informação e da opinião. Aqueles problemas são bem reais, a necessidade de os analisar e resolver é premente: o primeiro-ministro sublinhou-o, prometendo a procura das indispensáveis soluções.

António Costa, um político de evidente talento e competência, sabe que ao fazê-lo não lhe era politicamente aconselhável acrescentar nada, mesmo apenas contextualizar aqueles problemas. Ora, se penso útil tal contextualização, que aqui não cabe, uma coisa ao menos julgo impor-se salientar. O quê? O facto de amiúde as críticas, justificadas, a carências concretas do SNS tenderem a ser tingidas de cores mais negras e injustamente generalizadas. Em simultâneo se esquecendo ou omitindo:

a) circunstâncias excecionais que podem explicar situações gravosas para os utentes; b) as diferenças entre hospitais públicos e privados, mormente tomando em conta os preços por estes praticados, e todos os aspetos positivos do SNS, em particular quando se trata de resolver situações clínicas mais graves (e durante muito tempo foi o que se passou – não sei se tal ainda se verifica – inclusive na área da Obstetrícia).

Nesta perspetiva, devem lembrar-se as aceradas críticas, mesmo ataques, ao estado depauperado, se não moribundo, do SNS, imediatamente antes da eclosão da Covid-19. Em casos de maior militância contrastando-o com o do setor privado (segundo alguns, a “indústria” da saúde é a mais rentável após a da droga e a do armamento). Ora, deflagrada a pandemia, verificou-se não ser bem assim… – e o SNS foi o essencial, decisivo, no seu combate.

Bom, mas face às reais carências e deficiências do SNS, o que antes de tudo se exige é haver um levantamento esclarecedor de quais são, relações e eventuais “dependências” entre elas, propostas para as resolver, inclusive alternativas quando as houver. Porque abundam visões parcelares, algumas contraditórias e/ou “complicadas”, de possíveis causas, faltando uma visão global, articulada e de leitura clara do todo.

Ouvem-se as queixas mais diversas, por vezes em contradição com a realidade atestada por estatísticas nacionais e internacionais. Por exemplo: diz-se que o problema é a falta de médicos. Ora, Portugal tem o terceiro mais alto ratio europeu de médicos por habitantes, 5,4 por mil, em 2019, segundo a UE, 4,26 em 2018 segundo a OCDE, sendo a média de 3,2; e entre os médicos generalistas, pelo menos em 2016, estava em primeiro lugar.

Por outro lado, diz-se que a situação tem piorado nos últimos anos. Ora, Portugal é dos países, ou mesmo o país, em que tem havido evolução mais positiva, com um crescimento ao ano, entre 2014 e 2018, de 3,63, sendo a média da UE de 1,4. E enquanto entre 1960 e o 25 de Abril de 1974 o número de clínicos aumentou cerca de 50%, a partir daí e até 2020 cresceu 450%. 

Em 2019, dos 55 432 médicos inscritos na Ordem, mais de 60% tinham especialidade. Mas faltam médicos em algumas especialidades, sem abrirem vagas suficientes para elas serem tiradas, sendo o número de tais vagas definido pelos colégios de especialidade da própria Ordem.

Muitos outros dados poderiam apresentar-se, incluindo do maior financiamento do SNS. Cereja no topo do bolo, o ministro das Finanças veio há dias declarar, a propósito do encerramento de urgências de Obstetrícia, que o problema não é o dinheiro. Enquanto numerosos médicos, cuja formação se fez com o essencial contributo do erário público… enquanto os administradores hospitalares… enquanto os responsáveis pelo setor…

Enfim, realidades desencontradas ou contraditórias, as culpas sempre dos outros, queixas de todos os lados, em geral acabando por “apontar” ao alvo mais fácil, a ministra Marta Temido, etc. Quando o que se impõe é um diagnóstico lúcido, sereno, equilibrado da situação. Identificar a doença e encontrar o(s) remédio(s).

À MARGEM
Na Ucrânia a situação tende a manter-se piorando, enquanto até se deixou de falar de tentativas de negociações de paz. Em França, Macron venceu perdendo, pelo menos a maioria, e de longe; a esquerda ficou contente com um segundo lugar à distância; a com mais razões para clamar (uma certa) vitória foi a agora também chamada – à semelhança da antiga, salazarista – União Nacional. Na Colômbia, valha-nos isso, pela primeira vez a esquerda, e uma esquerda democrática, elegeu o Presidente da República, Gustavo Petro, sendo vice-presidente, também pela primeira vez, uma mulher e negra. Isto é ainda mais importante quando o seu adversário, apoiado pelo atual Presidente, era um empresário riquíssimo a quem chamavam, com razão, o Trump da Colômbia. Que feliz estaria, se cá estivesse, o colombiano, genial, Gabriel García Márquez…

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