jornaleconomico.ptAna Pina - 24 jun. 00:12

A semana de quatro dias

A semana de quatro dias

Do ponto de vista de organização social, e para este modelo funcionar bem, teria de ser o mais extensivo possível e, para isso, o ideal seria ser decidido de cima para baixo.

No passado dia 13 de junho tive o prazer de ouvir no podcast “Perguntar não ofende” de Daniel Oliveira, Pedro Gomes, professor na Universidade de Birkbeck, falar sobre a semana de quatro dias. Gostei imenso de o ouvir porque me ajudou a organizar as minhas próprias ideias sobre o tema.

Alguns tópicos que me pareceram fundamentais.

Em primeiro lugar não há nenhum motivo económico para a economia ter que funcionar, na maioria das atividades, em cinco dias. Mais, o funcionamento em quatro dias com três de descanso, consecutivos, seria fundamental para potenciar um conjunto de atividades de lazer e de descanso e, concomitantemente, potenciar o crescimento do consumo.

A ideia de base é que os quatro dias de trabalho seriam para trabalho conjunto, onde a dinâmica de coletivo e de interação é fundamental. Muitas outras atividades dizem respeito a trabalho individual que, muitos de nós, já fazemos ao fim de semana (como escrever estas crónicas, p.ex). Isso continuaria a ser possível, evidentemente, e até com maior disponibilidade.

O mais importante desta opção é que, tudo indica, parece poder ser uma situação win-win. Os trabalhadores ganhariam tempo de lazer, de família, de organização individual do trabalho se assim o entenderem, e as empresas ganhariam em produtividade marginal e total.

Sim, tudo indica que a redução para quatro dias de trabalho semanal levaria a um aumento da produtividade/hora em mais do que 20%, o que implicaria um aumento da produção total. E porquê? Por um lado, porque os trabalhadores estariam mais descansados, mais alerta e menos propensos a cometerem erros. Além disso reduzir-se-ia o absentismo e melhorar-se-ia a saúde mental dos trabalhadores.

Por outro, ao obrigar a uma reorganização de tarefas, com a colaboração dos trabalhadores satisfeitos com a opção, poder-se-ia ter ganhos de eficiência. As empresas teriam que repensar um conjunto de atividades diárias (nomeadamente, por exemplo, as reuniões) por forma a conseguirem comprimir para quatro dias o que anteriormente faziam em cinco.

Na minha opinião, isto poderia ser feito com uma redução de salário inferior à diminuição das horas (ou mesmo sem redução nenhuma), o que significaria um aumento do salário por hora.

Do ponto de vista de organização social, e para este modelo funcionar bem, teria de ser o mais extensivo possível e, para isso, o ideal seria ser decidido de cima para baixo, ao mesmo tempo para todas as atividades (exceto, claro, as que já hoje são essencialmente de fim de semana ou necessárias sete dias por semana).

Esta opção seria muito mais eficaz do que a redução do horário semanal. Pouparia tempo e custos de deslocação do trabalhador para o local de trabalho, e a produtividade marginal aumentaria mais com um dia de folga adicional do que com menos uma hora de trabalho diária.

Mais. Esta solução pouparia energia, água e outros custos de funcionamento às empresas, que passariam a estar fechadas três dias por semana. Esta solução potenciaria as atividades económicas de lazer, que em termos de crescimento económico poderiam substituir ou compensar outras atividades produtivas.

Num país de baixos salários como o nosso poder-se-ia argumentar que se o salário/hora aumenta os trabalhadores poderiam trabalhar os mesmos cinco dias e ter um salário mensal maior. O problema é que o aumento de salários com a manutenção dos cinco dias de trabalho não traz o acréscimo de produtividade que garanta às empresas a tal situação win-win.

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