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Comemoração da Fundação de Portugal

Comemoração da Fundação de Portugal

Na procura de um dia para a comemoração da Fundação de Portugal, essa data só pode ser o dia 24 de Junho.

De Guimarães o campo se tingia
Co´o sangue próprio da intestina guerra
Onde a mãe, que tão pouco o parecia

A seu filho negava o amor e a terra.
Com ele posto em campo já se via;
não vê a soberba o muito que erra
Contra Deus, contra o maternal amor;
Mas nela o sensual era maior.”
Lusíadas: Canto IIII, 31

“Era de 1166 (1128 da era cristã): no mês de junho, festa de S. João Batista, o ínclito infante Afonso travou com eles, indignos estrangeiros da nação, combate no campo de S. Mamede, próximo do castelo de Guimarães. Venceu-os e prendeu-os na sua fuga…” (In Crónica dos Godos, doc. dos fins do séc. XII).

Foto DR

Num feriado apenas municipal, os vimaranenses comemoram mais um aniversário da Batalha de S. Mamede, considerada como o primeiro ato da Fundação de Portugal, já que a derrota do infante Afonso representaria a perda, sem remissão, da causa nacional.

Em escritos anteriores recordei a figura de D. Afonso Henriques como militar e político, abordando ainda as várias tentativas para a sua canonização: “pio, beato e santo”. Agora, nesta comemoração aniversária, pretendo recordá-lo no âmbito da diplomacia, junto da Cúria Romana.

O Vaticano foi o primeiro Estado a reconhecer Portugal como uma nação independente. Tal facto deve-se a D. Afonso Henriques e à sua diplomacia. Na verdade, além de um exímio militar e político, D. Afonso Henriques foi também um excelente diplomata. Na tentativa de evitar laços de vassalagem pretendidos por Leão e Castela e obter a garantia e consolidação do Reino, o nosso primeiro monarca promoveu imensas diligências no sentido da constituição de uma vassalagem ao Papa Inocêncio II, o que fez em 1143, nas mãos do Cardeal Guido de Vico, encomendando o território português a S. Pedro e à Igreja Romana.

D. Afonso Henriques teve a ajuda preciosa do arcebispo de Braga, D. João Peculiar, considerado por alguns autores como seu ministro de Negócios Estrangeiros

Documentando esse ato de enfeudamento, enviou ao Papa a carta Claves Regni Coelorum, prometendo um tributo anual de quatro onças de ouro, mas pondo como condição de “gozar da proteção papal, para si a para a dignidade e categoria de reino e não reconhecer qualquer senhorio espiritual ou temporal, exceto o Papa e seus delegados. Na conquista do reconhecimento papal da independência do reino, D. Afonso Henriques teve a ajuda preciosa do arcebispo de Braga, D. João Peculiar, considerado por alguns autores como seu ministro de Negócios Estrangeiros.

D. Afonso Henriques promoveu, simultaneamente, a constituição de uma Igreja nacional dependente da primazia bracarense, e não de Toledo. Nessa altura, a Cúria Romana dava a D. Afonso Henriques o título de “dux”. Apenas em 1179, no pontificado de Alexandre III, é que a existência do reino de Portugal e a dignidade real de D. Afonso Henriques foram reconhecidas pela bula Manifestis Probatum, emitida a 23 de maio daquele ano. Por este diploma, o Papa Inocência III, “considerando D. Afonso Henriques “pessoa provida de prudência e dotado de justiça e idóneo para um governo de um povo, aceita-o, e aos seus sucessores, sob a proteção papal e de S. Pedro, com a dignidade do reino, com todas as terras que, com o auxílio da Graça Celeste, ganhar aos sarracenos…”

Em conclusão, dir-se-á que, na procura de um dia para comemoração da Fundação de Portugal, essa data só pode ser o dia 24 de Junho, como insistentemente tem sido defendido pela Grã Ordem Afonsina, associação sediada em Guimarães.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

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